Cinema e literatura

Carlos André Moreira: "'Trainspotting e o tempo como algoz"

O que o escritor Irvine Welsh diz sobre "T2", continuação do bem-sucedido filme dos anos 1990

Por: Carlos André Moreira
14/04/2017 - 09h00min | Atualizada em 14/04/2017 - 09h00min
Carlos André Moreira: "'Trainspotting e o tempo como algoz" sony/Divulgação
Ewen Bremmer, Ewan McGregor, Jonny Lee Miller e Robert Carlyle em ¿T2¿ Foto: sony / Divulgação  

Existe um problema básico quando um livro se torna um filme e esse filme se transforma num marco definidor de uma década e um obelisco pop incontornável na paisagem do cinema: por mais fiel que esse filme possa ter sido, ele passa a ser encarado como um substituto para o material original, mesmo que tenha deixado de fora alguns elementos importantes. Foi um pouco o que aconteceu com Trainspotting, o filme imensamente popular que Danny Boyle fez baseado no livro homônimo de Irvine Welsh. A estrutura fragmentada estava lá, o vórtice hedonista de quem só consegue planejar o futuro em termos da próxima dose também, bem como o peso de algumas consequências trágicas que seguem a espiral de vício e tentativas de recuperação dos moradores do Leith, na zona portuária de Edimburgo.

Mas, talvez devido ao implacável senso de estilização de Danny Boyle, faltava ao filme lançado em 1996 algo que já estava presente no romance original, de 1993: a melancolia inevitável que acompanha a trajetória de um grupo de personagens esmagados implacavelmente pelo tempo. Spud relembrando a infância dos rapazes e percebendo que mesmo o psicopata violento Begbie não era tão ruim quanto garoto; Renton e sua traumática relação com a família e com a sombra do irmão morto em conflitos com a Irlanda são dois exemplos de como Trainspotting, o livro, ancorava seus personagens em um universo com peso próprio e em que as relações entre os personagens eram o coração do romance, mais até do que a trama episódica ou o sempre falado dialeto fonético em que Welsh a escreveu.

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O tempo como algoz de um grupo de criaturas ocupadas demais em ignorá-lo já era palpável em Trainspotting, mesmo antes de Welsh lançar uma continuação do livro em 2002, Pornô, do qual alguns episódios bastante modificados foram retirados para dar uma estrutura geral a T2: Trainspotting, a continuação que está em cartaz nos cinemas. Uma sequência que, agora sim, agarra-se a esse elemento que ficou de fora, o peso do tempo, fazendo dele seu mote principal. O mesmo grupo de personagens, vivido pelos mesmos atores 20 anos mais velhos, dirigidos por um cineasta que, duas décadas depois, sabe domar a estilização para provocar mais impacto (preste atenção no enquadramento na cena de Renton conversando com o pai na cozinha de casa a respeito da morte da mãe). E com um nível intenso de colaboração com o escritor original, também produtor-executivo.

– Em T2, estou trabalhando com pessoas que são minhas amigas há mais de 20 anos, então a minha colaboração foi muito mais intensa do que em outros casos em que meus livros viraram filmes – comentou Welsh em sua passagem por Paraty em julho de 2016, quando a produção ainda estava sendo filmada.

Em T2, Mark Renton (Ewan McGregor), visto pela última vez em um trem fugindo da Escócia após haver roubado a bolada que todos os seus amigos esperavam repartir de um golpe bem-sucedido, reconstruiu sua vida em Amsterdã, mas a descoberta de um problema cardíaco o faz voltar ao Leith para um acerto de contas com aqueles que deixou para trás, especialmente Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Spud (Ewen Bremmer). Claro que o timing de Renton também coincide com uma fuga da prisão de Frank Begbie (Robert Carlyle). Todos os três têm razões para querer o couro de Renton, mas Begbie é talvez o único que de fato o esfolaria com uma faca de caça se tivesse chance, e logo a coisa se torna um tanto complicada, envolvendo novos esquemas para tirar dinheiro de trouxas e um projeto de Sick Boy para criar um bordel de luxo na vizinhança cada vez mais gentrificada do Leith.

Mas esse fiapo de trama não é o essencial – assim como a junção episódica de situações não era o coração do primeiro Trainspotting. É a noção de como, apesar da bravata que marcou uma geração no início do primeiro filme, "escolher uma vida, escolher um trabalho etc", o tempo passou e, para aqueles que sobreviveram, como o improvável quarteto, as escolhas foram feitas por eles, de qualquer forma. Ao longo das duas horas de um filme em que as transformações físicas dos atores têm tanto papel quanto os truques para retardar o tempo no rosto dos protagonistas em outros tipos de filme, percebe-se que não apenas os personagens olham para si próprios, mas todos os envolvidos, os atores hoje bastante conhecidos, o diretor premiado, o escritor marcado pelo seu primeiro romance, fazem um balanço do que Trainspotting continua representando como retrato de uma era duas décadas depois. Algo que Welsh já havia comentado em sua passagem por Paraty no ano passado:

– Para mim, o que houve com Trainspotting foi fantástico. Não entendo por que um autor iria reclamar por ter escrito algo que deixou uma marca tão forte, tão importante e que se inseriu na cultura de maneira tão impressionante, ainda mais tendo sido o primeiro livro que esse autor escreveu. A maioria dos escritores não tem seu primeiro livro bem recebido. E quando seu nome fica conhecido tão cedo, seus livros seguintes são recebidos de outro modo.

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Welsh coproduziu, trabalhou no roteiro, participou das filmagens – tem uma ponta no papel de um receptador amigo de Begbie. Talvez isso ajude a entender como os dois filmes, tão diversos entre si, formem um conjunto que não é mais apenas a adaptação de uma obra específica, mas do próprio "pathos" que Welsh persegue em sua ficção: a fome de sentido, de pertencimento, de identidade, de uma certa noção de si mesmo como indivíduo, em um caminho repleto de várias formas de autoaniquilação – inclusive a violência. Constantemente chamado para a briga em bares por desconhecidos que querem saber se ele é tão durão quanto seus personagens, Welsh declarou tentar desarmar seus interlocutores com um abraço e uma bebida, mudando, para ele, o que é uma desavença de linguagem.

– A violência é um meio de comunicação. As pessoas têm uma tonelada de raiva e de amor, e elas querem de algum modo comunicar isso, nem que seja dando um murro na cara de alguém.


 
 
 
 
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