Opinião

Celso Loureiro Chaves: Casa de sons

Colunista faz relação entre a casa do compositor francês Pierre Henry com o lar do entusiasta gaúcho Marcelo Sfoggia

23/07/2017 - 17h05min | Atualizada em 23/07/2017 - 17h05min

Existe um livro de fotografias sobre o compositor Pierre Henry, falecido há poucos dias, que descreve em imagens insólitas a casa do músico. A própria casa é insólita, todos os cantos ocupados por aparelhos de som, caixas de fitas de rolo, partituras, esculturas feitas de restos de equipamentos eletrônicos, pinturas surpreendentes onde a eletricidade também está presente.

É que Pierre Henry foi um dos inventores da música eletrônica e por isso a sua morte foi interpretada como um sinal dos tempos, a música do futuro remetida sem escalas para o passado. A "casa de sons de Pierre Henry", que é como o fotógrafo Geir Egil Bergjord chama o seu livro, é um lugar mágico de habitação, construído por música eletrônica. 

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Pode ser coincidência, mas a obra que fez de Pierre Henry um compositor conhecido é Variações para uma Porta e um Suspiro. Elas são exatamente isto: uma sequência de 25 partes, quase uma hora de duração, feita só de transformações dos sons de uma porta que abre e fecha e de deformações das ondas da respiração humana. Música eletrônica dos anos 1960. 

Hoje, não se consegue mais ouvir as Variações sem sorrir, ou mesmo sem rir descontroladamente. O tempo se encarregou de transferir essa música eletrônica rigorosíssima do tempo dos Beatles para o humor. De qualquer modo, seria injusto dizer que Henry só fez isso. Dos 1960 à sua morte, com quase 90 anos, ele fez muito, principalmente os balés com Béjart e Balanchine, seus contemporâneos mais luminosos.

As fotografias da casa de Pierre Henry me fazem lembrar uma casa muito semelhante em Porto Alegre. A casa onde Marcello Sfoggia conservava grande parte da música de concerto do Rio Grande do Sul. Apaixonado por música, Sfoggia registrava concertos e CDs meticulosamente. Depois, essas gravações chegavam à forma final naquela casa da Vila Conceição atulhada de referências eletrônicas. 

Por isso, há algo nas paredes da casa de Pierre Henry que lembram as paredes do laboratório do Sfoggia, lugar inesquecível para quem alguma vez esteve ali: é como se a casa de sons de Pierre Henry também tivesse existido em Porto Alegre.

 
 
 
 
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