Música

Shakira revisita raízes em novo álbum: "São músicas que mostram a Colômbia como eu a vejo"

"El Dorado", lançado em maio, é quase todo cantado em espanhol

Por: The New York Times
15/06/2017 - 14h58min | Atualizada em 15/06/2017 - 18h46min
Shakira revisita raízes em novo álbum: "São músicas que mostram a Colômbia como eu a vejo" Maurício Santana/Divulgação
Foto: Maurício Santana / Divulgação  

Não faz muito tempo, a cantora e compositora colombiana Shakira nem sabia se voltaria a fazer outro álbum.

– Estava cheia de dúvidas e comecei a achar que nunca seria capaz de voltar a fazer música boa – confessou ela em entrevista realizada em uma suíte de hotel em Midtown Manhattan, no dia em que promovia o novo trabalho, El Dorado, lançado em 26 de maio.

As músicas, praticamente todas cantadas em espanhol, língua-mãe da cantora – embora ela já seja fluente em inglês – falam de amor, embaladas por ritmos tropicais. O nome do disco vem da cidade mítica que os conquistadores espanhóis buscavam nas Américas.

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– Reencontrar a inspiração e perceber que ela estava ali o tempo todo: para mim, esse é o significado de El Dorado. Ou seja, um estado de espírito perfeito para compor.

Ela conta que voltou a se sentir estimulada a criar quando decidiu que não tinha que fazer outro disco, mas sim uma música de cada vez. 

– Foi muito libertador.

Shakira Isabel Mebarak Ripoll se tornou uma estrela da música latino-americana nos anos 90; em 2001, conquistou o mundo com Laundry Service, com canções em inglês, vendendo três milhões de cópias só nos EUA. A batida fácil, o sorriso de menina e o rebolado dos quadris a transformaram na sensação dos clipes.

A partir daí, vendeu milhões de discos; fez parceria com Beyoncé, Rihanna e Wyclef Jean (no sucesso internacional Hips Don't Lie); participou do programa The Voice e gravou o hino da Copa do Mundo Waka Waka (This Time for Africa), que a levou a conhecer o marido, o jogador espanhol Gerard Piqué.

Ultimamente ela vem se dedicando aos dois filhos do casal, de quatro e dois anos. O álbum de 2014, Shakira, foi um mergulho no rock e EDM, em uma tentativa explícita de se destacar nas rádios – e apesar de ter sido um trabalho de difícil conclusão e de levar dois anos para ficar pronto, não vendeu tão bem quanto os anteriores.

– Quando será que vou me aposentar? – ela se lembra de ter perguntado ao marido. Ao que ele respondeu: "Quando não tiver mais nada a dizer, mas acho que esse momento ainda não chegou."

– A compositora dentro de mim precisava demais de atenção, só que meu filho de dois anos estava na mesma situação. A pessoa, a mãe, a criadora, todas essas facetas estavam em conflito aqui dentro. Foi um período bem tumultuado.

A virada veio no ano passado, quando Shakira revisitou suas raízes colombianas. O compositor Carlos Vives, cujas canções se popularizaram no mundo hispanófono graças a elementos da tradição colombiana como o vallenato, enviou a ela demos de seu próximo disco. Shakira viu a possibilidade de duetos em uma das músicas – e seu lado artístico falou mais forte. Pôs-se a trabalhar.

– Senti que tinha potencial, mas, por outro lado, eu queria pôr a mão na massa. Eu tinha gostado do material, mas tinha a impressão de que estava faltando alguma coisa.

E bolou o refrão grudento "Llévame en tu bicicleta", que se transformou em La Bicicleta. Com um clipe que mostra Shakira e Vives pedalando e dançando em suas cidades de origem, no litoral caribenho, em uma volta aos locais da infância, a música estourou na América Latina.

– São músicas que mostram a Colômbia como eu a vejo, o país da minha infância, e não a ideia que muita gente tem, esse clichê Pablo Escobar em que muitos que não conhecem nossa realidade acreditam. Eu queria revelar o outro lado, o lado verdadeiro, a vida dos colombianos.

Ao terminar de compor uma canção, percebeu que podia começar a se dedicar a outra. 

– Com as plataformas de streaming, fica muito mais fácil compartilhar e divulgar as canções uma a uma. Assim que a música ficava pronta, como tenho um relacionamento direto com os fãs, era só lançar. Isso mudou a coisa completamente; em vez de pensar em ter que escalar o Monte Evereste, passei a me preocupar em dar um passo de cada vez.

O álbum traz uma música que já é um megasucesso: Chantaje, dueto provocador com o cantor colombiano Maluma, o galã atual do pop latino. "Sou masoquista", ele canta; "Com meu corpo, sou egoísta", responde ela. Desde o lançamento no ano passado, o clipe foi visto no YouTube mais de 1,2 bilhão de vezes e ouvido 326 milhões no Spotify.

– Chantaje é muito sensual, moderna, diferente, simples, minimalista, com um balanço bom. Quis mudar um pouco a coisa, no caso mostrando a garota como a sacana porque já estava cansada de ouvir músicas de mulheres reclamando do tratamento que receberam. Eu queria assumir o controle, representar a "malzona" na relação, tipo a despreocupada, a liberada.

O álbum traz outra parceria com Maluma: Trap, uma balada sussurrante que funde o pop em espanhol com os ritmos mais variantes do R&B. Outras parcerias incluem Déjà Vu, bachata que compartilha com Prince Royce, nascido no Bonx de pais dominicanos; Me Enamoré, canção enxuta composta por Shakira e o produtor Rayito; Perro Fiel, dueto pop-reggaeton com Nicky Jam; What We Said, em inglês, também na batida do reggaeton, com guitarra africana e participação de Nasri Atweh, do Magic.

No álbum todo se vê presente um balanço e um bom humor que não se viu em Shakira.

– A vida inteira senti pressão para tudo: no aspecto pessoal, para realizar meus sonhos, para ir atrás da carreira e me tornar uma artista de sucesso. De repente, a coisa mudou e me vi como mãe, com uma família com que sonhava ter desde que era menina. Aí percebi que a compositora dentro de mim também pedia atenção, minha música era a minha fuga. O estúdio se tornou o lugar onde extravasava, longe da rotina diária – e acabou se tornando meu passatempo. Aí virou um prazer, como todo passatempo que se preze. Hoje, a música é o meu hobby. Oh, nunca pensei que um dia fosse dizer isso!

E ri. 

– Que doideira!

*Por Jon Pareles

 
 
 
 
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