Um Kafka fora dos trilhos

"Glory", premiado filme búlgaro, apresenta uma sátira mordaz às mazelas da corrupção 

Longa dos diretores Kristina Grozeva e Petar Valchanov é uma tragicomédia sobre um honesto trabalhador ferroviário enfrentando um pesadelo burocrático

Por: Carlos André Moreira
14/09/2017 - 15h51min | Atualizada em 14/09/2017 - 15h51min
"Glory", premiado filme búlgaro, apresenta uma sátira mordaz às mazelas da corrupção  PANDORA/Divulgação
Foto: PANDORA / Divulgação  

Não é pouco o que a corrupção política rouba do combalido cidadão comum em países de tradição democrática recente lidando com as precariedades mais básicas.  É por isso que a odisseia amarga vivida pelo protagonista de Glory, filme búlgaro multipremiado que estreia nesta quinta-feira em Porto Alegre, parece estranhamente familiar apesar das diferenças de idioma e cultura que separam o Brasil do país do leste europeu. Embora inspirado por um episódio verídico do noticiário local búlgaro, Glory é, por vezes, de uma familiaridade intolerável de tão incômoda. 

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Glory estreou no ano passado no festival de Locarno, na Suíça, e desde então realizou uma turnê vitoriosa por várias mostras internacionais. Concentra-se na figura do trabalhador ferroviário Tzanko Petrov (Stefan Denolyubov). Homem de hábitos simples e apegado a sua rotina, vive sozinho, cultiva uma longa barba resultado de uma promessa e começa todos os dias ajustando metodicamente o horário de seu confiável relógio com o informado pelo serviço telefônico de hora certa. Depois, sai a percorrer os trilhos dos trens e, com a mesma meticulosidade, procura parafusos frouxos nos dormentes da ferrovia, para apertá-los com sua longa ferramenta. 

Claro que, sendo a Bulgária um país de terceiro mundo (como o Brasil, aliás), essa rotina é desde cedo atribulada por evidências da corrupção endêmica que grassa o país. Ao tomar o café, Petrov vê na TV uma denúncia de superfaturamento de vagões comprados pelo Ministério dos Transportes. A caminho de sua ronda diária, depara com colegas de rede roubando combustível de trens parados. 

É numa dessas jornadas que ele também encontra algo inusitado: uma soma de milhões caídos em sacos em um trecho deserto da ferrovia. Petrov liga para a polícia para informar o achado e dá início, sem saber, a um pesadelo kafkiano que vai lhe custar a dignidade e até o seu precioso relógio.

Uma ambiciosa chefe de gabinete decide usar a história do honesto Petrov como uma cortina de fumaça contra as denúncias de corrupção que assolam o Ministério dos Transportes, e arma uma homenagem a ele com a presença do ministro. O roteiro é também nosso velho conhecido: discursos hipócritas de autoridades ladronas que louvam o gesto de honestidade de um trabalhador que está tendo seus salários parcelados. Julia Staikova, a assessora responsável por armar o circo, confisca temporariamente o relógio de Petrov  para que ele possa receber um novo das mãos do ministro. Mas o presente é uma porcaria que para de funcionar já no dia seguinte, e quando Petrov tenta reaver seu relógio original, vê-se enrolado pela máquina do governo movida por uma Julia que não sabe o que fez com o objeto que havia tirado dele.

O filme é dirigido por Kristina Grozeva e Petar Valchanov, a mesma dupla responsável por A Lição (2015), protagonizado por Margita Gosheva, que volta a trabalhar com os autores na pele da arrogante chefe de gabinete Julia.  Assim como o filme anterior, também multipremiado em festivais mundo afora, Glory também parte de uma notícia verídica de jornal para transformar-se em uma tragicômica alegoria. O centro da produção, contudo, está na interpretação poderosa de Stefan Denolyubov, cujo Petrov está sempre na linha fina e sutil entre o cômico e o patético. A sobriedade da produção e o tom cru e documental adotado pelos diretores criam uma denúncia clara e poderosa a partir de uma sinopse que poderia ser uma manchete de telejornal ou uma comédia rasgada. Talvez houvesse algo para rir no labirinto absurdo em que o pobre Petrov se vê enredado, mas, ao contrário, o que se vê ao longo da projeção é o desdobramento sombrio e metódico do horror que uma burocracia corrupta pode infligir quando sua máquina se movimenta para encobrir seus erros. A Bulgária, como se vê, é logo ali.

GLORY
De Kristina Grozeva e Petar Valchanov
Drama, Bulgária/Grécia, 2016, 101min, 12 anos.
Estreia em Porto Alegre nesta quinta-feira no Espaço Itaú 6 (19h20, 21h40) e no Guion Center 3  (17h30, 19h25)


 
 
 
 
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