The New York Times

Rebecca Hall fala de seu novo (e polêmico) papel 

Por: The New York Times
17/10/2016 - 22h13min | Atualizada em 17/10/2016 - 22h13min

Rebecca Hall entende quem está com receio de ver o novo "Christine", filme baseado na âncora da Flórida, Christine Chubbuck, que se matou em uma transmissão ao vivo pela TV, em 1974.

Quando recebeu o roteiro, a britânica que ficou famosa como a metade mais irritadiça de "Vicky Cristina Barcelona", o escondeu sob revistas e livros da mesinha de centro, quase como se quisesse escondê-lo.

"Acho que tive uma reação semelhante a de muita gente. É um tema mórbido, dá a impressão de um lance explorador; por que alguém haveria de querer fazer um filme sobre isso?", disse a atriz de 34 anos, em um café de Nova York, em entrevista em meados deste ano.

Entretanto, na leitura, acabou vendo surgir uma história bem diferente, cheia de empatia por uma mulher que, no fundo, era problemática. "Muita gente passa pela vida tentando agir normalmente e é impossível não se identificar com isso. Ela é uma pessoa que, apesar da doença, tentava viver uma vida digna."

Rebecca assumiu o papel que, de certa forma, tomou conta de si. Ágil e animada, a atriz assumiu uma voz tensa; com a boca cerrada e caminhando levemente inclinada para frente, parece tentar atravessar a vida de cabeça. Ela confessa que a personagem ainda a assombra – e falar sobre o filme faz com que contraia a mandíbula e sinta um aperto na garganta porque se lembra da protagonista.

"Christine" não é uma obra fácil de promover, e não só por causa da morte brutal. Ela é aquela criação rara em celuloide, a anti-heroína cáustica, que não pede para ser amada e está destinada a não ser salva por um homem (embora ameace engatar um envolvimento romântico). Essa é uma das razões por que Rebecca tem tanto orgulho do filme: sua personagem também quer desesperadamente fazer um jornalismo de qualidade e resiste às exigências do diretor do canal, que pede mais sensacionalismo, quase até seu horrendo ato final.

"Há características em Christine com que todos nós podemos nos identificar – o que é meio desconcertante porque ela decide fazer algo incrivelmente violento. Mas como alguém se torna radical? Não acho certo colocar todo mundo no mesmo saco e dizer que são maus ou esquisitos só porque chegaram a um ponto em que se isolaram da comunidade, têm uma visão diferente do que é ser humano. É preciso investigar."

Pessoalmente, a estrela é simpática, alternando entre a intensidade e o brilho, com um olhar firme e um sorriso contagiante, tão amplo quanto o salão. De Birkenstock e uma saia longa e folgada que flutua ao redor de sua silhueta elegante, ela me encontrou para um bate-papo pertinho de onde mora com o marido, o ator Morgan Spector. Excessivamente eloquente, Rebecca vem de um treinamento rigoroso, que começou há quase duas décadas, nas salas de ensaio do teatro britânico.

"Você se senta ali e discute, discute e discute, disseca o texto até não poder mais, até ter certeza do que ele tem a revelar, e aí sim o interpreta." Ela usou um método semelhante em "Christine", assistindo repetidamente aos vinte minutos de imagens que tinha da jornalista em set (não se sabe onde foi parar a fita que registrou seu suicídio), falando com ela mentalmente enquanto se abria emocionalmente o mais rápido que pôde. "Ela passou a fazer parte de mim."

A teatralidade é parte inerente da atriz: sua mãe é a cantora de ópera de Detroit, Maria Ewing, e o pai é Sir Peter Hall, diretor dos palcos britânicos cujo legado é invariavelmente lembrado cada vez que a filha é mencionada pela imprensa do país.

"Christine" foi um divisor de águas em sua carreira, mas não ficou imediatamente evidente ao diretor do filme, Craig Shilowich, entregar o papel a ela, mesmo tendo o cineasta Antonio Campos sugerido seu nome.

Craig se deparou com a história de Christine quando saía de uma depressão profunda – e ficou impressionado com a pessoa generosa que havia por trás das manchetes sensacionalistas, uma mulher que organizava eventos sociais, trabalhava como voluntária com crianças deficientes e se dedicava ao jornalismo comunitário.

Quando da seleção do elenco, Rebecca estava na Broadway, com Spector, em "Machinal", que conta a história de uma dona de casa executada por ter matado o marido. Seu desempenho deixou Campos e Shilowich sem palavras, mas foi só depois de esse último conversar com a atriz é que percebeu que seria perfeita para protagonizar "Christine".

"Ela se sentiu à vontade, se mostrou respeitosa, paciente, cuidadosa e muito atenta durante todo o processo. Não hesitei", conta ele.

A produção foi rodada no início de 2015, em Savannah, na Geórgia, com ela terminando os dias emocional e fisicamente esgotada e Spector lhe preparando o jantar.

No set, o colega Tracy Letts conta que Rebecca incorporou totalmente a personagem.

"É uma atriz excelente, que além de ter carisma, cai de cabeça na interpretação. No entanto, apesar do trabalho maravilhoso, ela nunca se limita a ele, nem se destaca mais que o filme. A personagem que interpretou não tem nada dela. Absolutamente nada", conta o ator que interpreta o diretor de TV de Christine.

Por Cara Buckley

 
 
 
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