Crítica

Andrey Lehnemann: Pequeno Segredo é um filme de boas intenções, mas falha em executá-las

Colunista de cinema do DC comenta o filme escolhido o representante do Brasil para concorrer a uma indicação ao Oscar 2017

Por: Andrey Lehnemann
22/09/2016 - 15h00min | Atualizada em 22/09/2016 - 15h11min
Andrey Lehnemann: Pequeno Segredo é um filme de boas intenções, mas falha em executá-las Reprodução/Reprodução
Foto: Reprodução / Reprodução

Desde o princípio de Pequeno Segredo, o diretor catarinense David Schurmann resolve a estrutura de sua narrativa em três pontos que vão se interligar no final: o ritual de passagem, o fascínio pelo mar e o medo da terra. Em três paisagens igualmente distintas – Belém, Nova Zelândia, Florianópolis. A fotografia de Inti Briones mira exatamente esses cenários para criar a versatilidade que acompanhará as imagens, enquanto observamos quartos estéreis na Nova Zelândia, onde vive a personagem de Fionnula Flanagan, uma calorosa Belém e seu olhar paradisíaco para os mares que envolvem as famílias. Afinal, na visão de Schurmann e Briones o mar nunca é revolto, ele parece o mais hospitaleiro possível.

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Nesta perspectiva, o encanto e apego pelo oceano sempre surge de maneira fundamental para o cineasta e seu diretor de fotografia. Desde tomadas entre as pedras, passando pelos pores do sol à beira mar até simples conversas: um exemplo é o instante em que Luana e Kat firmam uma amizade numa espécie de mirante localizado no Colégio Catarinense, uma ao lado da outra, com a vista para o oceano ao fundo. Da mesma forma, uma fusão entre uma personagem mergulhando em sua banheira e surgindo num oceano flerta belissimamente com a separação entre corpo e alma proposta por Schurmann, algo que briga com a pieguice que a cena tenta estimular.

O diretor, que já tem passagem pela ficção no horroroso Desaparecidos, demonstra-se completamente apaixonado pela história que tem em mãos, ainda que não tenha talento o suficiente para executá-la. Assim, é uma pena que a cumplicidade entre Kat e sua mãe fique restrita a elas e nunca chegue ao espectador.Do mesmo modo que o diretor se concentra em oferecer uma breguice sem tamanho em cenas entre lençóis, sobre amor e, ao mesmo tempo, não consiga controlar tudo o que está acontecendo na tela (a sugestão de alcoolismo da família de Robert é muito deslocada), o roteiro assinado por Victor Atherino, Marcos Bernstein e o próprio David é incapaz de denunciar a personalidade de seus protagonistas, ancorando-se em monólogos tolíssimos, como aquele em que Lemmertz (numa de suas piores atuações) descreve o amor que sente por sua filha.

E se Anthony parece ser incapaz de sentir qualquer emoção no transcorrer do filme, a pequena Mariana Goulart consegue transbordar doçura e carisma, destoando do resto do elenco, cujos atores personificam apenas estereótipos.
 Porém, sem dúvidas, o pior momento do longa é gerado num corte brusco de uma parada respiratória para um sorriso de uma criança. Uma cena extremamente significativa para a história apresentada, mas de extremo mau gosto ao sugerir que a memória de Jeanne era mais importante do que sua própria figura. Ali, David Schurmann evidencia sua fragilidade como contador de histórias. Algo que lhe custa caro. 

 
 
 
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