Arte sequencial

Os cem anos de nascimento de Will Eisner, um mestre dos quadrinhos

Artista talentoso, Eisner foi o responsável por elevar os gibis ao status de literatura e influenciar para sempre a cultura pop

04/03/2017 - 03h00min | Atualizada em 06/03/2017 - 15h04min
Os cem anos de nascimento de Will Eisner, um mestre dos quadrinhos Patty Mooney/Wikicommons
Foto: Patty Mooney / Wikicommons  

Társis Salvatore
Criador da Gibiteca da Biblioteca de São Paulo, colaborador da revista Mundo dos Super-heróis e estudante de Biblioteconomia da UFRGS.

O principal prêmio dos quadrinhos mundiais, criado em 1988 , presta uma justa homenagem a um dos maiores artistas que a arte sequencial já conheceu: Will Eisner, cujo centenário de nascimento completa-se esta semana. Nascido em 6 de março de 1917, em Nova York, William Erwin Eisner tem seu nome ligado a própria história dos quadrinhos, que ele ajudaria a desenvolver e elevar ao status de arte.

Era filho de imigrantes judeus. Seu pai foi um artista austríaco autodidata que transmitiu o amor às artes; sua mãe, uma dona de casa diligente, preocupada com o futuro financeiro, preferia o filho em uma carreira mais estável. Eisner cresceu em bairros pobres e viveu a adolescência sob os efeitos da Grande Depressão. Sua infância rodeada de dificuldades, testemunhando graus variados de desespero a que a pobreza levava os vizinhos e enfrentando brigas com garotos antissemitas, serviriam de inspiração para várias de suas histórias.

Como muitos garotos de sua época, Eisner vendeu jornais nas ruas de Wall Street para ajudar no orçamento familiar. Foi ali que teve contato pela primeira vez com as tiras de jornal, entretenimento que servia basicamente para elevar as tiragens dos jornais. Além das tiras, Eisner lia, a contragosto dos pais, todas as revistas pulp a que conseguia ter acesso (publicações baratas, fabricadas a partir de polpa de celulose, com histórias sensacionalistas de crime, aventura e mistério). Seria bastante influenciado por personagens famosos oriundos dessas revistas, como Fantasma, o Sombra, Tarzan, Dick Tracy e Flash Gordon.

Selo oficial do Centenário de Will Eisner Foto: Centenário de Will Eisner / Willeisner.com

TALENTO PARA O DESENHO

Quando cursava a DeWitt Clinton High School, Eisner descobriu que tinha talento para desenho e fez seus primeiros trabalhos para o jornal da escola e cenários para peças de teatro. Após realizar um curso de um ano na Art Students League of New York, ele iniciou sua carreira fazendo anúncios para o jornal New American Newspaper. Mas desde que começou a desenhar profissionalmente, também fazia freelance com ilustrações para as revistas os pulps.

Em 1936, Eisner, então com 19 anos, foi indicado por um ex-colega de High School, um desenhista esperto chamado Robert Kahn, que usava o nome artístico de Bob Kane, para produzir material inédito para uma revista. Ali conheceu o parceiro Samuel Maxwell "Jerry" Iger, com quem começaria a produzir material próprio e a vender para diferentes editoras, já que as vendas de pulps caíam proporcionalmente à demanda por tiras de jornal. Eles fundaram seu primeiro estúdio, o Eisner & Iger, e empregaram nomes que marcariam época na que ficaria conhecida como Era de Ouro dos Quadrinhos: o já citado Bob Kane (criador do Batman), Jack Kirby (artista seminal da Marvel), Lou Fine e George Tuska.

Nesse período, Eisner cometeu um curioso deslize: recusou o material de outra dupla de artistas judeus, Jerry Siegel and Joe Shuster, que haviam criado um poderoso alienígena chamado Superman.

O personagem Spirit, criado em 1939, é o trabalho mais famoso de Eisner no universo dos heróis. Foto: Will Eisner / Reprodução

O ESPÍRITO DO TEMPO

Com a explosão das histórias em quadrinhos a partir do lançamento do Superman em 1938, o mercado editorial abriu as portas para heróis de todos os tipos e os negócios do estúdio iam bem. Mas para criar seu maior e mais conhecido herói, Eisner teve que deixar sua parceria com Iger para se dedicar exclusivamente à criação: The Spirit, um detetive criado para estrear em um suplemento de quadrinhos inédito até então. O Spirit era um detetive mascarado cuja identidade secreta era Denny Colt, da polícia de Wildwood.

Colt foi dado como morto durante uma investigação e passou a viver escondido em um quartel-general subterrâneo no cemitério da cidade. Adotou o codinome e uma máscara quando decidiu agir como "um espírito", ajudando a polícia a enfrentar criminosos, fossem assassinos, chefões do crime, cientistas loucos ou mulheres fatais. Contava ainda com a ajuda de outros personagens: o comissário Dolan; a filha do comissário, Ellen, e Ébano Branco, um taxista negro e fiel escudeiro.

Foi com Spirit que Eisner gozou de liberdade criativa total e colocou em prática diversas ideias e experimentos. Também ficou com os direitos do personagem, algo que ele havia negociado previamente e era incomum para a época. Conseguiu criar histórias com experimentações narrativas e visuais até então inéditas, tramas que não se limitavam a um caso misterioso, mas se expandiam para situações do cotidiano. O humor também funcionava bem nas histórias do Spirit.

Em pouco tempo, o suplemento em que Spirit foi lançado, o Weekly Comic Book, chegou a vendagens expressivas e foi sucesso de crítica e público, sendo distribuído para todo o território norte-americano. Tudo ia bem para Eisner e para o Spirit até que, em 1942, o exército o convocou para ser mais um soldado contra nazismo na II Guerra Mundial.

Eisner, que era judeu, queria lutar na Europa, mas já tinha fama como artista, e o exército norte-americano achou que ele seria mais útil usando seu talento do que sendo bucha de canhão em um campo de batalha. Assim, ele criou para a editora do exército, a Quality Comics, o soldado Joe Dope, um recruta trapalhão, que ensinava nos manuais em quadrinhos como fazer manutenção correta de armas e equipamentos diversos. A abordagem em quadrinhos, lúdica, atraía a leitura dos soldados, ao contrário de pesados e sisudos manuais convencionais. Essa experiência bem sucedida também influenciaria a carreira do artista, apresentando todo o potencial educativo dos gibis.

Com o fim da Guerra, ele voltou a desenhar o Spirit. Em alguns anos o interesse por heróis diminuiu, e, após se casar, em 1950, com Ann Louise Weingarten, ele montaria no ano seguinte a American Visual Corporation, empresa que produzia manuais para o governo e o manteria longe dos quadrinhos convencionais por um bom tempo.

"Um Contrato com Deus" marca o início das graphic novels, usando quadrinhos para contar histórias adultas. Foto: Will Eisner / Reprodução

QUADRINHOS COMO ARTE

No meio da década de 1960, o interesse pelo herói mascarado retornaria e, em parceria com algumas editoras, Eisner relançou histórias antigas e chegou até a criar novos episódios. Na década de 1970, um fato marcou sua vida: a morte da filha adolescente Alice, com leucemia. Ainda que não fosse um homem religioso, a tragédia o abalou profundamente.

A forma como Eisner encontrou para lidar com a perda foi produzir quadrinhos. Em 1971, foi convidado de honra em uma convenção de quadrinhos. Ali descobriu que, ao contrário do que imaginava, os jovens ainda se interessavam por seu Spirit, mesmo que ele não fosse um super-herói poderoso nos moldes da Marvel e DC Comics. Embora fosse da primeira geração de criadores de gibis, Eisner não era acomodado. Tinha um ímpeto moderno e genuíno interesse pela evolução dos quadrinhos, ainda que nem sempre concordasse com os rumos desta evolução.

Nesse período, conheceu artistas com diferentes estilos e abordagens, desde quem produzia as Comix (quadrinhos underground), como Robert Crumb, até inovadores do mainstream, como Neal Adams, que traria uma série de temas sociais para os gibis convencionais de super-heróis.

Todas essas influencias maturadas em seu caldeirão criativo resultariam em 1978 em Um Contrato com Deus, que ficaria conhecida como a primeira "graphic novel" – termo que virou sinônimo de romance ilustrado de alta qualidade e produzido em formato livro.

Essa obra-prima de 196 páginas era uma HQ com temática adulta, reunindo histórias inspiradas na infância de Eisner nos anos 1930 e de grande teor autobiográfico. Uma das histórias era sobre um judeu ortodoxo que perdia sua filha adotiva, referência à perda de Alice. Mais uma vez, o talento e a qualidade em contar histórias dramáticas de conteúdo "literário" elevaram os quadrinhos a um novo patamar e abriram os olhos para a possibilidade de explorar um material mais sério, em formato de livro, com edição diferenciada, histórias completas e valor final maior.

"Avenida Dropsie", outra obra-prima que mostra as mudanças ocorridas durante mais de um século da história de um bairro de Nova York. Foto: Will Eisner / Devir

Na década de 1980, ele lançou diversas graphic novels importantes. Publicou um pioneiro livro teórico sobre quadrinhos, Quadrinhos e Arte Sequencial, uma das obras mais relevantes sobre a criação de narrativas gráficas, referência obrigatória para as gerações seguintes. Por ter produzido e dedicado uma vida aos quadrinhos, sempre aprendendo e procurando elevar os conceitos de arte sequencial, Eisner recebeu inúmeras premiações da National Cartoonists Society.

Em 1975, recebeu um prêmio pelo conjunto da obra no prestigiado Festival de Angoulême, na França. Em 1988 foi criado o Prêmio Eisner, para celebrar e homenagear os artistas mais importantes dos quadrinhos publicados em cada ano nos EUA. O prêmio cresceu em prestígio e hoje é o mais importante do mercado norte-americano, considerado o "Oscar dos Quadrinhos".

Atuante até o final de sua vida, morreu em 3 de janeiro de 2005, aos 87 anos, após complicações decorrentes de uma cirurgia cardíaca. Respeitado como desenhista inovador e criador incansável, Eisner trabalhou por oito décadas e viu as histórias em quadrinhos adquirirem um status de arte literária, muito além dos preconceitos e perseguições que o gênero enfrentava, sendo um dos principais agentes dessa evolução.

Usando uma narrativa expressiva, às vezes grandiosa, que expandia as possibilidades artísticas das histórias em quadrinhos e tratando de temas universais de forma profunda e às vezes dramática, Eisner ainda é celebrado como criador sensível, principal divulgador das graphic novels, e sua influência escorre até nossos dias em diretores, desenhistas, designers e grandes artistas e produtores da cultura pop.

"Um Sinal do Espaço" (1985) imagina o primeiro contato humano com uma raça alienígena durante a Guerra Fria. Foto: Will Eisner / Reprodução


 
 
 
 
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