Coluna

Celso Loureiro Chaves: A Ospa

O colunista comenta sobre a evoulção da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre

19/09/2016 - 03h00min | Atualizada em 19/09/2016 - 03h00min

A Ospa e eu temos a mesma idade. Já vi passarem por ela muitos regentes, fui aluno de Pablo Komlós no tempo em que fumar era permitido em sala de aula e ele estava sempre com um charuto nos lábios, como numa canção de Kurt Weill.

Tenho visto a Ospa passar por picos e vales e, entre uns e outros, visto sua consolidação.

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Há um ano, assisti a um concerto inesquecível: o monumental Gurrelieder de Schoenberg pela Osesp, em São Paulo, com Isaac Karabtchevsky na regência. Foi uma lição de regência – nenhum detalhe se perdeu, nenhum giro expressivo foi ignorado naquela obra monumental. E eram os 80 anos do maestro.

Esses dois fatos, sem nenhuma ligação, se unem na entrevista de dias atrás em que o maestro Karabtchevsky, lá a folhas tantas, desandou a falar da Ospa, que já o teve como regente. Que pena, pois cometeu dois pecadilhos bem feios – a falta de educação e a desinformação.

Não era preciso, para elogiar outra orquestra, sair ofendendo a Ospa. Foi no mínimo uma descortesia. Convidado para uma festa, se pôs a ofender a festa ao lado. Aí está a falta de educação.

A desinformação é mais grave. Afirmar que a Ospa "nunca fez" trabalhos de educação e de ensino de jovens músicos é uma exorbitância. Eu mesmo já participei de um projeto desses, ainda naquele teatro da esquina da Independência com a João Telles. E o Conservatório Pablo Komlós há muito deixou de ser uma alucinação para fazer um trabalho sério com bons frutos. 

A desinformação em entrevistas é pecadilho a evitar, pois a informação está hoje na ponta dos nossos dedos.

Acima de tudo, o que chama a atenção nos trechos da entrevista em que a Ospa virou assuntou é que a orquestra é tratada como coisa, uma entidade inanimada. E os músicos? Os músicos? Orquestras só existem, e não há novidade nisso, pelos músicos que ali lhe emprestam a vida. Que o maestro tenha tratado a Ospa como objeto e não como grupo de pessoas comprometidas e com muitas das quais ele próprio trabalhou, é surpreendente. Nem sempre não falar em algo é o mais recomendável. Mas, nesse caso, teria sido muito mais elegante. E justo.

 
 
 
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