Copa 2014

Elefantes brancos: arenas destinadas ao prejuízo

Sem clubes com grandes torcidas, novos estádios em construção em Manaus, Cuiabá, Natal e Brasília podem deixar herança de dívidas

16/06/2012 | 17h40
Elefantes brancos: arenas destinadas ao prejuízo divulgação/governo do MT
Arena Pantanal: em Cuiabá, apenas um time demonstrou interesse em jogar no novo estádio – ainda assim, só se subir à Série B Foto: divulgação / governo do MT

Quatro das 12 arenas em construção para a Copa do Mundo precisarão de um milagre para recuperar os investimentos nos novos estádios, que somam cerca de R$ 2,2 bilhões até o momento.

Confira o ranking dos estádios em obras para a Copa

Para preencher as arquibancadas, com capacidades entre 40 mil e 70 mil torcedores, apostam em shows musicais e eventos para compensar médias de público de até 522 pessoas, como no campeonato do Mato Grosso. O problema: sem um ou mais clubes para trazer torcedores periodicamente, a chance de o estádio ficar vazio é enorme.

Dos 12 estádios do Mundial de 2014, pelo menos quatro estão ameaçados de se tornarem após o evento "elefantes brancos", expressão para obras públicas pouco utilizadas e com alto custo de manutenção: o Estádio Nacional e as Arenas Pantanal, Amazonas e das Dunas.

Entre os administradores públicos responsáveis pelos estádio, é consenso de que o futebol não sustentará as novas arenas. Eles entram em unanimidade quando a questão são as alternativas para mantê-las.

– A ideia é conceder a administração à iniciativa privada. O forte dessas arenas novas são os eventos, não só shows, mas aluguéis de salas de reuniões. Tendo uma administração versátil, acho que a gente consegue chegar ao custo de manutenção – disse, não muito confiante, Miguel Capobiango, coordenador-geral da Unidade Gestora Projeto Copa do Mundo em Manaus, que revelou já ter apresentado a Arena Amazônia para cinco operadoras.

A capital do Amazonas só tem um estádio funcionando, o do Serviço Social da Indústria (Sesi), para 4 mil pessoas. Não precisaria ser maior, pois a média de público do estadual foi de 800 pessoas, de acordo com Ivan Guimarães, diretor técnico da Federação Amazonense.

Nenhum dos times de Natal quer jogar na Arena das Dunas

Apesar de Natal contar com dois times na Série B, a Arena das Dunas não tem interessados em utilizá-la. O ABC manda seus jogos no Frasqueirão, estádio para 18 mil torcedores, construído há apenas cinco anos. Já o América resolveu construir seu próprio estádio, na Região Metropolitana, mesmo podendo usar um equipamento novinho, na região central. O motivo: a empreiteira OAS, responsável pela obra da Arena das Dunas, teria negado patrocínio para o time.

– Entendo os argumentos da empresa, mas é triste ver Vitória e Bahia sendo patrocinados em Salvador. Se tivesse recebido o apoio, não sei se teria lançado o projeto. Agora não tem volta – disse o presidente do América, Alex Padang.

Não que o clube precise de uma arena gigantesca. Os torcedores de todos os jogos do América no Estadual de 2012 – 20.340 almas – não preencheriam sequer a metade das 43 mil cadeiras da Arena das Dunas.

Em Cuiabá, o time homônimo da cidade, de apenas 10 anos, mas financiado por um empresário do ramo da borracha, mostrou interesse em arrendar a Arena Pantanal, com uma condição: se estiver na Série B em 2014 – atualmente está na C.

Andressa Rufino, autora do livro Arena Multiuso: Um Novo Campo nos Negócios, é pessimista sobre o aproveitamento dos estádios em construção para o Mundial de 2014.

– Construir uma arena sem ter um clube âncora para chamar os torcedores é praticamente matá-la. Acho que essas arenas até conseguirão uma operadora, mas apenas por médio e curto prazo, para explorar a Copa – afirma Andressa.

Na África do Sul, depois da última Copa, até a demolição de arenas foi cogitada para evitar prejuízos. O problema também atingiu Portugal: três estádios construídos ou reformados para a Euro 2004 foram postos à venda por conta do baixo público.

 
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