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VÍDEO: a cavalo e de barco, Renato Borghetti apresenta Barra do Ribeiro, recanto onde vive

Natural de Porto Alegre, gaiteiro adotou a cidade a 50 quilômetros ao sul da Capital há 32 anos

10/04/2017 - 16h56min | Atualizada em 10/04/2017 - 17h40min

– A Barra do Ribeiro tem gaita, produz bons vinhos, uma boa cerveja, azeite de oliva e tem praia para desfrutar. Por aqui tem tudo!

É com entusiasmo que Renato Borghetti descreve o município que escolheu como seu recanto. Combinando praia, campo e o sossego interiorano, a Barra do Ribeiro é o aconchego de um dos mais prestigiados músicos gaúchos. Natural de Porto Alegre, o gaiteiro adotou a cidade a 50 quilômetros ao sul da Capital há 32 anos.

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Lá, possui um sítio com vista para o Guaíba. Para Borghetti, a Barra é um local onde o gauchismo aflora.

– É um município campeiro, muito gauchão, que tem uma relação muito forte com cavalo e com gado, com a vida do homem do campo. Lembro das épocas de rodeio que eu frequentava. Quando alguém era da Barra do Ribeiro, o pessoal já dizia: "Ó, ali é gente de campo bom, de ginete, que sabe tudo de cavalo". Foi nesses eventos que tive a minha primeira relação com o município. Depois, meu pai adquiriu uma propriedade rural por aqui e em seguidinha vim pra Barra também – recorda o músico de 53 anos.

A relação de Borghetti com o município está registrada em 10 composições de seu repertório, como Barra do Ribeiro, Entardecer no Pontal e Sétima do Pontal – as duas últimas fazem referência à ponta de terra que avança nas águas do Guaíba. Também foi no município onde gravou dois CDs e DVDs: Fandango (2007) e Gaita na Fábrica (2016).

– A Barra do Ribeiro foi o local em que a maioria das minhas músicas nasceu. É para onde eu venho para ficar mais calmo, compor, tocar e estudar – relata.

Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Barra do Ribeiro tem 13 mil habitantes. Está perto da Capital, mas, segundo Borghetti, "parece que estamos lá na fronteira":

– O povo de Barra do Ribeiro é muito tranquilo e hospitaleiro.

Todo mundo se conhece. A gente sai na rua cumprimentando todos pelo nome, o que é muito bonito nos dias de hoje: ter essa relação sincera com a comunidade.

A descrição de Borghetti se confirma quando ele anda pelas ruas da Barra acompanhado da reportagem: a todo instante, é abordado por um transeunte, que é reconhecido pelo nome, para uma conversa rápida. Quando o gaiteiro apresentava a orla da

Praia da Picada para ZH, dois homens que tomavam cerveja em um bar chamaram o músico.

– Só porque a gente estava com saudade tu apareceste? Só quer andar na Suíça, na Áustria – brincou Luis Alberto Santos Ribeiro.

Borghettinho aceita um gole da bebida e põe a conversa em dia com a dupla. O celular de Luis Alberto toca, e ele atende:

– Só um pouquinho, agora estou em uma audiência com uma autoridade. Depois eu te ligo.

É essa "autoridade barrense"que irá apresentar, a seguir, alguns dos principais pontos do município banhado pelo Guaíba.

FÁBRICA DE GAITEIROS

Encontramos Borghetti na Fábrica de Gaiteiros, situada em um prédio restaurado, às margens do Guaíba. Na entrada do local, há dois troncos de árvores para serem utilizados como estacionamento de dois meios de transporte: um é para colocar bicicletas, o outro é para amarrar cavalos. A autora do projeto da restauração do prédio é Emily, filha de Renato. Antes, o local abrigou atividades como armazenamento de grãos, peixaria e até bailão. Agora a sede barrense da Fábrica de Gaiteiros, projeto que conta com nove escolas em oito cidades e tem como foco a construção, distribuição e aulas de gaita para crianças e adolescentes de sete a 15 anos.

– Quando adquirimos o prédio, era uma fábrica de barcos de fibra. Reformamos tudo e adaptamos para fazer gaita – conta Borghetti. – Não é uma fábrica de gaitas, pois assim teria que vender instrumentos. Como a gente não vende, o nosso produto é a música, que é o que os gaiteirinhos fazem: um xote, um vanerão. Nosso lucro é o músico – completa.

Composta por salas com paredes de vidro e contando com mezanino no qual há painéis com a história da gaita, a fábrica foi além da produção e ensino do instrumento e virou um centro cultural barrense, onde são realizados eventos do município.

– Aqui há um pequeno teatro para 90 lugares. Temos três salas de aula e um pequeno bar que funciona no verão ou quando tem algum show ou atividade. Estamos agora finalizando a nossa biblioteca – destaca Borghetti.

NAS ÁGUAS DO GUAÍBA

Para mostrar alguns locais do balneário barrense por uma vista privilegiada, Borghetti recrutou Bode – um sujeito conhecido por muita gente na cidade, que conserta motores de barcos e é um profundo conhecedor do Guaíba. Com jeito de marinheiro, ele chega com seu Fusca vermelho trazendo uma canoa motorizada – que contém a gravura de um bode. Na navegação conduzida por Bode, o instrumentista passa a apresentar as praias do município.

– Aqui é o Recanto das Mulatas, ou Canto das Mulatas. Segundo o Bode, antigamente as mulatas vinham lavar roupa e cantavam durante a atividade. Então ficou essa tradição.

Do barco, é possível observar pousadas, cabanas e locais para camping.

– No verão, isso aqui fica lotado. Uma das características daqui é que existem muitas pousadas. O pessoal vem por ser próximo de Porto Alegre – diz o músico.

A seguir, apontando para o sudoeste do Recanto das Mulatas, Borghetti apresenta o Arroio Araçá.

– É onde o pessoal de barco, veleiros e lanchas costuma vir bastante. A impressão que se tem, quando vou navegar ali, é a de que se está no Pantanal, pois é o mesmo tipo de vegetação e rios de lá – compara.

Aliás, o instrumentista tem o hábito de navegar no Guaíba.

– Sempre tive propriedade na beira d¿água. Tenho o hábito de usar o rio. É coisa que a gauchada, mesmo o porto-alegrense, que está perto do Guaíba, conhece pouco. E acho um passeio tão legal de vir até o Araçá. O próprio Arroio Ribeiro, que margeia a cidade, é muito legal de navegar – recomenda.

Ao revertermos a rota do barco e navegarmos para o norte, passamos em frente aos armazéns abandonados da Barra do Ribeiro. Borghetti gosta de imaginar o período áureo, quando ali havia atividade por conta do transporte fluvial, nos anos 1950 e 60:

– Antigamente, isso aí era muito utilizado como meio de escoamento de grãos e peixe, além de transporte mesmo. Quase todos os armazéns tinham um trapiche na frente, onde os barcos encostavam para carregar produtos. Com a construção da BR-116, esse transporte passou a ser feito via terrestre. Hoje os armazéns estão desativados.

Um dos armazéns que estão sendo restaurados é o Engenho Santo Antônio. Segundo a prefeitura, o local deverá abrigar cursos profissionalizantes, atividades culturais e um míni shopping, além de uma hidroviária, caso seja concretizada a vinda do catamarã da Barra até Guaíba e Porto Alegre.

Borghetti na Praia da Picada Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Depois, fomos de carro até a Praia da Picada, que tem uma orla arborizada. O local abriga a famosa Santinha:

– Chamamos de Santinha a estátua da Nossa Senhora dos Navegantes, protetora das águas. A Praia da Picada é a mais famosa daqui. O pessoal vem tomar um banho protegido pela Santinha.

VINHO BARRENSE

Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Borghetti levou a reportagem até a vinícola Laurentia, localizada na BR-290, nas proximidades da entrada da Barra do Ribeiro. Criada em 1996 pelo casal Gilberto e Leonor Schwartsmann, a propriedade produz vinhos e espumantes.

– A Barra do Ribeiro é uma cidade de tradição de plantar arroz, além de ter sua parte campeira e do gado. Mas também é uma cidade do vinho, que é normalmente associado à região da Serra ou à Campanha. Mas aqui se produz vinho e espumante dos bons – garante o músico.

Contando com mata nativa, lagos e jardins, a vinícola também funciona como pousada e restaurante, instalados em casas de campo de estilo europeu, cujas mobílias lembram os anos 1970. Na propriedade também é possível deparar com obras do artista visual Carlos de Britto Velho.

Tanto a pousada quanto a gastronomia funcionam de quinta-feira a domingo – o restaurante é aberto sempre ao meio-dia. A vinícola está aberta para visitação todos os dias, das 10h às 16h.

A CERVEJA DA BARRA

Foto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Depois do vinho e do espumante, chegou a vez da cerveja. Acompanhamos Borghetti até a cervejaria Croa – que referencia a Barra do Ribeiro até no nome: é como se chama a elevação de areia que surge no Guaíba conforme o nível da água. A madeira utilizada nos móveis do estabelecimento provém do antigo telhado do prédio onde está localizada a Fábrica de Gaiteiros.

– Este local tem tudo a ver com a Barra. A história da cidade está nas paredes da cervejaria, que têm fotos antigas com imagens de gente daqui – indica o gaiteiro.

Álex Wagner, consultor da Croa, complementa:

– E está fazendo história também. Teve amigo que casou aqui. Cada festa que sai é uma melhor que a outra.

No pub, é possível encontrar cervejas artesanais pilsen, red ale e stout – que eram degustadas pelos amigos campeiros de Borghetti, na frente da cervejaria, montados em seus respectivos cavalos. Cada transeunte que passava, parava por ali para jogar conversa fora.

Veja a galeria de fotos do passeio com Renato Borghetti na Barra do Ribeiro:


 
 
 
 
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