Olhar de Falcão

Falcão quebra o silêncio: "Quando estive em Porto Alegre, pela Copa do Brasil, todos vieram falar comigo"

Ex-treinador do Colorado fala a Zero Hora sobre a vida na Bahia, o Inter e as visões sobre o futebol europeu e brasileiro

Falcão quebra o silêncio: "Quando estive em Porto Alegre, pela Copa do Brasil, todos vieram falar comigo" Diego Vara/Agencia RBS
"Para mim, o que aconteceu no clube (a demissão do Inter, em julho do ano passado) foi inesperado. Essa é a palavra. Já falei demais nesse assunto" Foto: Diego Vara / Agencia RBS

Falcão resolveu falar.

O mesmo Paulo Roberto que saiu demitido do Inter em julho do ano passado em meio a uma dilacerante relação com a presidência do clube ao fim de escassos três meses de trabalho em sua volta à função de técnico de futebol, tomado pelo choro na despedida e sentindo-se injustiçado. Pois esse Falcão passou um bom tempo ferido com a mágoa que o fez se fechar para entrevistas. Não queria tocar no assunto Inter, evitava principalmente a imprensa de Porto Alegre, que, segundo ele, não analisou de forma correta a polêmica de sua demissão, após oito vitórias, cinco empates e seis derrotas. Nesta semana, ficou impossível contornar o assunto, já que o Bahia treinado por ele enfrenta justamente o Inter neste domingo, no Pituaçu.

Na manhã de sexta-feira, Falcão assistia na TV ao tênis do sérvio Djokovic no torneio de Wimbledon – o tênis ele não perde – quando atendeu a ZH pelo telefone. Estava em sua casa em um condomínio fechado na praia de Busca Vida, em Camaçari, a 50 metros do mar e a seis quilômetros do aeroporto. Quando lhe sobra tempo, caminha pelas areias quentes e raramente vai ao centro de Salvador, embora considere o Pelourinho a "alma do brasileiro".

À noite, Falcão tem trabalhado em um novo livro, ainda sem título. Tem ligado para seus antigos colegas que jogaram a Copa da Espanha, em 1982, e participaram de um dos times mais brilhantes da história, embora tenha perdido o Mundial. A ideia gira em torno do "time que perdeu a Copa e ganhou o mundo".

Confira o que ele diz:

Zero Hora – Você caminha na praia, tem aproveitado Salvador?

Paulo Roberto Falcão – Tento caminhar, mas, às vezes, não dá. O futebol exige muito, não é só o jogo, só o treino. O treinador leva o campo com ele onde for, na cabeça. E Salvador tem muito trânsito. Optei por morar perto de onde a gente treina (no Fazendão). Dá uns 20 minutos. Vou pouco a Salvador, eventualmente a algum restaurante. Gostaria de morar em Salvador porque gosto muito. As pessoas parecem que estão sempre de bem com a vida. Acho o Pelourinho uma coisa que tem tudo a ver com o Brasil.

ZH – Em que praia você mora?

Falcão – É em um condomínio na praia Busca Vida, em Camaçari.

ZH – Busca Vida? É um nome bem apropriado.

Falcão – É, a minha vida já achei. Busquei lá atrás, em abril do ano passado, quando eu fui para o Inter. Foi uma decisão bem pensada, a família mora aí. Meu projeto era cumprir contrato, terminaria em dezembro deste ano. Mas aí tive de redirecionar a minha vida. Para continuar na profissão, teria de ficar fora de Porto Alegre, e isso não foi simples. Quando saí do Beira-Rio, tive convites, mas era para apagar incêndio, em final de campeonato. Não aceitei, viajei para a Europa e conversei com outros profissionais.

ZH – Qual o sentimento para este reencontro com o Inter?

Falcão – Não sei, não é coisa que eu tenha pensado muito. Vez em quando recebo torpedos de parabéns e abraços de jogadores. Isso é o que fica da relação. Quando estive em Porto Alegre, pela Copa do Brasil, todos vieram falar comigo, inclusive o Dorival, de quem eu gosto muito. Na minha época, nos vestiários, havia muito respeito, sempre com hierarquia. Eram treinamentos bons, alegres, e os resultados apareciam. Quer dizer, não era só o respeito ao Falcão, era pela qualidade do trabalho. É o que marca a relação.

ZH – Considera que o ciclo no Inter terminou? Guarda mágoa?

Falcão – Para mim, o que aconteceu no clube foi inesperado. Essa é a palavra. Já falei demais nesse assunto. Mas, por exemplo, as pessoas que lidaram com o fato, com a demissão, com objetividade, e não com passionalidade, sabem como aconteceu e por que aconteceu. E essas pessoas eu acho que têm de ser ouvidas e escutadas. Eu já falei demais.

ZH – Mas, vejamos: o Oscar, por exemplo, estava começando durante o seu período.

Falcão – Vou revelar uma coisa: o dia em que fui demitido, recebi um torpedo do Oscar. Ele ia para a Seleção, no Rio. Dizia: "Pô, eu fiquei sabendo, é verdade?". Foi uma surpresa geral, inclusive para ele. O Oscar é um guri fantástico, porque ele quer aprender. Ele disse: "Professor, o que o senhor acha que eu tenho que fazer pra melhorar?" Sentamos e conversamos. Como ele não tinha um físico avantajado, recomendei que trabalhasse o drible um pouco mais longe do adversário. Também trabalhamos a batida na bola. Ele também aprendeu a marcar, para liberar mais o D'Alessandro de tanta responsabilidade (em marcar). Então, é o respeito ao trabalho. Ali Oscar estava falando com o treinador dele, não apenas com o meu passado como jogador.

ZH – Como é a estrutura do Bahia para enfrentar o Brasileirão?

Falcão – O objetivo é deixar de ver as dificuldades. Às vezes, falta força política. No Brasileirão do ano passado, foi a segunda melhor torcida do país, e olha que se salvou nas últimas rodadas. Agora, tem dois campos de treino, mais campos das categorias de base. E o clube está preparando um centro de treinamento para ser construído daqui a uns dois anos. O Bahia tem condições de trabalho, sim.

ZH – E como está o seu trabalho?

Falcão – Eu não trabalho mais do que uma hora e meia, o tempo de jogo. A ideia é sempre trabalhar 20 minutos intensos, três minutos de água, e vamos de novo. Assim se consegue um rendimento que deixa o jogador focado. Para que treinar em dois turnos quando não há necessidade, principalmente com muito calor?

ZH – Como está o Zé Roberto (o que jogou no Inter)?

Falcão – Está fininho, dedicando-se. Vamos ver se ele consegue recuperar aquele futebol que ele teve aí.

ZH – Como você vê o Inter?

Falcão – O Inter tem muita força. Time se faz com uma série de coisas que faz com que você tenha um time em condições de ganhar que é bom cobrador de falta, boa bola aérea, jogadores com individualidade, e o Internacional tem, sim, condições de pleitear uma posição de chegar lá em cima nas cabeças no final do campeonato.

ZH – A cobrança é como no Rio Grande do Sul?

Falcão – É forte também. Principalmente no campo, na hora do jogo. Tem a cobrança no jogador, toda torcida tem seu jogador preferido, como é no Inter, no Grêmio, no Flamengo.

ZH – Depois do título no Bahia no Campeonato Baiano, em maio deste ano, surgiram propostas?

Falcão – Na segunda-feira, um dia depois do título (o time do Bahia não conquistava o torneio estadual havia 11 anos) apareceram propostas aqui do Brasil, e eu disse que não tinha condições de sair naquele momento. Comuniquei o Paulo (Angione, presidente do clube), que é o meu gestor aqui, e disse que não, que nem conversaria.

ZH – Mas corre notícias de interesse do São Paulo.

Falcão – Não. Sabe o que é? Tenho um mecanismo de defesa contra redes sociais, não tenho Facebook nem Twitter. Tem aí uns fakes (perfis falsos em redes sociais, normalmente criados por torcedores), mas não são meus, eu não tenho isso, não curto isso. Respeito quem tem. O técnico não tem tempo para isso. Tem que administrar 25 jogadores, um grupo heterogêneo, mais uma série de coisas. Não dá para perder o foco.

ZH – Você está escrevendo um outro livro? Como é a história?

Falcão – É para lembrar um pouquinho de 1982 (a Copa de 1982, na Espanha). O título não está definido ainda (será algo como "time que perdeu a Copa e ganhou o mundo").

ZH – Está conseguindo tempo?

Falcão – A hora em que eu faço isso é de noite. Não sou de dormir muito cedo não, e não sou de acordar muito tarde, mas assim, nos horários que a gente pode. Aquela Seleção até hoje impressiona.

ZH – É um projeto ainda para esse ano?

Falcão – É um projeto para agora.

 
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