Literatura

Obra de Caio Fernando Abreu está cada vez mais pulsante, 20 anos depois da morte do escritor

Nas redes sociais, livrarias ou universidades, o escritor é cada vez mais influente

Por: Alexandre Lucchese
25/02/2016 - 03h03min
Obra de Caio Fernando Abreu está cada vez mais pulsante, 20 anos depois da morte do escritor Adriana Franciosi/Agencia RBS
Caio em frente à casa no bairro Menino Deus, em Porto Alegre, onde viveu seus últimos anos enfrentando as dificuldades impostas pela aids Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS  

As mãos acostumadas a digitar na velha Olivetti Lettera e a segurar cigarros acesos por horas em noites boêmias descobriram um novo tipo de carinho pouco antes de perderem as forças. No jardim de uma casa do Menino Deus, em Porto Alegre, Caio Fernando Abreu cavoucava com paciência a terra e desgalhava roseiras para que crescessem com força e desabrochassem de forma cada vez mais exuberante. Quem via as plantas ganharem cor e viço não poderia imaginar que seu jardineiro passava por um processo inverso, recolhendo-se cada vez mais, debilitado pela doença que o mataria.

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Natural de Santiago do Boqueirão, Caio voltou a morar na Capital menos de dois anos antes de sua morte, que completa 20 anos nesta quinta-feira. Quando se recolheu na casa da família, o autor de Morangos Mofados (1982) já era reconhecido como um dos grandes nomes da literatura brasileira, ganhador de importantes prêmios literários e alçado como a voz de uma geração insatisfeita com as restrições de liberdade dos anos 1970 e que procurava a transcendência no sexo, nas drogas e em diferentes tradições místicas. Além disso, era um cronista com milhares de leitores. Foi em um de seus textos no jornal O Estado de S. Paulo que Caio revelou estar com aids, em setembro de 1994. Não se tratava de um lamento, ao contrário, os amigos asseguram que o escritor jamais teve uma visão tão positiva da vida.

– Foi um momento em que ele começou a amar muito a vida, não queria perder nem mais um minuto – avalia Paula Dip, jornalista que manteve amizade com Caio por 20 anos.

A urgência descrita por Paula também foi canalizada para a literatura. Caio deixou narrativas e planos interrompidos pela sua morte, que chegou aos 47 anos. Muitos de seus sonhos, no entanto, foram ou estão sendo concretizados por seus amigos. Paula avalia que seu trabalho de compilar a correspondência do autor, iniciado em Para Sempre Teu, Caio F. (2009), livro também composto por memórias, é uma maneira de dar forma a um desejo do escritor.

– Ele sabia da qualidade literária das cartas que escrevia, e também demonstrava saber a importância que elas teriam se fossem publicadas no futuro. Ele me dizia: "As minhas cartas são minha herança para você" – conta Paula.

O livro de Paula Dip também inspirou um documentário com mesmo nome, lançado em 2014, com direção de Candé Salles. Um ano antes, a vida de Caio foi também tema de Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes (2013), de Bruno Polidoro e Cacá Nazario. Além disso, a obra do escritor já deu origem a diferentes adaptações cinematográficas.

Paula prepara agora um novo livro, com correspondências inéditas de Caio para a poeta Hilda Hilst (1930 –2007) entre 1969 e 1990.

Um projeto ao qual o autor, que já havia morado na Europa nos anos 1970, se dedicou com mais afinco no últimos anos de vida foi a internacionalização de sua obra. Mesmo com as dificuldades impostas pela aids, ele não deixou de viajar para apresentar seu trabalho a novos públicos.

– Encontrei o Caio uma vez só, na Feira do Livro de Frankfurt em 1994, na confusão daqueles poucos dias, em que ninguém sabia direito se ele viria ou não, devido à doença. Minha relação com ele foi principalmente por carta e, desde a primeira, ele foi bastante íntimo comigo, como se a gente se conhecesse há anos, contando angústias, desejos, pedindo conselhos e falando em planos ("Quero conhecer a Grécia, reescrever o mito do Ícaro", escreveu) que infelizmente nunca se tornaram realidade – conta por e-mail o italiano Bruno Persico, responsável por verter a obra do escritor para seu idioma.

Quando Caio morreu, já havia oito edições de sua obra circulando em países como França, Estados Unidos, Itália, Alemanha e Holanda. Bom jardineiro, até hoje colhe flores da semente plantada há mais 20 anos. Atualmente, há pelo menos 16 traduções publicadas e mais dois lançamentos internacionais previstos para este ano: o já clássico Morangos Mofados sairá na Croácia, e o infantil As Frangas (1989), na Argentina.

Mais estudado, mais popular e mais lido

O tempo fez bem a Caio Fernando Abreu. Desde sua morte em 1996, cujos 20 anos se completam nesta quinta-feira, a voz do escritor tem ficado cada vez mais viva nas mais diferentes frentes: desde pesquisas acadêmicas até as redes sociais, passando pelas prateleiras de livros e pelos palcos.

Caio foi um escritor capaz de não apenas conciliar influências do mundo pop e literário em seus textos, mas também foi um dos poucos que conseguiu suscitar admiração nestes dois universos. Por um lado, ganhou o respeito e a amizade de escritores como Lygia Fagundes Telles, que admirava a capacidade do autor de escrever contos a partir de "matéria inacessível, intocável, impenetrável e indecifrável", e conquistou importantes prêmios da literatura brasileira, como o Jabuti (em 1984, 1988 e 1996) e o Associação Paulista de Críticos de Arte (1990). Por outro, teve obras adaptadas para o cinema e era lido cotidianamente por milhares de pessoas que acessavam suas crônicas em jornais como ZH e O Estado de S. Paulo, nos quais falava sem pudor de seus dramas pessoais, como a convivência com a aids, e teve obras adaptadas para o cinema.

Nesta semana, o Santander Cultural está mantendo uma programação especial sobre o escritor, com sessões de cinema, debates e show. Além disso, a atriz Deborah Finocchiaro deve estrear em outubro um espetáculo sobre o Caio, com direção de Luiz Arthur Nunes. Mais homenagens ainda estão previstas para setembro, mês em que o autor completaria 68 anos, com exposições e eventos em diferentes pontos de São Paulo.

Na internet, o tributo ao autor é constante. No Facebook, por exemplo, 98 páginas e 21 grupos são dedicadas ao escritor, sendo que a mais popular delas, fb.com/caiofernandoabreu, tem quase 700 mil seguidores, segundo levantamento do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic – UFES). Nem todas têm muito cuidado com a ortografia do que publicam – e nem sempre as frases compartilhadas são realmente de Caio. Por mais respeito que tivessem à língua portuguesa ou à origem dos textos, porém, não agradariam o homenageado. Pelo menos é o que pensa quem o conheceu de perto:

– Tenho certeza de que Caio odiaria essa coisa de tirarem frases dele de contexto e transformá-lo em um compêndio de trechos bonitos, de ajuda e motivação. Ele viraria um demônio e diria: "Não retalhem o que me demorou tanto para pôr um ponto final!" – diz o diretor de teatro Luciano Alabarse, que foi amigo próximo do autor.

Com ou sem a aprovação de Caio, o fato é que a internet redimensionou seu alcance e permanência. Para o professor Fábio Malini, coordenador do Labic, Caio é um dos maiores fenômenos da literatura brasileira nas redes sociais, comparável somente a Clarice Lispector:

– Caio tinha muita popularidade como cronista. Além disso, tem um lado da sua literatura muito melancólico, o que ajuda a se difundir nas redes – avalia Malini.

De olho na popularidade do escritor, a Nova Fronteira completou seu plano de publicação de Caio Fernando Abreu, que incluía três livros de contos, um de crônicas, dois romances, quatro antologias e dois títulos infantis. Segundo a editora, haverá reedições constantes para que a reposição não seja interrompida nas livrarias. A gaúcha L&PM mantém edições pocket de O Ovo Apunhalado (contos, 1975), Triângulo das Águas (novelas, 1983) e Ovelhas Negras (contos, 1995).

Nas estantes das universidades, o nome de Caio também tem crescido. O escritor figura entre os mais estudados de sua geração, ao lado de nomes como o da carioca Ana Cristina Cesar e do conterrâneo João Gilberto Noll. Amanda Costa, autora do estudo 360 Graus: Inventário Astrológico de Caio Fernando Abreu (2011), publicado pela Libretos, avalia que são os leitores apaixonados que têm ajudado a levar o autor cada vez mais para a universidade.

– A gente quer pesquisar sobre o que a gente ama. A primeira vez que tentei estudar o Caio foi em 1988, quando ainda não havia pesquisa alguma sobre ele. Quando voltei, nos anos 2000, o cenário era totalmente diferente, foi um processo rápido – afirma Amanda, que fez mestrado e doutorado a respeito do escritor.

A professora Márcia Ivana Lima e Silva, do Instituto de Letras da UFRGS, afirma que este é um momento em que as pesquisas sobre o autor estão mais maduras, alcançando leituras mais aprofundadas.

– Vinte anos depois da morte do Caio, a obra se descolou do escritor. Assim, começam a ficar aparentes aspectos mais atemporais, como olhar multicultural do autor, sua capacidade de cruzar referências pop, orientais e literárias. É salto para uma leitura cada vez mais universal de Caio.

 
 
 
 
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