Os projetistas

Arquitetos colorados contam como o acaso influenciou a idealização do novo Beira-Rio

Fernando Balvedi, Gabriel Garcia e Maurício Santo projetaram o estádio do Inter

03/04/2014 | 19h38
Arquitetos colorados contam como o acaso influenciou a idealização do novo Beira-Rio Diego Vara/Agencia RBS
Gabriel Garcia, Fernando Balvedi e Maurício Santos, arquitetos responsáveis pelo projeto de reforma do estádio Beiro-Rio Foto: Diego Vara / Agencia RBS

Recém-formado na UFRGS, Fernando Balvedi aguardava na fila de um bar no setor das antigas cadeiras do Beira-Rio quando deparou com um cliente que logo fez um convite surpreendente.

- Temos uma comissão discutindo uma cobertura para o estádio. Tu e teus sócios não querem participar? - disparou o conselheiro Roberto Leitão dos Santos.

Ali, sobre o cimento já desgastado dos corredores da velha casa colorada, em novembro de 2006, estava o embrião do que viria a ser o projeto de reforma do Gigante. É possível que poucas vezes a máxima "a sorte acompanha os bons" tenha se aplicado tão bem quanto na história de Balvedi, hoje com 32 anos, e de Gabriel Garcia, 33, e Maurício Santos, 31, os outros dois arquitetos que projetaram o novo estádio do Inter, sócios da Hype Studio. Uma série de acasos fez com que esses colorados com pouco mais de 20 anos, saídos há poucos meses da Faculdade de Arquitetura, tenham idealizado a obra que garantiu ao estádio a chance de sediar a Copa do Mundo.

- Dizem que para cair um avião precisa de sete fatores. Essa obra teve também uma série de fatores para sair - brinca Garcia.

O trio soube de pronto que era uma oportunidade a se agarrar com toda a força possível, mas nem o mais otimista poderia acreditar que as ideias sairiam do papel. Após alguns encontros informais com dirigentes, no início de 2007, decidiram levar as então cinco propostas de cobertura ao presidente Vitorio Piffero. Engenheiro, o ex-mandatário vidrou na imagem das folhas metálicas. E não teve dúvidas.

- Ele botou o olho e disse: "Pode parar (com a apresentação). Vamos construir isso aí" - relembra Balvedi.

Àquela época, a ideia da diretoria era só erguer a cobertura sobre o estádio, que recebera retoques nos anos anteriores, mas agonizava após décadas de uso. Por isso, os arquitetos tinham uma carta na manga: já apresentaram, na mesma reunião, toda uma projeção para o entorno do estádio, com campos de treinamento, hotel e paisagismo. Não era preciso mais nada: aquele seria o projeto logo depois definido como Gigante para Sempre.

E então, se sucederam duas confirmações que tornaram crível acreditar que o plano sairia do papel: em poucos meses, o Mundial seria confirmado no Brasil e, em 2009, Porto Alegre e o Beira-Rio foram confirmados como sede. Ao longo dos anos, mudaram nomes da diretoria, mas o projeto foi mantido. E os três ganharam lugar cativo no dia a dia do canteiro de obras da construtora Andrade Gutierrez.

Reunidos à frente do Beira-Rio para a foto que estampa essa página, o trio recebeu mais uma prova do acaso que o acompanha desde 2006. Encontraram aquele que pode ser definido como "padrinho" na direção colorada: o ex-vice-presidente de patrimônio Emídio Ferreira.

- Eram esses três loucos, que se juntaram com outros três loucos: Pedro (Affatato), Vitorio e Emídio. E viraram seis loucos. Essa é a história da reforma - resumiu Ferreira.

Pura comprovação da tese de que a sorte acompanha os bons. E os loucos, pelo visto.


As propostas
Inicialmente, eram cinco as ideias para a cobertura do Beria-Rio. Confira:

Curiosidades
- A ideia das folhas metálicas vem de uma definição inicial de que a cobertura seria construída em módulos, sem fechar o estádio. Como era preciso uma estrutura que não fosse única, foi-se aprimorando o projeto até chegar ao formato atual.

- Desde o início, o plano foi usar a membrana de material PTFE (politetrafluoretileno), composta de fibra de vidro e revestida por uma camada de teflon. Mas o elevado preço do material deixou cabreira a diretoria do Inter. Foi preciso Emídio Ferreira caminhar sobre uma membrana do mesmo material durante uma visita às obras dos estádios da Copa de 2010 na África do Sul para se convencer.

- A primeira verba paga aos arquitetos pelo Inter foi toda gasta em viagens para países europeus. Os três se dividiram e conheceram estádios por boa parte do continente. Dessa viagem, surgiram alterações importantes no projeto.

- Em 2007, o presidente Vitorio Piffero chegou para o trio e disse:
"Teremos uma visita da Fifa, preparem uma apresentação sobre o projeto da reforma"

Às vésperas do encontro, uma desavença: Piffero exigiu que fossem retiradas menções críticas à Arena da Baixada do material, mas Gabriel Garcia era contra e seguiu-se uma discussão com o presidente, que acabara de rescindir o contrato com um jogador importante do time. Some-se a isso dias sem dormir finalizando um vídeo em inglês para impressionar os enviados da entidade e o resultado foi Piffero saindo da reunião deixando os presentes sem pai nem mãe. Arrependido, Garcia achou que aquele era o fim do sonho de erguer o Gigante. A apresentação aos homens da Fifa, do Ministério do Esporte e da CBF, entretanto, foi um sucesso. Finalizado o vídeo, o ex-presidente foi até o arquiteto e estendeu a mão com um sorriso no rosto:

"Sem ressentimentos."

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