Opinião

Celso Loureiro Chaves: Bernstein

Colunista fala sobre o legado do maestro e compositor Leonard Bernstein, cujo centenário será em agosto

10/07/2017 - 05h00min | Atualizada em 10/07/2017 - 05h00min

Foi dada a partida para o centenário de Leonard Bernstein, em agosto de 2018. Desde agora surgem homenagens de diversas formas, algumas da melhor maneira possível: lembrando a música de Bernstein, o compositor. Afinal de contas, é a música que fica. 

Todas as peripécias de Bernstein, o maestro, terminam nos registros em áudio e vídeo, e a presença se perde. A "regência atlética" do maestro fica só na memória, sem a contundência do ao vivo. Uma vez vi Bernstein reger a Sétima Sinfonia de Shostakovich, peça dramática e autobiográfica como acontece com sinfonias russas. Não são as colcheias bem colocadas e os fortíssimos bem apanhados o que mais lembro. São os saltos e pulos de Bernstein, assinalando fisicamente colcheias e fortíssimos, quase a despencar no colo da plateia. A música que resultava desse esforço era de não reclamar, embora o espetáculo atlético fosse discutível.

Era assim com todo repertório, da inocência de Bach à exuberância da música do próprio Bernstein, celebrada agora no pontapé inicial do centenário. Os próprios filhos de Bernstein são os curadores de uma coleção de CDs – formato antiquado, mas ainda adequado para homenagens – que resgata os registros que Bernstein fez para a CBS americana no calor da hora. A CBS tinha mania das "obras completas": Stravinsky deixou tudo registrado, e os seus vinis ajudaram a financiar os de Schoenberg. 

Com Bernstein tinha que ser assim. Tudo o que ele compusesse tinha que ser preservado. A coleção vai das sinfonias e concertos aos musicais da Broadway. Não há pudores em juntar uns e outros. Muitas décadas atrás, essa fartura de inspiração não era bem aceita pelos pretensos especialistas. Tanto assim que a nossa Rádio da Universidade tinha uma proibição não escrita, quase uma lenda urbana do rádio local: nada de Bernstein, pois quem faz musicais não pode ousar sinfonias! Raciocínio raso e que resultava num "fora Bernstein" sem propósito. 

Esta censura radiofônica de anos atrás já soava mal na época. É justamente por aí que inicia o centenário, para horror dos de então, celebrando o Bernstein, mostrando que proibições como essas, na verdade, pertencem mais ao terreno da anedota do que ao da estética.

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