Ídolo colorado

Alma e motor do Inter, D'Alessandro completa 350 jogos pelo clube

Com o gol contra o Sampaio Corrêa, meia assumiu a 17ª colocação na lista dos maiores artilheiros da história do Inter, dividindo a posição com Alex

17/03/2017 - 21h00min | Atualizada em 18/03/2017 - 01h20min

O Inter é dependente de D'Alessandro. E assim será enquanto o camisa 10 permanecer no Beira-Rio, o que poderá se estender também por todo o 2018, caso o crescente movimento interno para a renovação de contrato do capitão argentino por pelo menos mais um ano ganhe corpo, com o Projeto Série A. Não são apenas os números: as assistências, os gols, os títulos. D'Alessandro jogou os 90 minutos da derrota em casa para o Novo Hamburgo, por exemplo. É a alma do time, é a imagem do clube. No sábado, de volta ao Gauchão, diante do São Paulo-RG, cumprirá 350 jogos com a camisa do Inter e será homenageado em sua décima temporada de Beira-Rio.  

Em Caxias do Sul, contra o Juventude, no jogo em que a culpa pelo revés foi colocada pela direção colorada nas costas do árbitro Diego Real, o Inter foi uma presa fácil para o time de Gilmar Dal Pozzo. D'Alessandro, suspenso, havia permanecido em Porto Alegre. De volta à Copa do Brasil, virtualmente classificado, Antônio Carlos Zago mandou a campo um time quase reserva. Do banco, D'Alessandro assistia à modorrenta vitória por 1 a 0 sobre o Sampaio Corrêa. Entrou no intervalo e fez o time jogar. O jogo acabou em nova goleada, com o meia marcando um golaço de falta. E aqui está o detalhe. Ao deixar o campo, D'Alessandro referiu que desde 2015 o Inter não convertia em uma cobrança de falta. E acertou até o autor do gol:

— Acho que não marcávamos de falta desde 2015 (em 28 de junho, pelo Brasileirão, Inter 1x0 Santos). Com o Valdívia, contra o Santos, né?

Leia mais:
Inter x São Paulo-RG: tudo o que você precisa saber para acompanhar a partida 
Finais, rivalidade, apito, "Garrincha" e DVD: Inter e Corinthians é o grande duelo da Copa do Brasil  
Zago indica Inter com Uendel de volta à lateral e D'Alessandro como volante

Com o gol marcado sobre o Sampaio, o seu segundo na temporada, D'Alessandro assumiu a 17ª colocação na lista dos maiores artilheiros da história do Inter, dividindo a posição com Alex, ambos com 78 gols. Passou Fernandão, que marcou 77 com a camisa colorada. E está a seis do campeão brasileiro de 1975 Flávio, 16º colocado na lista, com 84 gols. Com média de um gol a cada 4,4 jogos pelo Inter, D'Alessandro teria a chance de marcar pelo menos mais 13 gols na temporada — no total, serão mais 58 jogos, caso o Inter vá às finais do Gauchão e da Copa do Brasil mais os jogos da Série B.

— D'Alessandro sempre foi um jogador diferente, técnica e intelectualmente. Agora, me parece que está jogando cada partida como se fosse a última. Como se 2017 fosse o ano definitivo da vida dele — avalia Giovanni Luigi, ex-presidente do Inter. — D'Alessandro sabe que terá mais dois ou três anos em alto nível. Acho que já está com saudades antecipadas da carreira. De coisas que breve não vivenciará mais. E quer ter todas essas emoções a cada jogo. Ele se tornou o Inter — acrescenta Luigi, se referindo à dedicação do meia ao time. 

Luigi entende que D'Alessandro tem a consciência que o Inter dificilmente seria rebaixado, caso ele tivesse permanecido no ano passado. Acabou saindo pelo sonho de um grande conquista com o River Plate e por divergências com a antiga direção. 

— D'Alessandro entendeu como poucos a importância do Gre-Nal. Foi campeão da Copa Sul-Americana logo em seus primeiros meses de Inter e sabe o que o torcedor sente. E, sobretudo, tem a noção exata sobre essa temporada: se o Inter não subir, 2018 será um ano devastador — comenta Giovanni Luigi.

Capitão do Inter durante seis temporadas, entre os anos 80 e os 90, Luiz Carlos Winck vê dois times completamente diferentes, com e sem D'Alessandro. Semanas atrás, Winck, atual técnico do Caxias, empatou em 1 a 1 com o Inter no Beira-Rio — D'Alessandro marcou para os colorados.

— Ele é a referência do Inter. D'Alessandro transmite uma energia, um espírito diferente ao time. E vibra como se tivesse 20 anos, passa uma energia como capitão. É muito bonito de se ver porque ele puxa os mais novos — conta Winck.

— O clube vai demorar a encontrar alguém para substituir o D'Alessandro. Se fosse só pela técnica, talvez devesse ter segurado o Lucas Lima lá atrás. Mas acho difícil alguém encarnar como ele a figura do capitão. Para ser capitão do Inter é preciso viver o clube. O Inter pede entrega e garra de seu capitão, sempre pediu. E D'Alessandro é essa figura.  

Idealizador e presidente da Universidade do Futebol, em São Paulo, criada para estudar os mais diversos aspectos do esporte, João Paulo Medina (coordenador técnico do Inter no começo dos anos 2000) lembra que D'Alessandro colhe agora uma história de quase 10 anos no clube. 

— Ele se construiu no Inter, com carisma e credibilidade. Encarna esse papel de líder e é legitimado no clube. Isso dá ainda mais empoderamento a D'Alessandro, pois ele assume uma tarefa que não é fácil. Se ele fosse agora para o Flamengo, por exemplo, não teria essa liderança e essa representatividade toda — pondera Medina. — O contexto favorece que D'Alessandro seja assim no Inter e, como tem resultados, acaba servindo de exemplo e inspiração para todos no clube — avalia. 

Ex-repórter e editor da revista Placar, atualmente comentarista do canal Espn, Arnaldo Ribeiro observa que D'Alessandro é um dos últimos grandes líderes do futebol brasileiro — assim como Rogério Ceni, hoje técnico do São Paulo. 

— A crise de lideranças que assola o país tem reflexo claro nos times de futebol. Os "grandes cartolas", os treinadores-referência, eles sumiram. Resultado: alguns clubes passaram a depender de jogadores ou ex-jogadores para a função de catalizador. E essa figura acaba sendo o esteio do time, do grupo, do vestiário, do clube, fazendo o elo com aquele que de fato interessa: o torcedor. Rogério Ceni é assim no São Paulo. D'Alessandro é assim no Inter. Esses caras acabam se tornando muito poderosos? Tem o ônus também? Sim. Há tudo isso. Mas antes a liderança de um time ser exercida por gente que teve contato com a grama do que de engravatados cheio de ideias — comenta Ribeiro.

Neste sábado, às 19h, D'Alessandro voltará a conduzir o Inter em uma partida decisiva. Fora do G-8 do Gauchão, a equipe de Antônio Carlos Zago precisa vencer para ingressar na zona de classificação e evitar um constrangimento, em noite de festa para o seu capitão. 

*ZHESPORTES

 
 
 
 
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.