Artes visuais

Exposição apresenta obras da artista Karin Lambrecht pelo olhar do colecionador

Mostra "Nem Eu, Nem Tu: Nós", será aberta em meados de março no Santander Cultural, e apresenta trabalhos da artista reunidos na Coleção Justo Werlang

04/03/2017 - 03h00min | Atualizada em 04/03/2017 - 03h00min
Exposição apresenta obras da artista Karin Lambrecht pelo olhar do colecionador Fabio del Re/Divulgação
Obra ¿Sempre¿, da artista gaúcha Karin Lambrecht Foto: Fabio del Re / Divulgação  

André Venzon
Curador e mestrando em Poéticas Visuais pelo PPGAV/UFRGS

Há cinco anos, o Santander Cultural apresenta o projeto RS Contemporâneo, com foco em obras de artistas inovadores produzindo seus trabalhos hoje. A edição deste ano inverte um pouco a proposta e centra-se no trabalho de curadoria e no olhar do colecionador. Esta curadoria se ampara na coleção de arte contemporânea de Justo Werlang, um colecionador que há quatro décadas se lançou a um registro sagaz do percurso criativo de oito artistas: Iberê Camargo (1914–1994), Xico Stockinger (1919–2009), Siron Franco (1947), Nelson Felix (1954), Daniel Senise (1955), Karin Lambrecht (1957), Mauro Fuke (1961) e Felix Bressan (1964). A exposição que inaugura esta fase do projeto concentra em trabalhos da artista Kartin Lambrecht.

A Coleção Justo Werlang busca evidenciar o pensamento, a gênese da produção artística, a partir da visualização de um conjunto representativo, ampliando não apenas os limites da nossa compreensão sobre a produção de cada artista, mas também desvendando uma profunda percepção de seus processos artísticos, pelo encadeamento das obras e pela observação das cronologias. A qualidade e a representatividade de cada obra, o foco da coleção, reside no registro do pensamento e da vida dos artistas, no convívio e nas conversas no cotidiano dos ateliês e na observação do nascimento de cada nova questão de seus trabalhos.

Compreendemos que o ato de colecionar implica diversos sentidos e significados, visto que cada prática se insere em uma perspectiva particular. No entanto, diante do dilema ético e político em que vivemos, criar uma coleção de arte é, também, propiciar uma fonte de conhecimento e de reflexão, e uma forma de expressar sentimentos, que exigem sacrifício e abnegação, e que podem demandar a dedicação de toda uma vida. Esta coleção almeja um olhar fora de si, que concentre atenção na arte contemporânea e em seus artistas, no exercício de compreender melhor o mundo.

A opção por expor exclusivamente parte das obras de Karin Lambrecht revela a escala de representatividade que o conjunto de trabalhos de cada artista assume na coleção. É possível reconhecer a proximidade entre o pensamento do colecionador e a obra de Karin, cujas pinturas e documentos foram os que mais recentemente ingressaram em seu acervo. O cerne desta curadoria é, portanto, o diálogo entre o colecionador e a artista, capaz de estabelecer, por meio do conjunto de obras selecionadas, uma ampla convivência da coleção com o grande público.

Outro motivo a justificar a idealização deste projeto foi o permanente questionamento sobre qual o papel do Estado no fomento e no incentivo à arte contemporânea. O descuido e a indiferença quase permanente a que a maioria dos cidadãos é submetida em outras áreas das políticas públicas são sentidos, também, no setor cultural. Em contrapartida, tal atraso social em relação aos direitos culturais é recuperado pelos colecionadores particulares que se dedicam durante décadas a constituir um patrimônio. Assim sendo, a coleção é um legado desta era, uma provisão para o futuro, por sua implicação econômica ou riqueza cultural, que, mais além, poderão ser responsáveis por atuarem em outras dimensões do espaço público.

O destino de uma coleção é um assunto complexo, especialmente na realidade econômica e social brasileira, em que a sociedade vê, a todo instante, a manutenção de suas instituições culturais ameaçada. Porém, não é obrigação primordial do colecionador fazer que as obras sejam mostradas ao público, ou mesmo que tenham um currículo extenso, uma vida pública. A função original do colecionador é a guarda e a conservação das obras adquiridas.

Neste ponto, cabe destacar a grande fragilidade em que se encontram as instituições culturais do país, com raras exceções, assim como as causas que levaram a isso. Esse é o fator que deve merecer maior atenção por parte da sociedade. A gestão política, e não técnica; a falta de uma visão e missão claras a que devam se dedicar; o distanciamento entre suas programações e as necessidades dos públicos; a pouca interação qualificada que mantêm com a área de educação - são algumas das questões que precisam ser debatidas pela sociedade, pressionando as autoridades a priorizar investimento e estabelecer critérios de avaliação de desempenho de seus museus e pinacotecas. A ausência de garantias e incentivos para a doação de coleções e acervos particulares se apresentam como uma das causas do relativo empobrecimento dos acervos disponíveis aos públicos.

Diante de uma coleção de arte contemporânea, o mais importante é sempre atender ao convite para aprender uma forma diferente de olhar. O colecionador é movido por uma paixão, desenvolvendo um olhar específico, especializado. Em direção contrária, nosso olhar procura aquilo que já conhecemos. Mas o mundo contemporâneo se recria e se renova numa velocidade crescente, desafiando-nos a perceber as novas realidades em que estamos inseridos. A oportunidade de nos defrontarmos e perceber uma outra mirada sobre objetos artísticos é também um exercício que qualifica nossa capacidade de ver e refletir sobre os desafios de viver em uma sociedade em transição. 

Projeto RS Contemporâneo Pensamentos Curatoriais
Mostra Nem Eu, Nem Tu: Nós – Karin Lambrecht

Santander Cultural (Rua Sete de Setembro, 1028, Centro Histórico)
Visitação de 15 de março até 30 de abril, de terça a sábado, das 10h às 19h e, aos domingos, das 13h às 19h..

 
 
 
 
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