Coluna

Carlos Gerbase: "O profissionalismo virou uma espécie de salvo-conduto para ignorar o próprio passado"

Colunista fala sobre as questões éticas da vida profissional

19/07/2017 - 15h11min | Atualizada em 19/07/2017 - 15h11min

O sujeito trabalha por vários anos na promotoria pública, pago pelos cidadãos para fiscalizar os desmandos dos ricos e poderosos, denunciar autoridades envolvidas em corrupção e lutar por uma sociedade mais justa. Sai da promotoria e, algum tempo depois, atua como advogado de defesa dos ricos e poderosos envolvidos na corrupção que ajudou a denunciar. Ganha um bom dinheiro com isso. Há algum problema? Não. Afinal das contas ele é um profissional.

O sujeito trabalha com marketing político, pago – pelo menos supostamente – por um candidato de direita. Usando seu talento, ataca ferozmente o candidato adversário, de esquerda, com todas as armas possíveis, e conquista uma grande vitória eleitoral. Na eleição seguinte, o sujeito, contratado pelo político de esquerda que ajudou a derrotar, ataca ferozmente o candidato de direita. Ganha uma montanha de dinheiro com isso. Há algum problema? Não. Afinal das contas ele é um profissional.

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O sujeito é jogador de futebol. Diz, sem ninguém pedir, que ama seu clube mais que a mãe e a noiva juntas. Quando faz um gol, beija o distintivo na camiseta, em vez de beijar a aliança de noivado. Dois meses depois, está no clube rival. Nem precisa dar explicações: a imprensa diz para os torcedores que ele é um profissional. Profissionais, pelo visto, têm o direito de mudar de lado em questões jurídicas, de ideologia em questões eleitorais, ou de clube em questões contratuais, sem pensar, nem por um segundo, se há alguma questão ética envolvida.

O profissionalismo virou uma espécie de salvo-conduto para ignorar o próprio passado, como se a biografia de um sujeito pudesse ser reescrita a cada anotação na Carteira do Trabalho. Talvez promotores, marqueteiros e jogadores de futebol não estejam envolvidos nas mesmas questões éticas. Ou, quem sabe, são as mesmas, mas em graus de complexidade diferentes. Mas alegar profissionalismo para dizer agora o oposto do que disse antes é exatamente o contrário do que cantava Raul Seixas. Ser uma metamorfose ambulante era uma maneira poética de ver a vida em constante mutação. Agora, com esses profissionais no microfone, virou uma maneira pragmática e cínica de sempre levar vantagem em tudo.

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