Coluna

Celso Loureiro Chaves: Dylan

O colunista comenta sobre Bob Dylan e o Nobel de literatura: "Como símbolo da canção, o Nobel foi para o criador certo"

Por: Celso Loureiro Chaves
16/10/2016 - 19h30min | Atualizada em 16/10/2016 - 19h30min
Celso Loureiro Chaves: Dylan Divulgação/Ver Descrição
Foto: Divulgação / Ver Descrição

Um Nobel para a canção. Simples assim. Entre os cancionistas da mesma geração, quem sabe houvesse também Leonard Cohen ou Paul Simon, mas nenhum dos dois teria a mesma dimensão simbólica de Bob Dylan. Talvez nem mesmo a dimensão social, que é o que mais distingue a canção de Dylan desde os seus inícios há mais de 50 anos. Como símbolo da canção, o Nobel foi para o criador certo.

Como ideologia social, provavelmente também. Já é o suficiente para validar o prêmio e deixar que o prêmio valide a canção.

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O processo criativo de Bob Dylan, que ele mesmo descreve na autobiografia Crônicas: Volume um, revela o que sempre foi – para ele – escrever uma canção. Como escrevi aqui em dezembro de 2004, ao dizer "compus uma canção", Dylan está se referindo à composição da letra. Se tudo der certo, a letra se transformará em canção, quando ganhar melodia e harmonia. Que fique claro: na autobiografia, Dylan jamais se refere à letra como se fosse poesia. Quando muito, ele próprio admite ser um poet-musician, um poeta-músico, as duas atividades indistinguíveis uma da outra, se tudo deu certo e se transformaram nessa coisa chamada canção.

Para Dylan, o molde da letra só se transformará em canção no ambiente do estúdio de gravação. Uma das revelações autobiográficas mais surpreendentes é a de que muitas vezes algumas das canções que surgiram no estúdio nunca voltaram a ser cantadas depois de gravadas e o registro em vinil ou CD ficou como registro único. Não adianta nem puxar pela memória, pois se pedirem para ele cantar uma dessas canções num show, nem ele saberá do que se trata.

Antes de Dylan, outro cancionista foi premiado com o Nobel, mas isso há mais de cem anos. Foi Rabindranath Tagore, o poeta que também era artista plástico e criou, além de poemas, dezenas de canções. Mas para Tagore a canção era acessória. Não é nem de longe o caso de Dylan, que também é pintor. Em Dylan se pode encontrar tudo o que define a canção. Por isso, o Nobel de literatura deste ano não alarga as fronteiras do Nobel. Ele alarga, isso sim, as fronteiras da canção.

 
 
 
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