Entrevista

Filme tcheco resgata episódio traumático do país do leste europeu

Em cartaz em Porto Alegre, ¿Eu, Olga Hepnarová¿ contra trágica história da última mulher condenada à morte na República Tcheca 

05/03/2017 - 15h55min | Atualizada em 05/03/2017 - 15h55min
Filme tcheco resgata episódio traumático do país do leste europeu Supo Mungam Films/Divulgação
Foto: Supo Mungam Films / Divulgação  

Filme de abertura na mostra Panorama do Festival de Berlim de 2016, Eu, Olga Hepnarová recupera um episódio traumático da história tcheca moderna: no dia 10 de julho de 1973, uma jovem de 22 anos jogou o caminhão que dirigia para cima de um grupo de cerca de 25 cidadãos aguardando em uma parada de bonde em Praga, matando oito pessoas, todos idosos, e ferindo 12. Presa sem oferecer resistência, a personagem-título admitiu no tribunal sua intenção fatal e foi condenada à morte, tornando-se a derradeira mulher a sofrer a pena máxima no país. Primeiro longa da dupla Tomás Weinreb e Petr Kazda, Eu, Olga Hepnarová está em cartaz em Porto Alegre, na Sala Norbero Lubisco da Casa de Cultura Mario Quintana (a sala fica aberta de terças a domingos).

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Rodado em preto e branco, o drama biográfico acompanha Olga (Michalina Olszanska) desde a pré-adolescência até seu desfecho trágico, mostrando como a instabilidade emocional da solitária e introspectiva garota foi potencializada ao longo dos anos pela frieza e indiferença da família, da escola e da sociedade. A trajetória da protagonista inclui tentativas de suicídio, internações em instituições psiquiátricas e passagens por diversos empregos. A descoberta do sexo com outras mulheres alivia momentaneamente a angústia de Olga — mas logo as decepções amorosas vão se somar a suas frustrações e alimentar uma crescente e vingativa misantropia.

Uma das fontes documentais mais preciosas utilizadas pelos realizadores para reconstruir essa trama foram as cartas escritas por Olga, que revelam uma surpreendente capacidade argumentativa e a complexa mistura de lucidez, paranoia e ressentimento de sua visão de mundo — como neste trecho, reproduzido no filme: ¿Eu sou uma solitária. Uma mulher destruída. Uma mulher destruída pelas pessoas... Eu tenho uma escolha – me matar ou matar outros. Eu escolhi REVIDAR OS QUE ME ODEIAM. Seria muito fácil deixar esse mundo como uma anônima vítima de suicídio. A sociedade é indiferente, com razão. Meu veredicto é: eu, Olga Hepnarová, a vítima da sua bestialidade, sentencio vocês à morte¿.

Responsável por emprestar vida e rosto a Olga, a polonesa Michalina Olszanska, 24 anos, impacta com sua presença magnética e perturbadora. Em entrevista a ZH, revela o que acredita ter imprimido ao papel:

— O jeito como ela caminha, com certeza. Não sei como a verdadeira Olga se movia, mas não me surpreenderia se fosse exatamente assim. O jeito como você se move conta muito a seu respeito. Por exemplo, Olga era tímida, mas tentava parecer agressiva. Provavelmente necessitava provar isso mais para ela mesma do que para qualquer outro.

Michalina é uma estrela em ascensão no leste europeu, atuando em diversos filmes poloneses, russos e tchecos. Confira abaixo a entrevista com a atriz.

 

ENTREVISTA: Michalina Olszanska, atriz polonesa

Como você você entrou neste projeto?

Foi meio louco. Olga é uma coprodução entre República Tcheca, Polônia e Eslováquia, então estavam procurando atrizes em todos esses países. Fui convidada por um diretor de elenco, fiz um teste e ganhei o papel. Mas há uma história engraçada. Eu queria que os diretores encontrassem Olga, não Michalina, então mudei totalmente. Depois do teste, os diretores me levaram para jantar, e então alguém me disse que eles queriam checar se eu não era uma psicótica.

Você já conhecia a história de Olga? Qual tipo de pesquisa teve que fazer para esse papel?

Não sabia de nada sobre ela antes de ler o roteiro. Não era uma história bem conhecida na Polônia, e na República Tcheca costumava ser um tabu. As pessoas não queridam falar sobre isso. Então os diretores fizeram um trabalho incrível convencendo a irmã de Olga a falar com eles, e depois me passaram as informações. Para mim, até mais importante do que a história em si foram as poucas fotos de Olga que consegui. Comecei a construir o personagem a partir delas. Os olhos contam mais sobre a pessoa. A coisa mais importante para mim foi apanhar o olhar específico de Olga.

O filme tenta não glorificar ou condenar Olga. Qual é a sua opinião sobre ela?

Acho que ela foi a vítima da solidão. Mesmo se as pessoas não a machucavam de propósito, elas faziam algo ainda pior: não davam bola. Ninguém ligava para ela, ninguém tentou entendê-la ou ajudá-la. Quando alguém é seu inimigo, isso faz com vocês dois mantenham uma intensa relação. E isso lhe dá a força para lutar. Mas, quando você completamente sozinho, você não tem nada. Acho que o ato de Olga não foi apenas uma vingança, mas, acima de tudo, foi um grito por socorro. Ela preferiu ser odiada a ser ignorada.

 
 
 
 
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