Refleti muito antes de escrever estas linhas, provavelmente contaminado pela rude época que nos coube viver. Mas, enfim, não cedi ao conceito pobre de que pensar diferente vai além do debate de ideias. E faço contraponto a aspectos de artigo escrito neste mesmo espaço pelo meu amigo e colega Jones Lopes da Silva.
No artigo "Lupi, o futebol e o Grêmio" (26/3), do Jones, a paixão de Lupicínio Rodrigues pelo Tricolor restou sobrepujada por mitos perpetuados na poeira da história do futebol gaúcho. Sou autor do livro "Coligay - Tricolor e de todas as cores". O Jones, de "No último minuto - a biografia de Escurinho".
No artigo, meu amigo abordou uma terceira obra, o recém-lançado Almanaque do Lupi, de Marcello Campos, que traz coluna escrita por Lupicínio em 1963, na Última Hora, contando o porquê de "ser torcedor tão fanático do Grêmio".
Essa coluna já havia sido recuperada, na íntegra, em "Coligay..." (capítulo 4). Mostra que, entre as motivações de Lupi, estão as de ele ser negro e de o Inter ter barrado, do torneio local, a agremiação presidida pelo seu pai, que participaria então da Liga da Canela Preta - disputada por negros.
Lupi compôs o hino do Grêmio, o "até a pé nós iremos", como tributo apaixonado ao Tricolor. E, quando define o Inter como "clube do povo", o faz de forma mordaz, dizendo que é "chamado como" e pondo "do povo" entre aspas.
O Grêmio, de origem elitista como o Inter, popularizou-se, sendo também "do povo". Mas tal expressão foi adotada pelo Inter como eficiente peça de marketing quando, nos anos 1930, acossado pela crise, passou a admitir negros, de salários mais baixos. O Grêmio mantinha triagem socioeconômica mais rigorosa. Em 1952, oficializou: era aberto a todas as cores.
Tenho, porém, o primeiro estatuto. Nada diz sobre rejeitar negros. Restrições havia em toda a sociedade, inclusive no Inter. Respingos do triste sistema escravocrata brasileiro se ouvem quando o goleiro Aranha é vítima de ofensas raciais na Arena ou quando a mãe do zagueiro Paulão sofre o mesmo xingamento no Beira-Rio, entre outros casos.
Faço um desagravo ao Grêmio, o que torna inevitável citar o rival. Enquanto houver hipocrisia, o racismo vai se manter disseminado.
Foi no Grêmio que jogou, entre 1925 e 1935, Adão Lima, o primeiro atleta negro da dupla Gre-Nal. Sim, no Grêmio! Isso também está em Coligay - tricolor e de todas as cores, um livro sobre diversidade e aceitação de diferenças.
PS: Fábio Koff segurou a chave do Olímpico, possibilitou que a gestão da Arena seja comprada e salvou o futuro do Grêmio. Obrigado, doutor Fábio!
De Fora da Área
Leo Gerchmann: Lupi, o Grêmio e os mitos
O primeiro estatuto do Grêmio nada diz sobre rejeitar negros
Léo Gerchmann
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