Coluna

Pedro Gonzaga: Caliche

Colunista escreve sobre memórias

Por: Pedro Gonzaga
15/03/2017 - 05h00min | Atualizada em 15/03/2017 - 05h00min

Naquele ano, o time da sétima série se tornara uma ameaça real. Estávamos na oitava e leváramos, até então, vantagem física nos campeonatos da pequena escola onde estudei. Mas agora eles contavam com o Caliche, que batia faltas como ninguém.

Veio a grande final. Eu jogava no gol, orgulhoso de meu uniforme de Mazzaropi, me pensando talentoso, inspirado pelo incrível Dasaev, arqueiro soviético na copa de 1982. Dois anos mais tarde, já no Rosário e rebaixado à reserva, comecei a me entregar à literatura russa, com o apoio do meu então professor João Armando Nicotti. Não sei explicar por que, mas encontrara em Dostoievski aquela mesma sensação de mistério e qualidade que o goleiro antes me trouxera. E eu ainda não conhecia Yashin e Tchekhov.

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A torcida estava contra nós, por razões óbvias. Nosso time não era mau, mas nunca uma academia de fominhas de tal sorte tinha sido reunida. Saímos na frente e viramos em vantagem graças a uma defesa que guardei como espetacular. Vendo um jogo de crianças, dia desses, enchi-me de dúvidas.

Ao início do segundo tempo, falta para a sétima. Caliche bateu forte, rasteiro, mergulhei gordo, não pude alcançar. Quando comecei a tocar saxofone, três anos depois, me agradava a necessidade de ter um bom som antes de ser rápido. Devo minha poesia, agora sei, a essa equação.

Nova falta. Defendi com uma ponte, acho que fui aplaudido. Preparávamos os pênaltis quando um moleque do time adversário disparou livre pela ponta. Fechei o ângulo, ele bateu alto. Estiquei-me todo, toquei a bola com a ponta dos dedos, ela roçou na trave e entrou. Quando estudava saxofone, aos golpes do metrônomo, um dia me dei conta de que havia frases rápidas demais para executar, que havia um limite para além do qual só havia o fracasso.

Do chão, vi o sorriso de castor do Caliche, o mesmo que ele usaria na hora das medalhas.

Da distância do tempo, através dos filtros do afeto e da fantasia, é difícil saber como joguei. E se tivesse defendido o chute? Seria o suficiente? Talvez a memória nada mais seja do que um conformar-se paulatino ao fato de que nossas intenções e esperanças só acertam o andamento depois de as adequarmos a um pulsar possível. Mas é também nesse metrônomo imaginário que o andar do tempo pode transformar tudo em grandes defesas.

 
 
 
 
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