Paralelo 30

Uma epifania da gaita

Documentário registra novo disco do quarteto de Renato Borghetti e as histórias do projeto Fábrica de Gaiteiros

Por: Juarez Fonseca
09/09/2016 - 04h01min | Atualizada em 09/09/2016 - 04h02min
Uma epifania da gaita Rene Goya Filho,Estação Filmes/Divulgação
Borghetti (de chapéu) e os músicos que o acompanham: Vitor Peixoto (ao piano), Daniel Sá (violão) e o flautista Pedrinho Figueiredo Foto: Rene Goya Filho,Estação Filmes / Divulgação

Depois de tudo o que Renato Borghetti já fez em mais de 30 anos de carreira, parecia difícil que pudesse trazer uma grande novidade. Mas é isso o que está acontecendo. Gaita na Fábrica, o novo DVD, que estará à venda no final de setembro, é um trabalho extraordinário realizado por ele, seu quarteto e a equipe da Estação Filmes, com Rene Goya Filho à frente. O título se refere à Fábrica de Gaiteiros, mantida em Barra do Ribeiro pelo Instituto Renato Borghetti de Cultura e Música. O DVD inclui o registro das gravações do novo álbum (que sairá paralelamente), realizadas em um estúdio completo montado no auditório da Fábrica, e um documentário sobre o impressionante projeto, cercando-o por histórias de personagens da Barra do Ribeiro que, por sua vez, remetem à própria história do Rio Grande do Sul.

Rene Goya Filho já produziu vários documentários de qualidade, mas neste é especialmente feliz – talvez seja o melhor filme já feito sobre a música gaúcha. O carisma de Borghetti conduz a ação, entrevistando velhos músicos, moradores e tipos folclóricos em busca da memória da região. As cenas são captadas no ¿habitat¿ dos entrevistados, que pode ser uma casa na zona rural, um rodeio crioulo, um armazém da cidade, um barco de pesca. Rene também faz citações com imagens de filmes antigos. As águas do Guaíba e suas praias são personagens fundamentais, mostradas em todos os horários e situações. No estúdio, os músicos trabalham com a visão permanente do Guaíba, pois a parede do auditório que dá para o rio é totalmente envidraçada, abrindo sempre um cenário vivo e mutante. ¿A água tem uma energia muito forte¿, comenta o gaiteiro.

A trilha sonora é a música que vai sendo gravada por Borghetti com os violões de Daniel Sá, o sax soprano e a flauta de Pedrinho Figueiredo, o piano de Vitor Peixoto. Daniel toca com Borghetti há 28 anos, Pedrinho há 25, Vitor há 10, são músicos de primeiro nível mundial – que, a propósito, partem em 15 de outubro para sua enésima turnê europeia. As novas composições do quarteto, que podem ser vistas/ouvidas no capítulo Músicas do DVD, formam um auge de refinamento da música regional gaúcha, com milonga, chote, chamamé, polca, valsa e direito a dois baiões. Dos quatro arranjos para músicas de outros autores, cito dois: o clássico Alfonsina y el mar, de Ariel Ramírez, e Santa Morena, de Jacob do Bandolim. A trilha provoca uma espécie de epifania na aparente simplicidade do documentário.

GAITA NA FÁBRICA
De Renato Borghetti Quarteto
Estação Filmes/Oficina Brasil, DVD e CD com previsão de lançamento no final de setembro. Mais informações em renatoborghetti.com.br.

Violão de Gabriel Selvage brilha com obra de Lucio Yanel

Violonista Selvage lança seu primeiro DVD Foto: Diogo Zanatta / Divulgação

O Rio Grande tem uma história de bons violonistas. E de violonistas que fizeram história, caso do argentino Lucio Yanel, que chegou aqui em 1982 com um estilo tão marcante que acabou influenciando toda uma geração – Yamandu Costa é o exemplo notório. Mas o virtuose Gabriel Selvage, que conquista cada vez mais admiradores, foi o primeiro a explicitar o reconhecimento ao mestre, dedicando este seu primeiro DVD, Flor y truco, à obra de Yanel. Nascido em Não-me-Toque, foi em Santa Maria que Selvage entrou na música, pelos festivais nativistas, em 2007. Depois de alguns discos em parceria, este é o primeiro em que assume a titularidade, e logo com um DVD filmado em vários lugares, de um campo aberto no interior gaúcho à frente de um edifício no Rio de Janeiro – onde vive hoje, depois de quatro anos em São Paulo.

Recheado de participações, o vídeo começa com o violonista paulista Alessandro Penezzi contando como conheceu Yanel, seguido da voz do próprio Lucio contando como chegou ao Rio Grande, fugindo da ditadura em seu país. E, além dele, agrega violonistas de influência explícita, como Yamandu, Arthur Bonilla (falecido em 2015 pouco depois de gravar), Maykell Paiva e Ricardo Martins, com seus depoimentos e sua música. No CD respectivo, gravado ao vivo em show em Porto Alegre, estão outros de primeira, o regional/jazzista Paulinho Fagundes e o popular/erudito Thiago Colombo. Todos comentando e tocando músicas de Yanel entre milongas, chamamés e até um choro. Um dos signos do DVD é um fogo crepitando no galpão, salvo-conduto para Selvage ir além na tradição depois de abrir suas portas. Ele pensa grande, e vai longe.

FLOR Y TRUCO
De Gabriel Selvage
Independente, à venda em minuanodiscos.com.br, o DVD a R$ 35 e o CD a R$ 25.

ANTENA - Lançamentos:

ZÊNITE
De Rodrigo Duarte

Nascido em Cachoeira do Sul e desde 2003 participando de festivais no RS e em outros estados, Rodrigo diz que sua marca é o ecletismo, citando como influências Noel Guarany, Vitor Ramil, Tom Jobim e Chico Buarque. Bom compositor, bom violonista e bom cantor (seu timbre às vezes lembra Mário Barbará), apresenta neste álbum de estreia um trabalho sólido, com cinco letristas de mão cheia, destacando Dado Romagna e Mateus Neves da Fontoura. Tem milongas como Na palma da mão (enquanto mateio) e Esses cavalos de Prado (homenagem ao escultor Vasco Prado), o samba-choro Suíte incidental, a toada com ar de valsa Nunca mais (inspirada em um conto de Sérgio Jacaré Metz), com participações de Marco Aurélio Vasconcellos e Vinicius Brum. Prece ao Minuano, clássico de Telmo de Lima Freitas, fecha o disco. Entre os músicos, Samuca do Acordeon, Miguel Tejera, Texo Cabral e Matheus Alves. À venda em discosminuano.com.br, R$ 25

MILONGA
De Aninha Pires

Para fazer companhia a Shana Müller e Juliana Spanevello, novas cantoras vão ocupando espaços na música regional. Um ano atrás registrei o disco da revelação Mariana Marques e hoje quem chega é a rio-grandina Aninha Pires. Criada no meio rural e formada em Letras, ela começou a participar de festivais em 2007, inspirada por artistas como Mercedes Sosa. Com divulgação estadual, este segundo álbum projeta a bela voz e a personalidade de Aninha em músicas de autores bem conhecidos. Desde o título (música de Jerônimo Jardim e Raul Ellwanger), a milonga predomina, em canções como O tombo (Gujo Teixeira/Pirisca Grecco), a linda Estrelas castanhas (Pirisca e Sílvio Genro), a dançante Na fogueira da milonga (Érlon Pétricles/Tuny Brum). Mas também tem chote, chacarera e chamamé, assinados por Cristiano Quevedo, Elton Saldanha e, entre outros, o argentino Juan Simon. Arranjos básicos com violões, acordeão, baixo e bateria. À venda em minuanodiscos.com.br, R$ 15

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