Coluna

Pedro Gonzaga: "Que surpresa é toparmos com tesouros da infância em meio ao mundo cinzento"

Colunista fala sobre o passado em texto nostálgico

Por: Pedro Gonzaga
18/07/2017 - 13h04min | Atualizada em 18/07/2017 - 13h05min

Diz-se do tempo de criança
(8 letras)

Conhecida é a sensação de que, ao crescermos, tantas coisas parecem ter deixado de existir. Extintos aqueles bichos filhos da preguiça de os nomearmos: bicho-pau, bicho-folha, bicho-cabeludo. Desaparecidas também as piadas de duplo sentido usando seus nomes. Depois de adultos, abraçamos a crença de que as estrelas deixaram de cair, de que nunca mais crianças comeram reboco, nem foi o sol cruelmente magnificado através de uma lente para tostar serelepes insetos.
Sabemos, embora neguemos: cigarras não sobrevivem a boletos, as brigas na escola tinham a emoção e a inconsequência que as batalhas em surdina contra chefes ou colegas de trabalho jamais poderão ter.
Por isso, que surpresa é toparmos com tesouros da infância em meio ao mundo cinzento.

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Expressão de um sentimento íntimo
(9 letras)

Lá pelos nove anos, viciei-me em cruzadas. Assim piá, já fazia as de nível médio. Quantas tardes na praia, na rede, imerso nas diretas. Depois de um tempo, tinha a impressão de conhecer as pessoas que faziam aquelas páginas, entendia a lógica de usar termos em outras línguas, nomes de longínquos atores, pratos exóticos, geografias de terras remotas. Sem mais reservas, confesso que antes da literatura as cruzadas despertaram em mim o amor pelas palavras, por sua riqueza, por sua variedade. Antes mesmo dos livros, havia um reino que se fazia mais amplo quanto mais ampla fosse sua capacidade de expressão, um reino interior, um reino feito verbo, a tantos sonegado sob o pretexto de que se a língua funciona para se comunicar com os outros ela já é suficiente. E a comunicação consigo mesmo?

Acaso, evento fortuito
(5 letras)

Hoje, para fazer tempo, à espera da namorada, entro numa papelaria e ali há uma grande parede, coberta de revistas de cruzadas. Elas ainda existem. Pego o Desafio Cobrão, não sem uma gota de vaidade. Procuro pelo Torto, um jogo de formar palavras a partir de um quadro de letras. Depois de cinquenta achados, ganhava-se o título de dicionário ambulante. Mas o jogo não está ali. Deve ter sido cancelado. À breve tristeza, logo sobrevém-me uma alegria. Meu título era agora uma dessas coisas extintas, como se de fato nenhuma estrela cadente pudesse voltar a cair.

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