Heranças da Copa

O que fica para o Brasil após o Mundial e o que os turistas levam da terra do futebol

Saiba o que os estrangeiros gostariam de levar na bagagem e os exemplos que eles deixam por aqui

24/06/2014 - 21h05min
O que fica para o Brasil após o Mundial e o que os turistas levam da terra do futebol Adriana Franciosi/Agencia RBS
Estrangeiros em peso na Capital: o que podemos aprender com eles? E eles conosco? Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS  

O que os gringos admiram na recepção brasileira:

1 — HOSPITALIDADE

Pegar um turista pela mão e guiá-lo até seu destino, convidá-lo para almoçar, conversar por horas a fio com alguém que acabou de conhecer e revelar detalhes de sua vida são atitudes que um brasileiro seria capaz de fazer por um visitante. Por essa razão, o principal atrativo de Porto Alegre tem sido a gentileza das pessoas. Viajantes que passaram pela Capital, em geral, relatam apreço pela receptividade dos gaúchos. Além de tietar os tipos diferentes, o que se revelou de forma mais intensa na passagem dos sul-coreanos, os gaúchos são aqueles que não poupam esforços para trocar uma ideia, ainda que comecem o papo um pouco desconfiados. Em muitos casos a desconfiança se transforma em amizade rapidamente.


Foto: PMPA, divulgação



2 — FARTURA, PRESENTES, SIMPATIA

Levar bandeiras, chaveiros, camisetas, faixas ou chapéus de recordação dos países que disputam a Copa é um hábito clássico do Mundial que adquire ainda mais valor quando o "recuerdo" é dado, não comprado. Isso impressionou torcedores argentinos como Pablo Soraire, de Tucumán, que foi presenteado com uma manta do Brasil, e Hernán Baptista, que ganhou uma camiseta da Seleção Brasileira. A mesma impressão tiveram jovens que vieram de Mendoza em um ônibus reformado de 1971. Receberam diversos convites para comer churrasco grátis nos piquetes do Acampamento Farroupilha e estão até agora lisonjeados com a fartura de picanha e de simpatia que encontraram na Capital.

— As pessoas nos dão as coisas sem cobrar nada. Essa facilidade de compartilhar é o que mais nos encanta, todos nos dizem "mi casa és su casa"— diz o designer Felipe Berná.


Foto: Ricardo Duarte



3 — COMUNICAÇÃO NÃO-VERBAL

Se a compreensão não ocorre logo de primeira, o jeito é apelar para mímicas e sons. Depois de imitar o latido e os gestos de um cachorro, o dono de uma padaria do centro da cidade conseguiu fazer seu cliente entender que o salgado que ele queria se chamava "perro". Para driblar a falta do domínio do idioma, comerciantes apostam na criatividade e disposição. Nos serviços de segurança e trânsito, os elogios para os agentes da EPTC se sobressaem àqueles aos policiais da Brigada Militar.

— Os agentes de trânsito tentam nos explicar, improvisam um portunhol e sempre ajudam. Os policiais são mais fechados, as vezes até indiferentes — diz o comerciante argentino Gustavo Migrelez.


Foto: Diego Vara



4 — CIDADE LIMPA

Mesmo que o recém-inaugurado Código Municipal de Limpeza Urbana ainda pareça pouco efetivo para a maioria dos porto-alegrenses, há sinais de que seu objetivo de diminuir a sujeira da cidade teve impacto para os estrangeiros. Especialmente os turistas argentinos ficaram impressionados com a limpeza das ruas — a ponto de se constrangerem de jogar papel ou latas no chão. Embora a estética da cidade tenha mais a ver com a eficiência dos garis do DMLU do que com a atitude dos cidadãos, a limpeza foi um dos pontos que os hermanos gostariam de levar como exemplo para a terra de Messi.


Foto: Tadeu Vilani



5 — JEITINHO E SOLUÇÕES

Rarearam as vagas na rede hoteleira de Porto Alegre e, mesmo assim, há argentinos empoleirados em apartamentos alugados, campings, parques, sofás e dentro de carros estacionados pelos arredores da cidade. O fenômeno da invasão azul e branca na Capital ocorre em parte pelo fanatismo dos hinchas, mas também porque aqui no Brasil sempre se dá um jeitinho para fazer caber mais um, como um grande coração de mãe. Uma característica típica do brasileiro, a incansável busca de alternativas para resolver problemas com criatividade ganha a simpatia dos estrangeiros — mesmo que, para isso, tenha que burlar algumas regras (e, neste ponto, alguns turistas se identificam, outros, não).


Foto: Mauro Vieira



O que os brasileiros precisam aprender com os gringos:


1— CANTAR MAIS ALTO

Até o início de junho, pairava no ar a dúvida sobre o engajamento da torcida brasileira nos jogos da seleção: não se sabia se a população iria engrossar o público dos protestos ou vibrar na arquibancada e no sofá. Como de costume, o nacionalismo tomou conta no último minuto e os torcedores entraram, aos poucos, no clima da Copa. O show das torcidas da Holanda, Argélia e Argentina mostram, no entanto, o que é festejar o futebol. O clima na concentração para as partidas, no Caminho do Gol e na festa depois do jogo mostrou que as torcidas fizeram fora de campo o trabalho complementar ao show que suas seleções estão dando dentro de campo.


Foto: Félix Zucco



2 — SUJOU, LIMPOU

Japoneses que recolheram seu próprio lixo após o jogo contra a Grécia, na Arena das Dunas, em Natal, deram um exemplo de que não precisa ser anfitrião para mostrar boa atitude. A ação de um grupo de cinco pessoas repercutiu em todo o país pela simplicidade com que os torcedores encararam a situação. Com um saco plástico em mãos, arrecadaram pedaços de papel, plástico e restos de comida e levaram para fora do estádio, mostrando-se responsáveis pelo destino dos próprios resíduos. Não deixaram para a administração nem para o governo essa tarefa e ainda deram um tapa de luva em quem reclamava da sujeira da capital fluminense na última greve dos garis no Rio de Janeiro, durante o Carnaval.


Foto: Carlos Macedo



3 — FALAR IDIOMAS ESTRANGEIROS

Uma das reclamações dos turistas é que, apesar do empenho para se comunicar com gestos, os brasileiros são desleixados no quesito idiomas. Muitos encontraram dificuldades de comunicação em francês, inglês e espanhol. Albeni Carmo de Oliveira, o locutor da Rádio Parque do Acampamento Farroupilha, garante que muitos desencontros e erros de trajetos seriam evitados se houvesse mais guias bilíngues para atender os gringos. Para melhorar a divulgação do Acampamento Farroupilha, por exemplo, teve que pedir que uma funcionária do Centro de Hospitalidade gravasse uma chamada explicativa sobre o parque em espanhol e inglês. A solução ajudou a esclarecer dúvidas:

—Teve turista achando que isso aqui era uma grande favela, chegaram sem saber do que se tratava e interpretaram tudo errado — lastima Oliveira.


Foto: Jones Silva



4 — PROTESTAR CIVILIZADAMENTE

Os estrangeiros adoram tomar chimarrão e conhecer mais sobre a cultura gaúcha. Mas, para Maria Regina Moura, do Piquete 35 CTG, isso não está acontecendo de forma mais intensa por causa dos protestos que deixaram muita gente assustada e descrente de que a Copa aconteceria em clima pacífico. Maria acredita que muita gente decidiu evitar a região central da cidade por causa dos protestos e discorda que quebrar vidraças seja a forma de pleitear conquistas sociais:

— Sempre lutei pelos meus direitos e conquistei vitórias na base do diálogo, nunca da quebradeira. É uma pena que justo em tempos de Copa algumas pessoas deixem de aproveitar esse movimento lindo da cidade com medo de manifestações — diz a moradora do Morro da Cruz.


Foto: Fernando Gomes



5 — MELHORAR SERVIÇO DE WI-FI

Na partida contra a Coreia do Sul, um grupo de torcedores da Argélia que ficou sem ingresso após ter sido enganado pela agência de turismo de seu país demorou para resolver a situação por falta de comunicação. Barrados pelas equipes da EPTC e da Brigada Militar em uma das ruas transversais à Padre Cacique, próximo à Silveiro, não conseguiam acessar o perímetro Fifa por causa dos bloqueios de segurança. De malas em punho, tampouco conseguiram desenvolver um diálogo com as autoridades policiais por causa da barreira linguística. A solução para ver o jogo foi ir para a fan fest, mas, quando chegaram lá, era tarde e o local estava cheio. O impasse poderia ter sido resolvido se houvesse mais pontos de wi-fi no entorno do estádio. Os poucos pontos existentes funcionam com instabilidade em dias de jogo.


Foto: Luciano Lanes, PMPA, divulgação
 
 
 
 
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