Crítica

"Os Dias Eram Assim": por que vale a pena assistir à supersérie da Globo

Estrelada por Sophie Charlotte e Renato Góes, produção que estreou na segunda tem como um de seus pontos fortes a reconstituição de época 

18/04/2017 - 12h49min | Atualizada em 18/04/2017 - 12h49min
"Os Dias Eram Assim": por que vale a pena assistir à supersérie da Globo Sergio Zalis/TV Globo/Divulgação
Foto: Sergio Zalis / TV Globo/Divulgação  

Estamos de volta ao início dos anos 1970. O Brasil vivia um turbilhão político e esportivo: nos campos, a Seleção Brasileira sagrava-se tricampeã do mundo; nas ruas, militantes entravam em confronto com as Forças Armadas pedindo o fim da ditadura. Em meio a isso, o caminho de duas famílias com ideais opostos se cruza quando Renato (Renato Góes) conhece Alice (Sophie Charlotte). Ao redor deles, muitos outros personagens instigantes surgem para recontar, num misto de ficção e realidade, a história recente do Brasil. Esse foi o começo de Os Dias Eram Assim, supersérie da Globo que estreou na segunda-feira na RBS TV.

Com a liberdade criativa concedida à faixa das 23h, as autoras Angela Chaves e Alessandra Poggi criaram uma trama que promete prender a atenção do público ao longo dos seus 80 capítulos. Sob o pano de fundo dos Anos de Chumbo, as duas levarão à tela um Romeu e Julieta à brasileira. Renato é médico residente, filho de Vera (Cássia Kis) e irmão de Gustavo (Gabriel Leone), estudante de filosofia e militante contrário ao regime autoritário instaurado no país desde 1964. Alice é uma jovem bem-nascida, filha de Arnaldo (Antonio Calloni, o grande destaque do elenco na estreia), um poderoso empresário aliado dos militares, e namorada de Vitor (Daniel de Oliveira), braço-direito dele. Renato e Alice viverão um romance, que precisará resistir aos conflitos políticos e familiares.

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No primeiro capítulo, vimos como Alice é vista como uma jovem rebelde e transgressora. O diálogo em que sua mãe, Kiki (Natália do Vale), critica a má influência da atriz Leila Diniz sobre a filha e rasga um exemplar de O Pasquim deixa claro o posicionamento da família da moça. O pai e o namorado são entusiastas do regime militar. Dono da construtora Amianto, Arnaldo chama seus amigos generais, que o ajudaram a fechar um bom contrato com o governo — em tempos de delação da Odebrecht, nada mais real —, para assistir à final da Copa do Mundo em sua casa. Os conchavos entre ele e os políticos ficaram evidentes. Além da repressão dos pais, Alice ainda sofre nas mãos do ambicioso e conservador namorado.

Renato é mais comedido. Embora seja contrário ao regime, não é militante. Antes de conhecer Alice, o jovem conhece Arnaldo, com quem tem um embate após atender Monique (Letícia Spiller), cunhada do empresário, que teve complicações na gravidez e foi salva pelo médico. O caminho dos dois somente se cruza quando Alice vai com uma amiga a um bar. Cátia (Bárbara Reis) quer encontrar o namorado, Gustavo. Ele está acompanhado do irmão, Renato.

A sequência seguinte ao encontro, quando os quatro fogem da polícia durante um conflito entre militares e militantes nas ruas do Rio, foi o ponto alto do capítulo. Imagens reais dos arquivos da Globo foram mescladas com passagens dos atores sob o som de Sangue Latino (de Secos & Molhados). Ao final, uma cena chocante. Nos porões da ditadura, Túlio (Caio Blat) é torturado para entregar seus "comparsas" sob o olhar de Arnaldo, que teve o prédio de sua empresa atacado pelo jovem.

Os Dias Eram Assim lembra Anos Rebeldes, minissérie exibida em 1992. Com roteiro bem acabado, a nova produção tem como um dos seus pontos fortes a reconstituição de época — com esse recurso de usar imagens reais, com a trilha sonora (que tem liberdade para antecipar músicas que só seriam lançadas anos depois do período mostrado na estreia), com a fotografia, a cenografia e o figurino. Embora beba na fonte histórica, ainda é uma obra de ficção. Vai suscitar debates e retomar discussões, mas vai entreter. Vale acompanhar as cenas dos próximos capítulos.

 
 
 
 
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