Pampianas

Vinícius Brum: Canção dos Arrozais

Colunista escreve sobre a música vencedora da quarta edição da Califórnia da Canção Nativa

07/03/2017 - 05h01min | Atualizada em 07/03/2017 - 05h01min

"Quando evapora, o suor do peão ao céu levanta, nuvem de chuva, o suor do peão volta pro rio...". Esses são os versos que abrem a Canção dos Arrozais – que teve a interpretação do Grupo Jaros (nome que alude aos indígenas que habitaram as terras onde se encontra o lendário Cerro do Jarau) –, Calhandra de Ouro da quarta edição da Califórnia da Canção Nativa. Seu autor é um dos consagrados poetas rio-grandenses, fundador da Estância da Poesia Crioula, ex-diretor do Instituto Estadual do Livro e membro da Academia Rio-Grandense de Letras: José Hilário Retamozo.

O foco cancionista incide sobre o peão trabalhador das lavouras, que, metaforicamente, rega de sal e suor o rio que faz crescer os cachos de arroz. O ouro que dança à luz do sol na espera das lâminas afiadas e das rodas dos caminhões que haverão de levá-lo para as mesas: o pão que vem das várzeas, das águas e do suor do homem. O refrão é contundente: "O arroz é rio, o arroz é sol, o arroz é roda, é suor do peão, é caminhão, roda que roda...".

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Entre as canções mais conhecidas de Retamozo estão Últimas Carretas, em parceria com Elton Saldanha, Só Restou, em parceria com Marco Aurélio Vasconcelos, Fogo Morto, com Juarez Chagas (seu parceiro constante no Festival da Barranca) – sucesso na interpretação de Pedro Ortaça –, e Poncho Molhado, em parceria com Ewerton Ferreira, imortalizado pelo grupo Os Serranos e pela voz de José Cláudio Machado.

Nos versos que dedicou ao amigo e poeta Apparício Silva Rillo podemos encontrar um breve exemplo do esmero com que José Hilário trabalha a massa poética: "...Por dentro da qual é rio e anda nele onde ele vai: Apparício Silva Rillo, São Borjou Rill'Uruguai". No prefácio do livro O Tesouro dos Jesuítas, Rillo sentencia: "Como todo o artista, Retamozo molda à sua maneira o barro sensível que a inspiração e a sensibilidade lhe colocam às mãos. Retamozo é um poeta e, aos poetas, importa mais o mágico que o lógico, mais a projeção da figura que a figura, mais o desenho da pedra que o seu peso". 


 
 
 
 
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