The New York Times

Trocando uma agente secreta por uma vida confusa 

10/10/2016 - 16h29min | Atualizada em 10/10/2016 - 16h29min

Toronto – Uma pegada. Um relatório do laboratório. Um arquivo desaparecido.

Esses eram os principais componentes do trecho de uma fala que Hayley Atwell encenou em vários takes no set de "Conviction", o novo drama do canal ABC. Não era Shakespeare, mas não precisava ser: ela falava do que é necessário nos procedimentos legais – sabe como é, aquela cena onde as pessoas sentam a uma mesa e tentam resolver o caso.

"O pessoal da explicação!", brincou Hayley, com os outros atores, entre as tomadas.

Hayley, que cresceu em Londres e já se apresentou com a Royal Shakespeare Company, tem um desempenho perfeito toda vez, mesmo com um sotaque americano e usando um pijama. Ela interpreta Hayes Morrison, uma advogada brilhante, festeira e filha de um ex-presidente, recrutada para investigar possíveis condenações erradas e libertar quem foi preso injustamente. (No episódio em questão, a bagunça de sua vida privada leva Hayes a dormir no escritório, por isso o pijama.)

"Conviction" é a TV em seu estado mais puro: um drama sobre crimes verdadeiros com uma firme orientação moral. Não que haja algo de errado com isso, mas Hayley vem dos palcos de Londres e com um histórico britânico de dramas de época no cinema e na televisão, como o remake de 2008 de "Brideshead Revisited - Desejo e Poder" e a série "Any Human Heart", premiada no BAFTA de 2010. E é por isso que na quinta vez que repete a mesma frase surge a pergunta: o que uma atriz como ela está fazendo em um programa como esse?

Não é a primeira vez que essa questão parece pertinente na trajetória da carreira de Hayley: ela é mais conhecida do público americano no mundo Marvel, onde interpretou a agente Peggy Carter em filmes e na televisão. Quem não é do ramo pode até imaginar que os atores famosos recebem inúmeros papéis e fazem suas escolhas a dedo, mas Hayley ri dessa ideia – e diz que ama e precisa desse trabalho, mas qual será seu papel não cabe a ela determinar.

"Não estou no controle. Não é 'Vou fazer isso aqui, e aquilo, e daí vou para os EUA fazer aquilo outro'. Eu poderia enumerar 10 filmes nesses últimos anos que eu adoraria ter feito."

Hayley, de 34 anos, estava em seu trailer, com o sapato de salto de estampa de leopardo de sua personagem jogados no chão e seu cachoro, uma mistura de chihuahua com bassê chamado Howard, aconchegado no colo da repórter. Seus pais se conheceram em um seminário em Dale Carnegie; pessoalmente ela parece estar sempre representando, graças ao sorriso amplo e o jeito desinibido e desbocado, ambos pontuados por momentos de introspecção sonhadora.

"Agente Carter" teve duas temporadas na ABC. Enquanto Hayley esperava para ver se a série emplacaria uma terceira, o roteiro do piloto de "Conviction" chegou em um e-mail enviado pela diretora e roteirista Liz Friedman.

"Eu lhe escrevi pedindo que desse vida àquela mulher porque sabia que ela era perfeita para o papel", contou Liz.

Um bom salário pode ser o suficiente para atrair qualquer ator para um seriado, mas Hayley foi cativada pela personagem, a quem Liz descreve como "Chelsea Clinton com o estilo das gêmeas Bush". No primeiro episódio, ela é acusada de posse de cocaína e liberada da prisão após fazer um acordo com o promotor (Eddie Cahill) e concordar em liderar a unidade de integridade de condenação.

Liz já escreveu para "House" e "Sherlock" e comparou Hayes aos personagens complicados e cheios de defeitos dessas séries.

"É muito importante que Hayes seja capaz de dizer coisas que são incrivelmente insensíveis e que também passe momentos de ternura, para que o público sinta que ela realmente se importa sem que eu tenha que escrever um monte de falas para mostrar isso. Hayley consegue mostrar vulnerabilidade sob uma superfície durona", disse Liz.

Hayley examina sua década como atriz com uma espécie de melancolia, dizendo ter passado por momentos de depressão, quando chegou a se questionar se havia feito a escolha profissional certa.

"Essa indústria pode gerar auto-obsessão, narcisismo e fragilidade; já tive a sensação de que a aprovação do público me validava como ser humano", disse ela.

Ela rapidamente volta para seu padrão de amante da arte.

"Mas a melhor coisa é a possibilidade de viver momentos que me libertem da escravidão que impus a mim mesma – que é o verdadeiro significado da atuação, ou seja, sair do meu próprio inferno, da dúvida que infligi a mim mesma", disse ela.

Com este tipo de sensibilidade tão exposta, parece incongruente o fato de ela ter mergulhado de cabeça em uma franquia de quadrinhos, símbolo máximo dos excessos de Hollywood – mas Hayley é ambiciosa, e quando surgiu a oportunidade da Marvel, estava curiosa para ver de perto as engrenagens dos grandes orçamentos.

Peggy Carter não é uma super-heroína dos Vingadores, mas sim uma agente secreta na Segunda Guerra Mundial com um bordão feminista: "Conheço meu valor". Hayley pegou seu celular e leu, emocionada, a mensagem de uma fã que lhe agradecia por apoiar a comunidade LGBT. E mostrou a foto de uma tatuagem de outra fã: o rosto de Hayley. "Isso vai ficar no braço dela para sempre!"

Em maio, "Agente Carter" foi cancelada e "Conviction", confirmada. Foi preciso se mudar para Toronto para a filmagem e ela está feliz por ser solteira.

"Preciso estar totalmente focada no aprendizado", disse ela.

Mesmo sendo mais equitativa para as mulheres que o cinema, a TV ainda é um setor dominado por homens e "Conviction" é um dos poucos dramas criado e dirigido por duas mulheres (com produção de Mark Gordon). No set, Hayley observa e faz perguntas, pois pensa em poder dirigir e produzir um dia.

"Estou apenas começando a me conscientizar do quanto me monitoro e me filtro por ser mulher. Se fosse um homem na minha posição, certamente não ficaria se desculpando o tempo todo; ao contrário, ficaria à espera de que acontecesse algo."

Ir além da atuação pode isolá-la das dificuldades de sua profissão, que é, apesar de sua hesitação, uma escolha.

"Eu amo este mundo de histórias. Há beleza nele, há verdade. Você vê uma atriz como Meryl Streep, e diz: 'Dá para ter uma família, uma vida e uma carreira maravilhosas. Todas essas coisas são possíveis'."

 
 
 
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