Coluna

Cíntia Moscovich: O cego e as artes de Maria

A colunista comenta sobre o lançamento do livro de poesias de Maria Carpi

12/09/2016 - 06h05min | Atualizada em 12/09/2016 - 06h05min

No dia 30 de agosto, bem na hora do lançamento de O cego e a natureza morta (Ardotempo, 144 páginas), da poeta Maria Carpi, na Livraria Cultura do Bourbon Country, em evento que previa uma conversa com o psicanalista Luiz-Olyntho Telles da Silva, faltou luz. A Cultura, não dispondo de gerador, despachou para a rua a autora e seus leitores. Teria sido uma noite perdida e triste, não fossem as artes da gentileza: a confeitaria Petites Délices, que tem uma loja no corredor em frente à livraria e que funcionava graças aos geradores do shopping, acolheu todos em suas mesas, tornando o imprevisto um agradável improviso. Como é proibido comercializar livros fora da livraria, Maria e Alfredo Aquino, ilustrador e editor, decidiram oferecer de forma graciosa exemplares aos presentes.

Defensora pública aposentada e amante da justiça, Maria fez aquilo que somente uma poeta pode fazer e a que Cacilda Becker recusava-se: dar de graça a única coisa que tem para vender. Fez isso por nobreza e por aquele desejo que é comum a quem escreve: não tratar livros como mercadoria. Romantismo à parte, sei que Maria teve prejuízo. Saíram ganhando os presenteados, que puderam acompanhar a discussão sobre poesia e o pequeno e animado sarau armado em um shopping funcionando a meia carga.

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Com capa feita a partir de uma linda foto de Gilberto Perin, O cego e a natureza morta é desde já uma das melhores obras da poesia brasileira contemporânea. Autora de 13 livros publicados, poeta refinadíssima e dona de uma dicção muito particular, Maria aborda nesse livro o embate da cegueira contraposta pela lucidez dos sentidos. Literalmente transitando por áreas de escuridão e zonas de luz, a autora consegue compor um sensacional chiaroscuro em verbo: pode-se perceber pela sonoridade o jogo de sombras, tamanha a precisão do vocabulário e das imagens.

Àqueles que ganharam o livro e todos os que ainda não o têm, proponho presença maciça na nova sessão de lançamento no Instituto Ling e nos autógrafos da Feira do Livro, atividades que serão divulgadas em tempo bem-vindo e oportuno.

 
 
 
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