Emoção

Ídolo do Inter, Falcão reencontra o Beira-Rio: "Que maravilha!"

A convite de Zero Hora, ex-jogador colorado visitou o novo estádio

04/04/2014 | 06h13
Ídolo do Inter, Falcão reencontra o Beira-Rio: "Que maravilha!" Ricardo Duarte/Agencia RBS
Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS

Paulo Roberto Falcão apertou os olhos quando entrou no Beira-Rio. Impressionou-se com a vastidão do vermelho e logo procurou vestígios do passado de quem conviveu os anos 1970 dentro do Gigante, do vestiário, da concentração, do refeitório, do túnel, e de cada palmo do gramado.

- Marcelo, que maravilha! - exclamou Falcão ao vice de futebol, Marcelo Medeiros, que o recepcionou na visita ao estádio.

VÍDEO: Falcão relembra história de vestiário

 

Era quarta-feira, e os funcionários corriam para aprontar o cenário da festa de reinauguração de sábado à noite e um barulho infernal de máquinas em serviço de última hora dava a sensação de urgência.

Mas a aparição de Falcão no gramado transformou o ambiente, e operários dedicaram minutos preciosos à tietagem, funcionários vieram bisbilhotar e o pessoal que marcava a grande área do gramado, um solene ato histórico, interrompeu o trabalho diante do visitante de jeans, blazer e calçado italiano.

- Olhem aquele pessoal lá em cima - e Falcão abana para os paraquedistas que estão acenando de cima da cobertura. - Dá uma sensação de grandeza. 

E o restante do tempo foi uma homenagem à memória. Ali, aponta, o Valdomiro chutou no gol contra o Corinthians, na decisão do Brasileirão de 1976. A bola bateu no travessão e no chão, e o árbitro José Roberto Wright vacilou em dar o gol. 

- Eu vi o bandeirinha correndo para o centro, ele validou o gol. Então cerquei o Wright: 'O bandeira deu gol, ele viu, ele viu' e o árbitro acabou se convencendo do gol (o 2 a 0 do bicampeonato brasileiro) - conta Falcão.

Mais uns passos adiante, ele prossegue: depois da vitória sobre o Cruzeiro, no primeiro título brasileiro, havia uma convulsão no estádio naquele 14 de dezembro de 1975. Falcão não sabia o que fazer.

- Na beira do campo, o Faustão (apresentador da Globo, à época repórter esportivo) me chamou e disse: 'Pô, Bola, tu és campeão brasileiro e fica aí com esta frieza!' E eu tinha 22 anos.

E aparece Dorinho, meia esquerda dos anos 1960 que inaugurou o estádio, hoje funcionário do clube. Eles se abraçam. Vem um operário pedir autógrafo, outro quer tirar foto com o celular, e Falcão procura na arquibancada a memória de quando era infanto nos Eucaliptos e assistia aos profissionais no Beira-Rio em companhia do pai, seu Bento Falcão. E havia um imenso orgulho nisso porque, antes ainda, garoto ele acompanhava o pai carregando tijolos para a construção do estádio. 

Pai e filho assistiam aos jogos nas últimas fileiras das sociais, um pouco mais à esquerda do centro. O garoto via lá embaixo o Inter de Claudiomiro e sonhava. Bento também. Devia ver o filho no papel de Bráulio e Dorinho.

- Eu acho que não existe mais o lugar, ao lado das antigas cabines de imprensa - e ele de novo aperta os olhos à procura do  passado e nada parece familiar. Na verdade, as cabines estão lá, sim, agora mais estilosas, feito um camarote.
Outra visão vem de antes das tardes de domingo no Beira-Rio, de antes dos jogos. Falcão deixava a concentração e espiava a preliminar. Funcionava como uma terapia contra a tensão do jogo de fundo.

Continua a caminhada. No círculo central, uma imensa estrutura em cilindro ainda coberta por lona chama a atenção, um mistério mantido pelo produtor da festa deste sábado, Edson Erdmann, e Falcão narra um fato dali. Aconteceu com o volante Clóvis, irmão de Cláudio Duarte e com quem jogara junto nos juvenis do Inter. No Gauchão de 1976, Clóvis defendia o Caxias no Beira-Rio. Antes do jogo, ele foi cumprimentar o amigo Falcão. Abraçaram-se, trocaram gentilezas e Clóvis ficou parado na frente de Falcão. Estacionou ali:

- E aí, Clóvis, vais ficar aí?

- O homem (técnico Luiz Louruz) mandou te marcar - explicou Clóvis.

- Pô, precisa ser tão evidente assim? Disfarça um pouco!

O restante do jogo foi assim. No único momento em que Falcão se livrou de Clóvis, ele desandou a driblar como jamais fazia - era mais um jogador clássico, de toques inteligentes. Mas neste lance ele se livra de um carrinho, corta o zagueiro Cedenir, evita a voadora de Sérgio Vieira e desvia do goleiro Bagatini. O gol é um dos raro feito após três ou quatro dribles. Nessa hora, ele não consegue ver a reação da torcida. Só percebe por intuição alguma inquietude vinda da coreia, das arquibancadas, alguns óóó e em seguida baixa um átimo de silêncio à espera do lance do gol, até a explosão final.

Como na jogada do lance mais bonito da história do Beira-Rio, o segundo dos 2 a 1 da vitória sobre o Atlético-MG na semifinal do Brasileirão de 1976. Eram 46 minutos do segundo tempo.

- Foi uma tabela, como a gente treinava. Quando o Escurinho me passou de cabeça, eu senti que daria certo. Devolvi e recebi na frente diante do goleiro Ortiz, tive de me esticar e alcancei a bola com o bico da chuteira. Neste momento, o silêncio foi total,  (havia 55 mil pessoas no estádio).

A bola ainda bateu na mão do Ortiz antes de entrar. O próprio Falcão se esticou todo para ver o desfecho sobre o ombro dos zagueiros, que chegaram apavorados. O Inter iria à final do Brasileirão de 1976 e levantaria o bi sobre o Corinthians.
Em outro momento, Falcão sentou-se ao banco do reservado técnico e falou de como foi marcante a sua última passagem como treinador do Inter, em 2011.

- Foi forte aquela passagem. Eu construí uma expectativa, tinha pesquisado muito e por isso foi bem mais impactante de quando treinei pela primeira vez, em 1993.

Também a visita ao vestiário o marcou. Marcelo Medeiros o situou no ambiente, que fica hoje no mesmo local do antigo, e Falcão se sentou em uma bancada destinada aos jogadores. Ficou minutos olhando o recinto. Da ida aos profissionais e a saída para a Roma foram oito anos ali dentro - além de cerca de um ano nas duas passagens como técnico.

- Aqui a gente sofre e se tem orgulho.

Em fotos, relembre momentos históricos de Falcão no Beira-Rio

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