O comando em xeque

Está na hora de trazer um técnico estrangeiro para a Seleção?

Derrotas recentes nos confrontos entre o futebol brasileiro e o europeu provocam questionamentos sobre o uso de estrangeiros no comando de equipes nacionais e da própria Seleção

13/07/2014 | 08h01
Está na hora de trazer um técnico estrangeiro para a Seleção? VANDERLEI ALMEIDA/AFP/AFP
Felipão deve deixar o comando da Seleção após a Copa Foto: VANDERLEI ALMEIDA/AFP / AFP

Você imagina o catalão Pep Guardiola se desdobrando em instruções a Hulk e Fred? Ou o português José Mourinho clamando pela atenção dos laterais da Seleção? Ou o argentino Jorge Sampaoli berrando ordens a brasileiros. Quem sabe o alemão Jürgen Klopp vociferando por disciplina na Granja Comary?

Cenas assim viajam pelo imaginário de alguns após o vexame na Copa. Mas técnicos e jogadores brasileiros repelem a ideia de um gringo no comando da Seleção.

Em janeiro de 2013, desempregado, em viagem sabática pelo mundo, perguntado se gostaria de treinar a Seleção, Guardiola elevou o tom de voz ao responder um “sim” além de uma reação apenas respeitosa.

Foi o bastante para uma legião de técnicos e jogadores brasileiros saírem em defesa do mercado e das “características nossas”. Guardiola presenciou no Mineirão o desastre dos 7 a 1 e saiu de fininho. Até porque, no ano passado, por duas vezes concedeu palestra a especialistas em Buenos Aires. Nenhum convite para vir ao Brasil. Somos autossuficientes.



Quem diz isso é o ex-jogador William Machado, ex-zagueiro do Grêmio e Corinthians. Ele não vê ambiente favorável ao estrangeiro porque o corporativismo dos técnicos nacionais anda de mãos dadas com os dirigentes. O resultado é a ilha em que se transformou o país. Não entra nem sai.

Nos últimos dois anos, 42 treinadores argentinos foram trabalhar na Europa. O mais conhecido deles é o rosariense Tata Martino, técnico na temporada passada no Barcelona.

— Não temos ambição. Nossa experiência é só empírica, não se acrescenta conhecimento com a falta de intercâmbio — diz William.

Os argumentos para a barreira vão desde a dificuldade do idioma à rejeição dos métodos de trabalho. O ex-zagueiro lembra que o uruguaio Jorge Fossati, no Inter, acabou engolido por supostas dificuldades como o espanhol arrastado e o plano de preparação física feito com bola mas puxado, acima do normal.

Neste caso, a resistência foi dos jogadores. Se ao menos os treinadores brasileiros buscassem especialização no Exterior haveria enfim uma troca de experiências.

— A CBF poderia pensar menos no lucro e investir forte na formação de conhecimento. Não se vê profissionais brasileiros com certificados para trabalhar fora. Isso explica porque não saímos de casa — afirma William.

Mais enfático do que o ex-zagueiro, Juninho Pernambucano lembra que Cuca poderia estar no comando de um clube europeu, mas seu destino foi a China.

— Os brasileiros não querem aprender — fustiga o ex-meia do Vasco, 39 anos (veja entrevista abaixo).

Há quem discorde de estrangeiros

O técnico Valdir Espinosa foi lembrado por Alejandro Sabella, no dia em que a Argentina passou pela Holanda. Sabella citou antigas instruções de Espinosa, então técnico do Grêmio de 1986. Basicamente era pela ocupação de espaços com gente adequada. No Rio, Espinosa não vê prioridade na importação de técnico estrangeiro.

— Vai trazer novidade? O que ele inventaria além do 4-2-3-1? Se estamos devendo, é culpa de todos — diz Espinosa, que considera fraco o debate em torno do futebol, sem discutir proposta por proposta.

Sebastião Lazaroni, o técnico da Copa de 90, eliminado nas oitavas pela Argentina de Maradona e Carlos Bilardo, sabe bem por que está passando Felipão. Mas ele critica mais a organização brasileira do que os colegas profissionais.

— Técnico estrangeiro? Tudo é possível. Daqui a pouco vão trazer jogadores, médicos, jornalistas — ironiza Lazaroni.

Sua verve é dirigida à falta de estrutura. Lembra que os alemães providenciaram centros de excelências no início dos anos 2000, importaram qualidade e investiram no conhecimento dos técnicos.

— A minha opinião é sempre por nomes como Tite, Muricy Ramalho, Osvaldo de Oliveira, Vanderlei Luxemburgo — afirma.

"Brasileiros não querem aprender"
Juninho Pernambucano, ex-jogador e comentarista esportivo

Até o ano passado, aos 38 anos, Juninho jogava no Vasco, batia faltas na "gaveta", comandava o time com craqueza rara, mas não resistiu à troca de técnicos, estruturas precárias e falta de organização. Deixou o futebol após 23 anos de carreira, com dois títulos nacionais, uma Libertadores, sete campeonatos franceses e uma Copa da França, pelo Lyon.

Foi durante o período de 10 anos no clube francês que ele "abriu a cabeça" e entendeu o atraso do futebol brasileiro. Hoje comentarista esportivo, estarrecido com a derrocada da Seleção na Copa, ele defende com veemência a importação de técnico estrangeiro porque, em geral, "nós não queremos aprender".

Você é a favor do técnico estrangeiro na Seleção e no futebol brasileiro?

Sou completamente a favor. É preciso abrir o mercado. Não importamos jogadores argentinos, uruguaios, chilenos nos clubes? Havia necessidade, e buscamos os talentos. Por que não trazer técnicos? Chega desse clube fechado, temos de adotar o merecimento. Sugeri no Vasco a contratação do Jorge Sampaoli, quando ele estava no Universidad de Chile e ganhava menos de US$ 30 mil por mês. Agora está aí na seleção chilena.

Não há possibilidade de boicote?

Corremos o risco, sim. E nisso o ambiente do futebol contribui, de técnicos, jogadores a gente de imprensa. Teria acontecido assim com o argentino Passarella no Corinthians, não é?

Você cresceu como profissional quando jogou na Europa?

Só abri a minha cabeça quando saí do Brasil. Entendi que não podemos mais nos esconder nas cinco estrelas de Pelé, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Romário. A gente parou no tempo. Grande parte da culpa é dos técnicos. Falta autocrítica e há excesso de confiança. Usam a desculpa que trabalham três jogos e são demitidos, que o resultado tem de ser imediato. Assim eles pegam três clubes por ano, se tornam os profissionais mais bem pagos do país e se fecham num grupo restrito. O Felipão treinou o Chelsea com 23 craques e saiu de lá criticando jogadores. Os brasileiros não querem aprender.

Qual a diferença?

Eu joguei nove temporadas na Europa. Foram oito Liga dos Campeões. Disputei tudo e assistia a tudo. Lá se trabalha por grupo de 23 jogadores, no máximo 25 — e nunca os 30, 35 como no Brasil. O Vasco em 2013 usou 35 a 36 jogadores. Também não existe a cultura do titular, com os reservas esperando a vez atrás do campo. É claro que todo o time tem sua base. Quando eles entram na Liga dos Campeões, a rotação está feita, os clubes sabem a quem recorrer. Outra: jogador tem de ser versátil. Essa é a principal dificuldade de adaptação do brasileiro. Claro, com um Messi, Cristiano Ronaldo, caras de 40, 50 gols por ano, isso não vale. Mas, em geral, é preciso cumprir várias funções em campo.

E a ideia de abrir centros de treinamentos no país e incentivar o intercâmbio de técnicos brasileiros no Exterior?

Boa ideia, mas quero ver. Passada a Copa do Mundo, nenhum clube do Rio sai com centro de treinamento e estádio. Saí do Vasco em 2001 e fui para o Exterior. Quando voltei, 10 anos depois, em 2011, eu com 36 anos, tive de treinar atrás da goleira porque tinha de preservar o gramado do São Januário, que já estava castigado. Isso não existe. Sobre o intercâmbio, os técnicos tinham de se relacionar melhor com os estrangeiros, buscar novas práticas diárias.

Você coloca todos os técnicos brasileiros na mesma situação?

Não. Por favor, não generalizo. Respeito quem se dedica. Há gente com boa cabeça, que usa variações, como Tite, Osvaldo de Oliveira, Abel Braga. Sou contra a gente com cadeira cativa na Seleção. Olhem o Parreira: ganhou em 1994 e ainda está aí com ideias antigas. O Sampaoli trouxe para a Copa a seleção chilena Sub-20 para treinar com o time principal. O que acham da ideia? O Cuca fez um belo trabalho e foi parar na China. Ele não podia estar na Europa?

Alguns dos técnicos estrangeiros que já trabalharam no Brasil

Bela Guttman, da Hungria

Havia sido bicampeão europeu pelo Benfica e treinado o Honvéd, da Hungria, time de Puskas. Trouxe para o São Paulo inovações que acabaram sendo adotadas na Seleção Brasileira na Copa de 1958, na Suécia, a do primeiro título Mundial.

Fleitas Solich, paraguaio vindo da Argentina

Chegou nos anos 50 ao Flamengo, passou uma temporada no Real Madrid e voltou ao Brasil até 1971, passando de novo por Flamengo, Fluminense, Corinthians, Atlético-MG, Palmeiras e Bahia.

Filpo Nuñez, da Argentina

Praticamente teve toda a carreira de técnico em uma dúzia de clubes do Brasil, dos anos 1950 aos 1980.

Daniel Passarella, da Argentina

Chegou ao Corinthians em 2005. Ganhou sete, empatou quatro e perdeu quatro, entre eles, uma derrota de goleada de 5 a 1 para o São Paulo. Foi o que bastou para ser demitido.

Lothar Matthäus, da Alemanha

Trabalhou no Atlético-PR em apenas oito jogos, em 2006. Obteve seis vitórias e dois empates. Voltou para a Alemanha de uma hora para a outra. Nem sequer se despediu da torcida.

Jorge Fossati, do Uruguai

Havia conquistado a Sul-Americana pela LDU, de Quito, em 2009, antes de chegar ao Inter de 2010. Levou o time às quartas de final da Libertadores mas foi substituído por Celso Roth.

 
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