Na Serra

Imagem da cidade preocupa moradores de Bento Gonçalves após polêmica de racismo

Haitiano negro que mora na cidade conta como se relaciona com a população local

12/03/2014 | 21h18
Imagem da cidade preocupa moradores de Bento Gonçalves após polêmica de racismo Felix Zucco/Agencia RBS
Manasse Marotiere é um dos 900 haitianos que vivem em Bento Gonçalves Foto: Felix Zucco / Agencia RBS

- Estão punindo a cidade inteira. Não somos racistas - protesta o prefeito Guilherme Pasin ao resumir o constrangimento que assola Bento Gonçalves.

Desde que o árbitro Márcio Chagas foi insultado por torcedores do Esportivo - e encontrou seu Peugeot amassado e riscado, com bananas sobre a lataria -, a cidade da Serra enfrenta um julgamento informal.

- Esses dias, na TV, um apresentador disse que, se fosse negro, não compraria mais vinho de Bento - conta o prefeito. - Me parece um preconceito tão grande quanto o daquele pequeno grupo que agrediu o árbitro.

Pasin segue o mesmo discurso apregoado por outros líderes do município: Bento Gonçalves é uma cidade turística, habituada a acolher quem quer que seja - e 50% de seus moradores nasceram longe dali.

- A gente se sente envergonhado, porque a hospitalidade é nossa marca. Não dá para negar que a imagem, no momento, é negativa - reconhece o empresário Henrique Tecchio, presidente da Movelsul, feira do setor moveleiro que deverá atrair 38 mil visitantes a Bento Gonçalves a partir do dia 24.

Assim como Tecchio e o prefeito Pasin, o pároco da Igreja Santo Antônio, padre Izidoro Bigolin, afirma que os 900 haitianos hoje instalados na cidade foram bem recebidos pela população. Formado exclusivamente por negros, o grupo desembarcou na Serra após o terremoto que devastou o país caribenho em 2010, em busca da ampla oferta de empregos na indústria da região.

Manasse Marotiere, 28 anos, é um dos haitianos de Bento. Foi buscado no Acre em 2012, quando uma empresa de pavimentação procurava mão de obra no Norte.

- Adoro a cidade, mas no início foi um pouco difícil. Havia gente que atravessava a rua quando me via - recorda Manasse, para logo ponderar. - Preconceito existe em todos os países, inclusive no Haiti. Agora, que falo bem português, que todo mundo me conhece, nunca mais sofri com isso.

Dono de uma agência de turismo na cidade, o presidente do Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves, Leonardo Giordani, não acredita em prejuízo econômico, embora concorde que a imagem da cidade foi arranhada:

- De nossa parte, nos resta fazer um pedido público de perdão ao árbitro Márcio Chagas. E vamos mostrar para o Brasil que aquele pequeno grupo não representa Bento Gonçalves.

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