De um lado para o outro

Sandro Silva e Rafael Sobis podem engrossar a lista de atletas que defenderam Grêmio e Inter

Ao longo da centenária rivalidade, mais de 80 jogadores "viraram a casaca"

26/06/2012 | 08h14
Sandro Silva e Rafael Sobis podem engrossar a lista de atletas que defenderam Grêmio e Inter Montagem sobre fotos de Mauro Vieira /
Tinga é um dos exemplos. Primeiro, jogou no Grêmio. Depois, defendeu o Inter Foto: Montagem sobre fotos de Mauro Vieira

Na mira tricolor, o volante Sandro Silva e o atacante Rafael Sobis podem engrossar a lista de jogadores que “viraram a casaca” ao longo da centenária rivalidade entre Inter e Grêmio.
A partir da década de 1930, foram mais de 80 atletas que trocaram um lado pelo outro. Por enquanto, nenhum dirigente no Olímpico confirma as tratativas com os dois jogadores. Mas, também, ninguém as desmente com a ênfase de quem põe um ponto final no assunto.

Houve um tempo em que trocar um clube pelo outro era arrumar encrenca certa. O ex-volante Batista, que deixou o Inter rumo ao Grêmio, se constituiu no caso mais rumoroso. A revolta dos colorados o levou a não circular muito à luz do dia.

— Hoje, é diferente, até porque os jogadores já não criam mais tanto vínculo com os clubes, como acontecia no meu tempo — afirma Batista.

Caso as duas negociações atuais se concretizem, o maior trauma deve ser provocado por Sobis, jogador formado no Beira-Rio e elevado à condição de ídolo colorado pelos gols decisivos contra o São Paulo na decisão da Libertadores de 2006. Nas redes sociais, torcedores do Inter já debocham dos gremistas, ao insinuar que o atacante leva gravada no corpo uma tatuagem com o símbolo colorado. Amigos de Sobis negam a existência da figura.

Sobis é respeitado no Olímpico como um jogador habituado a títulos e gols importantes. Mesmo com a boa atuação de Kleber e Moreno contra o Flamengo, domingo, existe a convicção de que novos atacantes se fazem necessários.
 
Sandro Silva, a rigor, sequer chegou a esquentar lugar no Beira-Rio. Não fossem alguns desempenhos brilhantes neste ano, quando finalmente foi escalado como volante, passaria despercebido.

Uma informação que circula nos bastidores do Olímpico indica que há ao menos sondagem em relação ao volante, admirado por Luxemburgo desde que atuava pelo Mirassol-SP em 2008.

— O Málaga não está pedindo 2 milhões de euros por ele como informa o Inter. São 700 mil euros — garante um conselheiro tricolor.
Perguntado se o Grêmio poderá bancar esse valor, ele encerra a conversa com um sorriso. A história dos que viram a casaca ainda parece estar longe de terminar.



Christian jogou no Inter e, anos depois, vestiu a camisa tricolor


DO INTER PARA O GRÊMIO

Anos 1940 —
Julio Petersen, Tábua, Castrinho, Osvaldo Brandão

Anos 50 Tesourinha, Ivo Diogo, Mujica

Anos 60 — Sérgio Lopes, Ari Ercílio, Gaspar, Sérgio Moacir

Anos 70 — Carbone, Manga, Vítor Hugo, Luís Fernando Gaúcho

Anos 80 — Batista, Mário Sérgio, Tonho, Kita, Cláudio Freitas, Jandir

Anos 90 — Luís Carlos Winck, Norberto, Mauro Galvão, Adilson, Zé Alcino, Nílson, Maurício, Ademir Maria, Chiquinho, Alexandre Xoxó, Branco, Jairo Lenzi, Adílson

Anos 2000 — Christian, Fábio Pinto, Hidalgo, Labarthe, Saraiva, Gavillán, Yan / Anos

Anos 2010 Sorondo, Fábio Rochemback


ENTREVISTA
Batista
volante que trocou o Inter pelo Grêmio no final de 1981

“Nunca imaginei jogar pelo Grêmio. Achava que iria para o Exterior”

Zero Hora – Como foi a reação dos colorados ao saber de sua ida para o Grêmio?
Batista –
Tive muita incomodação no início. Eu evitava sair durante o dia para não criar problemas.

ZH – Quanto tempo se passou até o desfecho da negociação?
Batista –
Foram uns oito meses. O Inter alegava que não me encontrava para negociar. Eu me recuperava de cirurgia no Rio. Mas meu procurador estava aqui o tempo todo.

ZH – Sua pedida, na época, era  muito alta?
Batista –
Podia ser, para a época. Hoje, qualquer juvenil ganha isso (risos). Eu queria comprar uma casa nova, ainda morava em apartamento financiado. Pelos meus cálculos, daria mais ou menos uns US$ 250 mil por ano.

ZH – Você imaginava que pudesse parar no Grêmio?
Batista –
Nunca imaginei jogar pelo Grêmio. Achava que iria para o Exterior. Achava difícil atuar por outro clube brasileiro.

ZH – Como soube que iria jogar no Grêmio?
Batista –
Minha mãe me acordou para dar a notícia. Disse a ela: como assim? Passei o dia no escritório de um dirigente do Grêmio na 7 de setembro (no centro de Porto Alegre). Não me deixaram sair enquanto não acertasse. Enquanto isso, as rádios tentavam localizar a mim e aos dirigentes do Grêmio.


DO GRÊMIO PARA O INTER

Anos 1930 — Castilho

Anos 40 — Russinho

Anos 50 — Sérgio

Anos 60 — Elton

Anos 70 — Volmir Maçaroca, Jorge Tabajara, Gasperin, Chico Spina

Anos 80 — Jésum, Geraldão, Casemiro, Luís Carlos Martins, Paulo César Magalhães, Bonamigo, Tita, Vilson Tadei, Heleno, Almir, João Antônio

Anos 90 — Lima, Cuca, Carlos Miguel, Arilson, Almir, Caio Júnior, Washington, Mabília
Anos 2000 — Tinga, Bustos, Everton, Rubens Cardoso, Bolívar

Anos 2010 — Rodrigo


ENTREVISTA

Casemiro lateral-esquerdo que trocou o Grêmio pelo Inter em 1988

“Ninguém me procurou para renovar contrato. Fui ignorado”

Zero Hora – O presidente Paulo Odone disse que foi surpreendido quando você trocou o Grêmio pelo Inter. O que houve naquele momento?
Casemiro –
Voltei das férias no início de 1988 e por uma ou duas semanas ninguém me procurou para renovar contrato. Somente o técnico Otacílio Gonçalves quis que eu ficasse. Fui ignorado pela direção, não merecia aquele tratamento depois de 10 anos de clube. Então, surgiu o Inter, por indicação de Ênio Andrade, que havia me lançado no Grêmio em 1981.

ZH – Como os torcedores reagiram na época?
Casemiro –
A torcida do Grêmio queria que eu ficasse, pressionou a direção. Eu tinha moral com os torcedores. Felizmente, fui muito bem recebido pelos colorados.

ZH – Como ocorreu a transferência do Grêmio para o Inter?
Casemiro –
Meu passe foi parar na Federação Gaúcha. Como eu já tinha 10 anos de carreira, houve uma grande desvalorização do preço. Algo como uma redução de R$ 20 mil para R$ 4 mil.

ZH – Como foi sua passagem pelo Inter?
Casemiro –
Fiquei dois anos e pouco. Entrei naquele timaço montado pelo Abelão (Abel Braga), que tinha Taffarel, Luiz Carlos Winck, Aloísio. Por pouco, não fomos campeões brasileiros e da Libertadores.


Iúra pediu US$ 15 mil e disse não

A cena ocorreu na sala do então presidente do Inter José Asmuz, em 1980. O dirigente pergunta ao meia Iúra, que o Inter trouxera do Criciúma, quanto ele pretendia receber de salários. Gremista até a raiz, o jogador, então com 27 anos, pede algo em torno de US$ 15 mil, valor muito alto para a época. Naquele tempo, não era comum a presença de procuradores nas negociações.

Pedir muito foi a maneira encontrada por Iúra para deixar claro que jogar pelo rival seria uma heresia, depois de chegar com 19 anos ao Olímpico e virar  símbolo de garra em campo.
Está maluco? Com esse dinheiro, compro três grandes jogadores reage Asmuz.
Mas eu é que não quero ficar aqui. Tchau, estou indo embora rebate Iúra, antes de deixar a sala.

Atônito, o ex-supervisor Carlos Duran, falecido no início de 2011, ainda tenta contemporizar. Sugere que Asmuz aceite o pedido salarial, sob o argumento de que o investimento será recuperado no primeiro Gre-Nal. Mas a negociação já estava encerrada de forma incontornável. O gremismo do jogador havia se chocado de frente com o coloradismo do dirigente.

Iúra, na verdade, já havia batido boca com diretores do Criciúma ao ser informado da venda para o Inter. Conta, rindo, que quase partiu para a briga com um deles. A rigor, ele já havia se transferido para o clube catarinense disposto a abandonar a carreira, devido a uma lesão crônica. Posição reforçada diante da perspectiva de jogar no Inter.

Eu era muito gremista, chorava quando o time perdia os jogos. Não ia dar certo acredita o jogador.

 
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