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"Destiny" e o vazio dos blockbusters

Expansão "Ascensão do Ferro" encerra trajetória do game da Bungie ressaltando sua falta de significado

07/10/2016 - 07h00min | Atualizada em 07/10/2016 - 07h00min
"Destiny" e o vazio dos blockbusters divulgação/Reprodução
Foto: divulgação / Reprodução

O inverno chegou para Destiny. Dois anos depois de seu lançamento, o shooter com verniz de MMO da Bungie ganha um novo capítulo, Ascensão do Ferro. A mais recente expansão, que deve ser também a última grande atualização do jogo antes de ganhar uma continuação em 2017, ressalta o quão vazio pode ser um blockbuster.

Lançado em 2014, Destiny era promessa de revolução. Foi vendido como um jogo vivo, que envolveria o jogador como nunca antes – muito por conta de um sistema de socialização inspirado nos títulos do tipo massively multiplayer online, algo muito pouco usual em games para consoles. Mais: seria uma ópera espacial, um mundo aberto cheio de história e grandes mistérios a serem explorados.

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O investimento massivo de meio bilhão de dólares deu resultado e Destiny vendeu horrores. Está entre os primeiros títulos de franquias mais vendidos do mundo. E com méritos, porque o game era (e ainda é) mesmo um grande produto, reunindo tudo o que se espera de um AAA: gráficos bonitos, mecânica simples, curva de aprendizado rápida, evolução de personagens satisfatória e desafio crescente.

Mas não tem nenhuma alma.

Logo no seu lançamento, quanto mais gente comprava o jogo, mais gente sentia que havia um tremendo vazio de significado ali. A história por trás do universo de Destiny era (e ainda é), se muito, capenga. Bem contra o mal. Luz contra escuridão. É isso. Bora lá ficar fazendo as mesmas missões ad infinitum para subir de nível e conseguir equipamentos melhores.

Vieram, então, as expansões. A Escuridão Subterrânea, Casa dos Lobos e o O Rei dos Possuídos. Mais missões. Mais possibilidades de subir de nível e conquistar novos itens. Nada de desenvolver o enredo. Nenhum acréscimo à narrativa. Continuávamos sem saber muita coisa além das linhas gerais que já haviam sido apresentadas.

Ascensão do Ferro, lançado no final de setembro, trouxe uma história requentada. Da mesma forma que em O Rei do Possuídos, nós temos uma força vilanesca que transforma antigos inimigos em ameaças distorcidas. Ao invés de tomados pelas trevas, agora os Decaídos são infectados pela SIVA, uma tecnologia fora de controle. Jura que isso era o melhor que vocês conseguiram pensar?

Também temos um novo cenário, as Terras Pestíferas, basicamente uma continuação do Cosmódromo só que com neve e coberto de SIVA – o Encouraçado da expansão anterior pelo menos era um ambiente original. Outro mais do mesmo: saem os fragmentos calcificados de O Rei... e entra os fragmentos de SIVA para serem coletados.

Claro, temos uma nova área social, novos personagens e, novamente, um pacote de possibilidades. Tudo para ampliar os... números. Porque dois anos depois, basicamente é disso que se trata Destiny: números.

E é aí que eu me refiro.

Você completa missões, exploras os confins dos planetas ali disponíveis, combate em dezenas de campos, coleciona cartinhas, troca tiros com a inteligência artificial do jogo e contra outros humanos, tudo para conseguir mais números, que servem para subir de nível que servem para conseguir equipamentos melhores que servem para subir de nível que sevem para conseguir mais números. É um círculo perfeito, mas também entediante.

Entediante porque nada ali serve para acrescentar qualquer coisa àquele universo, àquele enredo. Dois anos depois, continuo sem nenhuma conexão com o meu personagem – algo crucial em um MMO, por exemplo. Fico mudando suas armas e equipamentos e correndo de um lado para o outro com o único intuito de conseguir ser mais forte, para fazer mais das mesmas missões, para conseguir equipamentos melhores para... sabe? E aí? Qual propósito?

Não que não seja divertido, que isso fique bem claro. Como passatempo, Destiny é perfeito. Posso combinar com mais uma turma de fazer missões e completar assaltos e incursões enquanto ficamos trocando ideia a respeito do jogo e da vida _ mais até da vida, porque em muitos momentos eu entro no modo automático e nem presto mais atenção no que estou fazendo, e tanto que já fiz aquilo.

Meu único propósito, muitas vezes, é conseguir determinada recompensa pela combinação certa de itens de suporte. Matemática pura somada a aleatoriedade do algoritmo do jogo. Números, enfim. Depois da sessão de jogatina, vou fazer qualquer outra coisa e Destiny não está mais comigo. Raso, ele só existe durante os momentos em que o console está ligado.

Eu poderia estar errado e sendo apenas chato e implicante em esperar de Destiny algo além de algumas horas de tiroteio, mas os rumores de Destiny 2 indicam que a Bungie também quer. O boato é que o próximo jogo, a ser lançado em 2017, terá mais elementos de RPG e menos de ação. Ou seja, será mais imersivo. Mais interessante. Porque, por enquanto, Destiny é só uma replay infinito.

 
 
 
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