Entrevista

Nando Reis: "Eu sempre quis esse lugar do compositor, do cara que não é a estrela principal"

Músico fala sobre as suas inspirações, o reencontro com ex-colegas de Titãs e o relacionamento com Cássia Eller 

07/07/2017 - 17h00min | Atualizada em 07/07/2017 - 17h57min
Nando Reis: "Eu sempre quis esse lugar do compositor, do cara que não é a estrela principal" Carol Siqueira/Divulgação
Músico  esteve na Capital no fim de junho lançando o seu novo álbum, Jardim-Pomar Foto: Carol Siqueira / Divulgação  

Vivendo de música há mais de 30 anos, Nando Reis, 54, é autor de canções que embalaram gerações, como Segundo Sol, Bichos Escrotos (em coautoria com Arnaldo Antunes e Sergio Britto) e É uma Partida de Futebol (com Samuel Rosa). O ex-Titãs tem 12 álbuns solo e uma longa lista de parceiros, entre os quais Marisa Monte, Skank, Jota Quest e Cássia Eller – com quem trabalhou por três anos, até a morte da cantora, em dezembro de 2001.

– Tivemos uma relação curta e intensa. Cássia me disse, certa vez, que eu era a única pessoa que falava de amor de uma forma que ela conseguia entender e, por isso, pudesse cantar – conta o músico, que lançou há pouco seu novo disco, Jardim-Pomar, cuja turnê chegou no fim de junho ao RS.

Pai de cinco filhos, um deles gaúcho de São Leopoldo, Nando Reis diz estar cansado da rotina agitada de shows e que, por isso, pretende "diminuir o ritmo". As músicas ácidas, tão comuns na época dos Titãs, também ficaram para trás – hoje ele prefere compor "sobre o que ama".

– Não tenho saco. Você acha que vou fazer uma música falando sobre o Temer, sobre o Gilmar Mendes, sobre a Lava-Jato? Não me interessa. Não acho que não se deve fazer. Eu tenho um posicionamento, é isso. Vivi o momento em que vínhamos de uma ditadura, e eu era um adolescente, tinha outro ímpeto. A minha questão, hoje, é muito mais profunda – diz.

Nesta entrevista, o cantor e compositor fala sobre suas fontes de inspiração, o reencontro com a antiga banda, a turnê que irá fazer com Gal Costa e Gilberto Gil e sua relação com a capital gaúcha, onde compôs o sucesso Relicário.

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Jardim-Pomar foi lançado em diversos formatos, incluindo LP e fita cassete, além de ter rendido dois álbuns de registros da turnê distribuídos online. O objetivo é levar as pessoas a uma imersão no teu trabalho?
Sim, é isso. Mas, nesse projeto, eu avanço no mundo digital como nunca havia feito. Acho que um disco, ao menos na forma que o concebo, necessita de uma imersão, de um envolvimento completo. É algo multissensorial. Não se trata apenas de uma compilação de músicas; a própria forma como as faixas são agrupadas segue um princípio de unidade. Mas cada um consome do jeito que quiser.

Você trabalhou com dois produtores nesse disco: Jack Endino, nome histórico do grunge, envolvido com o clássico Nervermind (1991), do Nirvana, e Barrett Martin, que já gravou com o R.E.M. É um diferencial do álbum.
Eu já havia trabalhado com ambos antes. Agora, com o Jack, gravei a metade do disco em Seattle, em julho de 2015. Com o Barrett o concluí, em fevereiro de 2016, aqui no Brasil. O que acho é que cada música deve ter o seu arranjo, a sua resolução. Deve ter uma identidade forte, que a distinga. Também acredito que um disco é sempre o recorte de um momento, e não há momento que se repita.

Que momento é esse que você vive?
Costumo dizer – e não é um clichê, nem uma saída engraçadinha – que esse disco levou 54 anos para ser feito. Porque ele contém tudo o que foi visto por mim, toda a minha experiência de vida. Mas se conclui em um momento, quando as músicas são compostas, principalmente, e depois gravadas. Então essa característica que o Jardim-Pomar tem de falar de relações pessoais reflete muito minhas inquietações atuais. Muitas vezes escrevo na primeira pessoa do singular, o que deixa essa associação mais clara, mas também há, mesclado nisso, minhas inquietações sobre a passagem do tempo e sobre a finitude da vida. Há, me parece, uma relação entre a passagem do tempo e as relações pessoais, que demandam uma permanente necessidade de atualização e até a adequação da linguagem, porque a afinidade, no fundo, se desenvolve a partir de uma linguagem. É uma questão existencial. A própria forma que tenho de escrever, que parece autobiográfica, é, na verdade, a busca do entendimento e da própria colocação do eu perante os outros.

Você se retrata nas suas músicas?
Toda a criação é autobiográfica. Porque, por mais que ela não fale do autor objetivamente, ela acaba dizendo muito sobre o autor. Isso se dá na escolha da palavra, na escolha do tema etc. A arte é a afirmação de uma identidade. Na música Inimitável, que além da coisa "Se vamos todos morrer, então vamos tratar de viver", há um verso que eu acho emblemático: "Cada pessoa é um indivíduo, a diferença é que nos faz iguais". Sempre acreditei nisso. Temos uma necessidade permanente de identificação, de busca de posicionamento, o que faz com que se acentue a singularidade – que muitas vezes leva, mais do que ao contraste, ao próprio choque. Tem a ver com isso a crise de intolerância pela qual passamos. Parece que a individualidade tem de se manifestar de forma opinativa – o que é uma tolice.

As redes sociais amplificaram isso.
As redes sociais tornaram as pessoas mais irresponsáveis, vaidosas, inconsequentes, intolerantes, desobrigadas de responsabilidade em suas acusações. Não estou dizendo que as redes sociais são uma porcaria; esse é apenas um aspecto que elas trazem. Mas acho que não é um problema das redes em si, e sim das pessoas quando as usam. É natural você estabelecer afinidades e usar essas redes para se aproximar dos grupos com os quais se identifica. Você nem precisa se apresentar. Pode ficar escondido. Isso ajuda a falsidade e a leviandade. O que favorece as manifestações do ódio.

Como foi reencontrar os Titãs (Arnaldo Antunes, Branco Mello, Paulo Miklos e Sérgio Britto participaram da gravação da faixa Azul de Presunto)?
Foi uma delícia, uma felicidade. A gente não entrava em estúdio para gravar algo inédito há 25 anos. E acho que Jardim-Pomar guarda semelhança poética com a banda, especialmente naquela coisa meio absurda dessa faixa. E não se tratava só de reunir os Titãs em uma participação especial, mas de evocar uma parte importante das minhas relações, não só profissionais, mas pessoais, mesmo. Pela convivência. Foram 20 anos juntos. Quando nos reencontramos, meus filhos mais velhos puderam revê-los também – eles estavam muito presentes na fase dos Titãs. Nossas famílias se reencontraram – nossos filhos, as mulheres que são a origem da nossa admiração pelo universo feminino...

Nando Reis se reencontrou com ex-colegas de Titãs para gravar uma das faixas de seu novo disco Foto: Instagram / Reprodução

As mulheres – sua esposa Vânia, Cássia Eller e Marisa Monte – constituem suas maiores fontes de inspiração?
Sim. Conheço a Vânia desde os 15 anos – há quase 40, portanto. Tivemos períodos de separação, mas foi com ela que desenvolvi aquilo que é a matriz do amor. Para mim, a música necessariamente está associada à voz de uma mulher. Tem a ver com minha infância: minha mãe cantava e tocava violão, o que me marcou muito. Necessariamente associo os aspectos musicais ao universo feminino. Com a Cássia, minha relação foi muito intensa, talvez mais do que com a Marisa. Inclusive depois que ela morreu, porque estávamos muito próximos, o que fez com que a morte deixasse uma marca muito forte – e até hoje ela continua sendo a artista que mais gravou composições minhas. E, no fundo, eu sempre quis esse lugar do compositor, do cara que não é a estrela principal. Para mim, a relação mais modelar é a do Caetano com a Gal. Sabe, assim, o cara que compõe, cuja voz se transmuta para outra pessoa... Também tive isso com a Marisa. Fico muito feliz ao ouvi-las cantarem minhas músicas. Quando sou eu cantando, não consigo ouvir direito. Porque tenho de me colocar em outra posição. É muito diferente. No caso das minhas canções, é tão mais confortável ser ouvinte, ficar apreciando...

Nando Reis e Cássia Eller em show no Araújo Vianna, em Porto Alegre, em 2001 Foto: Dulce Helfer / Agencia RBS

No livro Apenas uma Garotinha – A História de Cássia Eller, a relação de vocês é descrita como algo que transcendia as questões físicas. Fala em muita sintonia.
Éramos dois tímidos que, quando estavam juntos, tornavam-se muito falantes. Mas, trabalhando, muitas vezes a gente não precisava falar nada. Entendíamos sem palavras.

Qual a sua ligação com Porto Alegre hoje?
Sempre gostei da cidade, e pelo fato de ter um filho gaúcho ela faz parte da minha história de maneira muito presente. Agora, sabe que nunca compus uma música para uma cidade? Cito o bairro Laranjeiras (do Rio, na música All-Star), mas por uma coincidência cromática: tem a ver com o tênis.

Você tem uma trajetória amplamente reconhecida. Ainda falta algo na sua carreira?
Não tenho metas a cumprir. Mas claro que há coisas que eu penso e que gostaria muito que acontecessem. Uma delas é essa turnê Trinca de Ases, com a Gal e o Gil – que, junto com o Caetano, é o meu mentor e foi meu grande ídolo na adolescência. Era algo que eu queria muito – e que vou fazer. Também posso dizer que se o Roberto Carlos gravasse uma música minha seria incrível...

Você escolheu gravar seus próprios discos. O que o fez sair da indústria?Começou de maneira inesperada: a Universal não quis renovar o contrato comigo, cinco ou seis anos atrás. E, naquele momento, as gravadoras que me fizeram proposta estavam todas interessadas em ter uma fatia do que eu produzisse com show, o que, para mim, é ultrajante. Então falei: "Beleza, vamos sem gravadora ver o que vai ser". Pois nunca mais volto para uma gravadora. Tive trabalhos e relações magníficas nelas, nunca fui vítima de interferência na parte artística, sempre tive liberdade. Mas agora tenho outra liberdade, a de ser proprietário, de fazer o que eu quiser, na hora em que eu quiser e da forma que eu quiser. Nenhuma gravadora, provavelmente, faria o os dois LPs que eu fiz, com os custos envolvidos e com a trabalheira que deu. Eu fiz.

Sua saída da gravadora não foi tranquila, certo?
Foi um absurdo. Fui dispensado. O presidente (da Universal) chegou para mim e falou: "Nós não vamos renovar porque você não vende discos". Eu disse: "Ok, mas eu não fui contratado para vender discos. Fui contrato para fazer música, quem tem de vender disco é você". Como eles querem vender os meus discos se estes não estão em catálogo? Agora eu tenho a minha lojinha, e o que eu vendo é bem expressivo. Com o Jardim-Pomar, o diretor-artístico da Universal queria me levar de volta. Eu disse: "Você está louco! Os meus discos, que são propriedade de vocês, não estão em catálogo. Por que eu voltaria para vocês?".

As músicas da sua época de Titãs continham crítica política e social. Você não sente falta disso?
Não tenho saco. Você acha que vou fazer uma música falando sobre o Temer, sobre o Gilmar Mendes, sobre a Lava-Jato? Não me interessa. Não acho que não se deve fazer. Eu tenho um posicionamento, é isso. Vivi o momento em que vínhamos de uma ditadura, e eu era um adolescente, tinha um outro ímpeto. A minha questão, hoje, é muito mais profunda. Aliás, eu fiz uma música, chamada Multidão, que foi incluída no disco Velocia (álbum do Skank de 2014). Era sintomática, relacionada aos protestos de 2013. E passou batida. Despercebida, simplesmente. É uma música que tem posicionamento, manifestação, atualidade. Não que eu esperasse qualquer coisa. Não espero nada do que eu faço. Mas a minha questão, hoje, é outra.

Show dos Titãs no Planeta Atlântida de 2002 Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

Não tem vontade de escrever sobre Brasília?
Por mim, jogava uma bomba em Brasília. Aquela merda, responsável pela maior alienação e desastre do país. Não sei como podem acreditar naquilo. O desastre que foi mudar a capital e criar essa bolha. Não me interessa nada disso, por que eu vou escrever sobre isso? Eu vou escrever para quem eu amo. Isso sim me interessa.

Você já tem um longo tempo de estrada. Pensa em parar ou diminuir o ritmo?
Eu planejo mudar a minha vida. Eu tô cansado da estrada, tenho cinco filhos, mas amo o que eu faço. Não passa pela minha cabeça fazer outra coisa, eu não sei fazer outra coisa profissionalmente. Eu pretendo diversificar o meu tempo, não ficar tanto tempo na estrada. Mas eu gosto quando vejo o Gil, meu ídolo, na estrada, trabalhando pra caralho. Ele é o meu exemplo.

O que você gostaria de fazer se parasse?
Eu tô de saco cheio da cidade, eu amo São Paulo, mas eu quero fundar o meu próprio país. Eu quero reflorestar, me preocupo demais com a destruição. Quando eu vejo o que estão fazendo, o desmatamento da Amazônia e a destruição da Mata Atlântica. Eu vou fazer a minha parte, sabe? Eu já faço, eu plantei muitas árvores na minha vida. Na própria turnê eu tenho distribuído sementes. Eu achei que isso daria um maior impacto, mas não deu. As pessoas parecem desinteressadas por esse assunto. Eu faço e não vou tentar convencer ninguém a fazer. Você tem que mudar a si próprio. Eu me preocupo muito com o ritmo vertiginoso da destruição. Mas eu não posso impedir isso: "a força da grana que move e destrói as coisas belas". Não há como conter, mas se cada um fizer algo, plantar uma árvore... Sou romântico nesse ponto. Eu sou um otimista, mas sou realista. Eu faço a minha parte.


 
 
 
 
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