Os goleiros da decisão

A hora da verdade para o persistente Matheus Cavichioli

Goleiro brilhou com duas defesas de pênaltis na semifinal contra o Grêmio 

Por: Leonardo Oliveira
28/04/2017 - 20h05min | Atualizada em 28/04/2017 - 20h47min

O Novo Hamburgo não joga com um goleiro. Mas com dois. Porque Matheus Cavichioli, 30 anos, nunca está sozinho. Como ele mesmo contou depois de defender dois pênaltis do Grêmio e colocar o Novo Hamburgo na final, ao seu lado sempre percebe a presença do irmão, Rodrigo.

Há dois anos, Rodrigo voltava para casa em Itapema, no litoral catarinense, depois de uma jornada de trabalho numa pizzaria. Como sempre, usava o skate longboard para seus deslocamentos. Ninguém sabe até hoje o que houve. O fato foi que Rodrigo caiu para trás — o que é incomum no longão, como é chamado esse tipo de skate -, bateu a nuca e morreu quase que instantaneamente.

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Rodrigo tinha 20 anos, era o caçula e o único irmão de Matheus. A notícia, como quase sempre acontece nesses momentos duros, veio de madrugada. O goleiro estava em Farroupilha, onde defendia o Brasil-Far, quando recebeu o telefonema de um tio, com quem o irmão morava. Foi duro. Mas piorou quando Matheus precisou avisar os pais, no interior de Lages, na serra catarinense.

— É contra a lei da vida o mais velho enterrar o mais novo. Mas, só da possibilidade de falar dele. já me anima, muda o meu humor. Cara, tu não vais acreditar. Eu sinto muito a presença do meu irmão - conta Matheus.

Peço para que explique quando e como isso acontece. Ele não se furta e abre um sorriso, numa amostra de que falar do caçula, sim, o anima:

— No carro, muitas vezes, me pego conversando com ele. Quem está do lado deve pensar que eu estou louco. Nos jogos, sinto-o ali, próximo de mim. Parece coisa de louco. Se bem que goleiro é um pouco louco mesmo (risos).

Matheus é um sujeito de alto astral. Na quarta-feira, quando foram feitas as fotos para esta reportagem, ele chegou ao Estádio do Vale e alterou o ambiente. Com sua voz tonitruante, provocou a assessora de imprensa Elenise Martins.

— Conhece o Oompa Loompas, da Fantástica Fábrica de Chocolates? Temos o nosso aqui no Noia - cutucou.

— Ele é sempre assim, brincalhão, agita o ambiente - diz Elenise depois de simular irritação com a brincadeira.

Matheus só fica sério quando menciona que não houve tempo do irmão vê-lo jogar. Na verdade, faltou tempo até mesmo para que convivessem juntos. O goleiro saiu de casa aos 13 anos e não deixou mais a estrada. A primeira parada foi no Inter. Um professor de educação física de Itapema fez amizade com Mano Menezes, na época técnico dos juvenis do Inter, em um torneio em Imbituba. Esse professor ficou de levar ao novo amigo dois guris que cairiam como uma luva em seu time. Só que desembarcou no Beira-Rio com três. Os dois juvenis e Matheus, na época com 13 anos.

Como o time sub-13 estava em um torneio, Matheus ficou em testes com os juvenis. Rogério Maia, medalha de ouro com Weverton na Rio 2016, era quem cuidava dos goleiros do time de Mano. Viu no guri desengonçado e com 1m83cm potencial a ser explorado.

— Gostava muito de observar goleiros, achei-o grande, com o estilo do Danrlei, corajoso, rápido. Mas era totalmente descordenado, não sabia entrar na bola, cair. Mas era forte, rápido e tinha tamanho — recorda Maia.

Em um dos primeiros treinos com os juvenis, Mano ordenou que Matheus batesse um tiro de meta. A bola mal ultrapassou a linha da área. O técnico caminhou até o goleiro, parou ao seu lado e, baixinho, travou um diálogo rápido:

— Não tem força, não é?

— Não, professor.

— Mas um dia você terá.

O treino seguiu. E a vida também. Matheus acabou dispensado do Inter e, com 15 anos, parou no Olímpico. Fez parte de uma geração que tinha Léo, Adílson, Everton Costa, Carlos Eduardo, Itaqui e Felipe Mattioni, entre outros. Em 2006, já no profissional, reencontrou Mano, então técnico do Grêmio e consagrado pela Batalha dos Aflitos.

A cena se repetiu. Mano mandou que cobrasse o tiro de meta. Quando a bola aterrissou quase na área oposta, ele trilou o apito. Caminhou do meio-campo até a área, parou do lado do goleiro e, baixinho, disse:

— Não te disse que um dia teria força?

Matheus não acreditou. Depois de seis anos, o técnico ainda se lembrava do episódio com um guri em testes no Beira-Rio. No Grêmio, o goleiro foi campeão gaúcho de 2006. Dividiu treinos com Grohe, Gallato e Victor. Mas só jogava um, e esse um dificilmente seria ele. Passou alguns meses no Figueirense e voltou. Foi quando Júlio Soster, ex-diretor da base gremista, assumiu o Caxias e levou-o junto. Na Serra, reencontrou também Maia, seu primeiro treinador de goleiros.

Mas o Caxias havia buscado também Muriel no Inter, e Matheus outra vez teve de esperar. Aceitou a sugestão de Maia e saiu para jogar o Paulistão pelo São José. Voltou ao Centenário e começou a rodar: Novo Hamburgo, Sport, Lajeadense, Pelotas, Veranópolis, Brasil-Far e Passo Fundo. Em abril do ano passado, voltou ao Estádio do Vale. O que considera ser sua casa. Há alguns anos, se casou e fixou residência em Dois Irmãos. A filha, de um ano e meio, nasceu na cidade. O bom momento no Novo Hamburgo só ajuda a fixar ainda mais as raízes.

Depois dos pênaltis de domingo, Matheus virou celebridade na região. Torcedores pedem fotos e autógrafos. Moradores mandam mensagens positivas. Foram 10 anos esperando pela afirmação. Ela veio aos 30, idade que alguns especialistas apontam como o auge de um goleiro.

Os pênaltis de domingo selaram o melhor ano de sua vida. Mas não vieram à toa. Os treinos puxados do preparador Marcelo Rhoden e os vídeos destrinchados pelo analista de desempenho Guilherme Redecker são apontados por ele como decisivos.

— O Guilherme manda por WhatsApp vídeos editados dos adversários com cobranças de faltas, pênaltis, cruzamentos para a área. Contra o Grêmio, havia 12 minutos de lances. O trabalho dele é sensacional - elogia.

Eram alguns desses vídeos que Matheus assistia no celular de Rhoden no último domingo antes de se iniciarem as cobranças. Eles só não haviam estudado a batida de Lincoln. Nem imaginavam que Renato fosse colocar o guri para bater. Nesse caso, valeu a intuição e também os macetes aprendidos em 10 anos de estrada para induzir o cobrador. Além, é claro, da força divina que ele garante receber. Afinal, Matheus nunca está sozinho. Ao seu lado, está irmão, parceiro de todas as horas.

Modelo?

Matheus Cavichiolli já viveu seus dias de modelo fotográfico. Foi em 2010, no São José-SP, numa campanha em que a Calvin Klein estava envolvida. A incursão no mundo da moda ficou apenas nas fotos. Mas para sempre. Tanto que, ao fazer uma busca no Google, são elas que aparecem, e não um Matheus de luvas e chuteiras. Um ano antes, ele já havia ganho o prêmio de muso do Gauchão, numa promoção lançada pelo extinto TVCOM Esportes. Nesta semana, o Globo Esporte, da RBS TV, resgatou as fotos numa reportagem. É claro que não passou batido no vestiário do Estádio do Vale.

— O Matheus como modelo não dá — reagiu um companheiro.

— Foi a tua mãe que fez aquelas fotos? — divertiu-se outro.

Matheus garante que os dias de modelo ficaram lá no interior paulista. Ainda mais agora que chegou ao primeiro time dos goleiros gaúchos. Depois do Gauchão, seu destino deve ser um time das Séries A ou B. 

*ZHESPORTES

 
 
 
 
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