Coluna

PLAYLIST: "Sem Palavras" reúne belo time de bandas instrumentais para reler clássicos de todos os gêneros

Coluna traz ainda lançamentos de Brenda Band, The Completers e Astralplane

03/05/2017 - 10h03min | Atualizada em 03/05/2017 - 10h03min
PLAYLIST: "Sem Palavras" reúne belo time de bandas instrumentais para reler clássicos de todos os gêneros Natália Biazus/Divulgação
Banda gaúcha Yangos é uma das convidadas do disco e entrega versão fantástica de "The Trooper", do Iron Maiden Foto: Natália Biazus / Divulgação  

Eu tenho essa impressão, há um bom tempo, de que a música entrou em um looping inescapável de auto referência. E que na impossibilidade de criar algo realmente novo, original, o negócio é partir para variações sobre os mesmos temas. Ouvindo Sem Palavras, percebo que esse movimento, às vezes, não é de todo ruim e dele podem sair excelente surpresas.

Organizado pelo produtor e jornalista Leonardo Vinhas e lançado pelo site Scream & Yell, Sem Palavras reúne dez bandas instrumentais brasileiras e uma argentina recriando canções de artistas tão opostos quanto Astor Piazzolla e Ramones. E quando eu digo recriando eu digo botando abaixo toda a estrutura conhecida e erguendo uma nova obra, preservando apenas a essência original.

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Pega-se, por exemplo, a Yangos, excelente combo instrumental gaúcho de forte pegada latina, que produziu nada menos que uma versão gaudéria de The Trooper, clássico do Iron Maiden. E o que dizer da banda de experiências eletrônicas Muntchako que virou do avesso Emoções, de Roberto Carlos, numa versão com colagens sonoras e base de guitarras distorcidas?

Há ainda os rockers da Skrotes mandando uma versão jazz-de-restaurante de Symptom of The Universe, do Black Sabbath (com uma surpresinha lá no meio, ouça inteira). Já a festiva Private Idaho, do B-52's, foi devidamente retorcida para um punk rock acelerado pela Camarones Orquestra Guitarrística.

E tem mais: Pata de Elefante tocando Rolling Stones (Monkey Man), Esperando Rei Zula fazendo a própria versão de Always On My Mind, Magarabat subvertendo The Telephone Call, do Kraftwerk, entre outros.

É nessa estranheza que reside a singularidade e a beleza de Sem Palavras. Não é um disco instrumental de tributo, mas o resultado de experiências que, pela ordem natural das coisas, dificilmente aconteceriam. São ainda variações sobre os mesmos temas, mas que provam ser possível avançar mesmo em um terreno já saturado. Que grande vitória.

LANÇAMENTOS

PASSÉ
Brenda Band
Não se deixe enganar pelo rostinho bonito, a voz macia e a pouca idade: Brenda tem alma com alguns quilômetros já rodados. É a impressão que fica ao ouvir seu novo EP, produção de fino trato folk e poesia que se debruça a respeito dos pequenos dilemas sentimentais que nunca nos deixam em paz. De certa forma, Passé pode ser entendido como um curta-metragem de quatro faixas que, se ouvidas na sequência, narram aqueles melancólicos momentos finais de qualquer romance. A impressão de que as coisas não são mais como antes (É o Começo: sabe aqueles dias que eu não te reconheço / eu me esqueço / depois eu fecho os olhos e te reviro do avesso / É o começo), as tentativas de salvar o pouco que ainda resta (Música Francesa: por ti eu boto a louça nova na mesa / não tomo cerveja e ouço música francesa / o meu cabelo eu vou pentear / parar de fumar e o nosso amor inventar), a aceitação do inevitável (Sábado: e eu te agradeço se tu for franca / e jogar a lança / num gramado qualquer / e não no meu coração de mulher) e o balanço final (A Despedia: você passa e tudo gira / mas agora é no sentido horário / você olha e eu desvio / não é medo é o meu imaginário). Que achado. Folk, 4 faixas, Loop Discos, disponível para audição nas plataformas de streaming.

SILENCE B/W BE GONE
The Completers
Esse é daqueles sons que te jogam em uma máquina do tempo sem dar tempo de pensar. Do primeiro ao último acorde, Felipe Vicente (vocal e guitarra), Jonas Dalacorte (guitarra), Lucas Richter (baixo) e Guilherme Chiarelli Gonçalves (bateria) reconstroem, com riqueza de detalhes, o imaginário do pós-punk. Está tudo lá: o vocal etéreo que carrega a poesia sombria do fim do mundo de cada um, o baixo sisudo, a bateria frenética e as guitarras dramáticas. Pode escolher a referência que você quiser, Joy Division, Bauhaus, Television, todos foram desmontados e devidamente recriados pelo quarteto, com produção esmerada do mestre Diego Poloni. Talvez o disco inteiro mostre outros caminhos que a banda também gosta de percorrer, mas eu já me contentaria com mais uma meia-dúzia de pepitas sombrias como estas. Rock, 2 faixas, independente, disponível para audição em thecompleters.bandcamp.com.

REDEVOUT
Astralplane
Formada por Lucas Pereira, Savio Magalhães, Rodrigo Amorim e Gabriel Sanches, a baiana Astralplane é outra banda a engrossar o caldo da chamada nova psicodelia brasileira. Depois de lançar um EP em 2016 com letras em inglês, o grupo apresentar seu primeiro disco completo, agora falando a língua materna. E não faz feio: Redevout tem aquela lisergia tropical que a gente tanto gosta e aprecia dos mestres do passado, mas com polimento moderno. As letras tratam basicamente de divagações existenciais, às vezes com um olhar mais voltado para o cotidiano (Astral), às vezes pendendo para um lado mais intimista (Perigo, Olhos de Adão). Destaque para a faixa que encerra o disco, Rosa dos Ventos. Pop, 9 faixas, Selo NHL, disponível para audição em no canal do YouTube da banda.


 
 
 
 
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