
Alerta de spoiler: se você ainda não assistiu ao primeiro episódio de Vinyl, o comentário abaixo pode revelar alguns elementos da trama.
Impressões sobre um seriado de 10 episódios com base em seu primeiro capítulo lançam sempre o risco de se queimar a língua. Mas diante da enorme expectativa que Vinyl vinha provocando desde seu anúncio, podemos deixar o saldo desta apresentação no meio-termo entre uma dramaturgia sem maior inspiração e uma trilha sonora espetacular, que cumpre plenamente a proposta da produção do canal HBO de fazer da música uma importante personagem da trama.
Seriado Vinyl celebra inspirada parceria entre cinema e música
Seriado "Vinyl" mostra a cena musical de Nova York nos anos 1970
Com duas horas de duração e assinatura de Martin Scorsese na direção, o episódio de estreia de Vinyl, exibido no começo da madrugada desta segunda-feira, promoveu o reencontro dos fãs de Scorsese com cenários e tipos vistos em boa parte de sua filmografia. A Nova York suja e violenta do começo dos anos 1970, com suas ruas tomadas por traficantes, prostitutas e cafetões, que aparece observada pela janela de um carro em movimento, remete a Taxi Driver (1975). Já os gângsteres de ternos bem cortados e rostos de pedra que espancam desafetos nas calçadas são parentes do baixo clero mafioso de longas como Caminhos Perigosos (1973) e Os Bons Companheiros (1990).
Ambientada em 1973, Vinyl concretiza uma ideia do rolling stone Mick Jagger formatada por ele junto com Scorsese e Terence Winter, roteirista e produtor de outros dois seriados sobre ascensão e queda de personagens conduzidos por ganância, vaidade e violência: The Sopranos (1999 – 2007) e Boardwalk Empire (2010 – 2014). O protagonista da nova atração é Richie Finestra (Bobby Cannavale), diretor de uma gravadora musical que já foi grande e amarga no momento uma fase de declínio com disco encalhados e nenhum grande astro nas paradas. A esperança de Finestra e seus sócios está na proposta de aquisição pela gigante Polygram, comandada por executivos alemães, negócio que os fará embolsar alguns milhões de dólares.
Às vésperas de fechar a venda, Finestra está à beira de um colapso. Acaba de perder um contrato com o Led Zeppelin, passa por uma crise no casamento sua bela mulher (Olivia Wilde), ex-modelo de Andy Warhol, e encara a ameaça de boicote de um influente radialista – e, ao tentar resolver esse último impasse, coloca-se diante uma encrenca policial que deve se desdobrar ao longo da série.
Apresentada com uma espetacular reconstituição de época, Vinyl, porém, não parece, nessa primeira impressão, que vá alcançar o estofo dramatúrgico das produções citadas anteriormente. Parte do elenco principal pareceu acima do tom nas interpretações, e a ilustração do universo orgiástico que circunda os personagens foi, em meio a exageros ilustrativos, previsivelmente cumpridora, nada excepcional no currículo dos criadores da série, todos eles profundos conhecedores do universo que retratam e de seus potencial narrativo.
Alguns arcos dramáticos sugeridos precisarão de força e inspiração dos roteiristas para decolar, como o do bluesman que foi enganado por Finestra nos anos 1960 e volta a cruzar com ele, e o líder de uma embrionária banda punk em busca de uma gravadora (papel de James Jagger, filho de Mick com a modelo Jerry Hall). E a ver ainda como vai se encaixar a trama policial que se desenha quando uma reunião embalada pelo Iron Man do Black Sabbath toma rumo violento.
O que se impõem de forma realmente empolgante no primeiro contato com Vinyl, sobretudo para quem tem mais intimidade com o tema, é a acurada radiografia que série faz daquele instante particular na história da música pop. Ao negociar com o Led Zeppelin e seu colérico empresário, Peter Grant, Finestra percorre os bastidores de um dos shows da banda britânica no Madison Square Garden na turnê de 1973 que marcou a história do rock. Curiosamente, talvez por uma questão de direitos autorais, o que se ouve na sequência da cena, com a banda no palco, é uma versão genérica do hit Rock and Roll e não o registro original.
Outro boa passagem é a que coloca Finestra diante de uma performance do The New York Dolls, banda pioneira do glam rock que lançava naquele ano seu primeiro LP. A série destaca ainda o promíscuo modus operandi que enreda gravadoras, artistas, rádios e imprensa para fabricar sucessos e mascarar fracassos e os saborosos erros de avaliação dos caçadores de talentos das gravadoras – um funcionário de Finestra fez pouco caso do Abba, pouco antes de os suecos se transformarem em fenômeno sob contrato de uma gravadora concorrente. São detalhes que fazem fundamental diferença para os apaixonados por música e compensam os eventuais tropeços na amarração mais consistente da trama com grande potencial para decolar em um voo trepidante nos próximos episódios.