Incontrolável

Pará não para, não para, não para não

Jogador do Grêmio está cheio de energia em busca de títulos

22/09/2012 | 10h01
Pará não para, não para, não para não Mateus Bruxel/Agencia RBS
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Pará tomou pouco chá de camomila. A recomendação da mãe Jaidê passou despercebida. Pará é elétrico e não esconde. Mas foi essa agitação desenfreada que abriu caminho para o garoto de São João do Araguaia, cidade do Pará distante mais de 700km da capital, Belém, atravessar as trincheiras da vida e tornar-se um dos homens de confiança do técnico Luxemburgo.

- Minha mãe sempre falava: "Você não para quieto, filho. O que você tem? Precisa de um chá?" Sou assim mesmo, se fico 15 minutos sentado num lugar, fico louco, quero sair, andar. Levo isso para dentro de campo - conta.

Quando criança, o inquieto Marcos Rogério Ricci Lopes - nome de batismo - já manifestava a paixão pelo futebol. Chutava "tudo", como ele mesmo brinca. Romário era o ídolo e, assim como o astro da Copa do Mundo de 1994, queria ser atacante.

De família humilde - o pai, pedreiro, e a mãe, dona de casa, sustentam mais três irmãos -, Pará passava longe das escolinhas de futebol de alto nível da cidade. Até que um dia, Ronildo Borges, técnico de uma escolinha local, levou Pará, com 16 anos à época, para treinar com ele. Era volante.

- Fiquei uma semana com eles. Até que o treinador disse: "Vou preparar você para ir para São Paulo, topa?". E eu disse: "É complicado, as notícias que rolam dos grandes centros são de tragédia" - lembra.

Pará tomou coragem e foi buscar ajuda financeira de empresários da região. Em poucos dias, estava em um ônibus rumo à maior metrópole do país. Foi morar numa pensão na Zona Sul da cidade, próxima à escolinha Barcelona, que o acolheu. De cara, ganhou o apelido "Pará".

"Parece que Deus colocou a mão na minha cabeça e falou: 'Hoje é o seu dia'"

Até mesmo o elétrico Pará assustou-se com o ritmo da cidade grande. Quase desistiu por saudade de casa e da família.

- Me pediram para aguentar mais 15 dias, que haveria um quadrangular, com o meu time, o Santo André, a Portuguesa e o Taboão da Serra. Comecei a treinar que nem um maluco, um cavalo, corria para lá e para cá, sozinho, de manhã cedo. Era magrelinho...

O magrelinho destruiu na partida contra o Santo André:

- Parece que Deus colocou a mão na minha cabeça e falou: "Hoje é o seu dia". Acabou o jogo, a gente ganhou de 2 a 1, e eu arrebentei, de volante.

A direção do Santo André encantou-se pelo moleque, mas havia um problema: eles precisavam mesmo era de um lateraldireito:

- O presidente da minha escolinha disse: "Pará, eles gostaram de você, mas volante eles já têm, estão precisando de um lateral-direito, disse que você joga muito nessa posição. Tem coragem?" E eu disse: "Rapaz, deixa comigo, vamos que vamos para cima dos 'homi'".

Pará chegou no Santo André em 2003. Não demorou para deslanchar. Em um amistoso contra o Paulista de Jundiaí, que seria o seu teste, cruzou três vezes a bola na cabeça do centroavante, e o time venceu por 3 a 1. O desempenho rendeu frutos: contrato assinado por cinco anos.

Em 2008, depois de ganhar a Copa do Brasil e o Paulista da Série A2, recebeu o convite para atuar no Santos. No Peixe, foi um dos Meninos da Vila (da segunda safra), ao lado de Neymar e Ganso, ganhando dois Paulistões, uma Copa do Brasil e uma Libertadores.

Em Santos, quando não tinha nada para fazer, ia correr na praia para descarregar as energias.

"Sou o que mais anima. Sempre fico tentando levantar o astral de todo mundo"

O jeitão aloprado ele trouxe para Porto Alegre, onde começou a treinar antes mesmo de ser apresentado, em fevereiro - seu contrato de empréstimo vai até dezembro. No vestiário, assim como na entrevista exclusiva para o DG, fala pelos cotovelos.

- Sou o que mais anima. Sempre fico tentando levantar o astral. No campo, quando entro para treinar, brinco com um, dou peteleco em outro.

Não é à toa que Luxa o define como o mais regular do time. Versátil - não se importa de jogar no meio, na esquerda ou na direita -, é daqueles que se doa:

- Não sei entrar meia boca, entro focado, correndo para todo o lado. Se vejo uma coisa que não está certa no outro lado, quero ir lá, estar no bolo para resolver.

Seu maior sonho é levantar o caneco do Brasileirão 2012. Na vida de Pará, em que tudo acontece a 220km/h, é possível. É só  não darem chá de camomila para ele.

As histórias do boleiro

Em 2003, depois do amistoso com o Paulista de Jundiaí, Pará assinou contrato de cinco anos com o Santo André e passou a receber uma ajuda de custo de R$ 70!

- Na hora eu falei: "Tô rico" (risos)! Liguei para a minha mãe para contar, e ela disse que estava ótimo - comenta.

Depois de se destacar no Paulistão pela equipe juvenil, a direção aumentou para R$ 300.

- Aí ficou top! - brinca.

O católico

A fé acompanha Pará desde sempre e está marcada no corpo em forma de tatuagem. Quando estava no Santo André, ia na missa todos os domingos. No alojamento, à noite, recorria à reza antes de um jogo difícil, como no amistoso diante do Paulista de Jundiaí.

- Deitei na caminha e fiquei pedindo a Deus para dar tudo certo no outro dia - conta.

E deu.

O falante

Dia desses, Vanderlei Luxemburgo conversava com os repórteres durante um treino de manhã. Papo vai, papo vem, e o treinador interrompeu para fazer uma observação, apontando para o gramado suplementar:

- Olhem lá o Pará, não cala a boca, impressionante!

O vigilante

Por falta de dinheiro, Pará precisou sair da pensão onde morava logo que chegou a São Paulo. Passou a dormir na escolinha Barcelona, em uma guarita.

- Não tinha lugar para ficar direito, não havia alojamento. Revezava com o cara da guarita. Compraram uma bicama pra mim. De  dia, o vigilante ficava lá, à noite ele fazia ronda na escola, e eu tomava o posto, ia dormir. Foi uma fase bem complicada.

Palavra de quem entende

"Ele é um elemento fundamental no grupo, tem uma facilidade de aproximar os companheiros, é camarada, brinca. Está sempre do lado do bom sentimento. Quando não se tem um cara assim, há o desentendimento. É muito bom conviver com ele. Um time não precisa só de grandes jogadores. Ele é agregador. No campo, é um espoleta. O Pará não para (risos)! Quando chegou, parecia que já era o dono do time, bem entrosado. É prestativo, respeitador, importantíssimo na parte tática também."

Preparador físico Antônio Mello

Saiba mais

Nome - Marcos Rogério Ricci Lopes

Idade - 26 anos

Clubes - Santo André (2004), Santos (2008) e Grêmio (2012)

Títulos - Copa do Brasil (2004 e 2010), Campeonato Paulista Série A2 (2008), Campeonato Paulista (2010 e 2011) e Libertadores (2011)

VEJA TAMBÉM

     
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.