The New York Times

Levantar pesos é mais do que agarrar, gritar e largar

Modalidade pode ter um dos momentos mais cruéis na Olimpíada

09/08/2012 | 23h58
Levantar pesos é mais do que agarrar, gritar e largar Jed Jacobsoh,NYT/
Yuliya Kalina, da Ucrânia, competiu na categoria até 58kg Foto: Jed Jacobsoh,NYT


Londres –
Este pode ser o momento mais cruel das Olimpíadas de Verão, quando os levantadores de peso conferem o relógio e percebem não ter aguentado o peso acima da cabeça pelo tempo exigido. O levantamento não será bem sucedido enquanto não forem capazes de comprovar aos juízes que têm controle do peso.

A prova certamente parece difícil. Os competidores ficam ofegantes, bufam, seguram a respiração e, de vez em quando, gritam. Os membros tremem e as veias saltam. Sabe quando os rostos se contorcem depois de serem submetidos a uma força gravitacional muito grande? Isso acontece muito.

O que não somos capazes de ver são os pensamentos que passam pela cabeça desses atletas durante seu breve e torturante purgatório. Parece rápido demais? Será que realmente dói?

- Quando o peso está acima da minha cabeça, eu penso na minha mãe - afirmou Iulia Paratova, da Ucrânia, em uma entrevista após o evento do dia 29 de julho - Eu não sei por que isso acontece. Mas eu sempre penso na minha mãe.

Outros atletas rezam. Alguns se concentram na técnica. Muitos dizem ficar com a mente completamente vazia.

- Eu não escuto nada - afirmou Aleksandra J. Klejnowska-Krzywanska, da Polônia. - Eu não ouço a multidão. Não escuto nem o meu treinador. Mas assim que eu termino e o peso está no chão, todos os sons chegam até mim de uma vez. É aí que eu escuto tudo.

O que se passa na mente de um levantador de peso é só mais um dos mistérios desse evento surpreendentemente cativante, que, ao menos no princípio, não parece interessar tanto assim. O esporte é tão básico que é um dos poucos nas Olimpíadas que até um homem da idade da pedra seria capaz de compreender automaticamente.

Peso pesado. Levantar. Soltar. Tchau.

Mas, na verdade, as regras são um pouco mais complicadas. Há duas modalidades diferentes nas competições masculinas e femininas. A primeira é a arrancada, quando o peso é levantando até o topo de uma vez. A segunda é o arremesso, quando o peso é primeiro levantado até o peito e, em seguida, erguido até o topo.

Os atletas têm três tentativas em cada uma das modalidades. A arrancada e o arremesso com o maior peso são combinados e a pessoa com o maior número – medido em quilogramas, naturalmente – vence a competição. Caso haja um empate, a vitória fica com o levantador mais leve.

Isso pode parecer complicado, mas os organizadores adaptaram o evento ao século XXI, apresentando-o de uma forma fácil de acompanhar, como se fosse em reality show. Quando um atleta se aproxima do tablado, uma música de fundo preenche o ambiente do Excel Centre, com sons recheados de tensão que parecem ter sido roubados de cenas do programa de TV "O Aprendiz". É o típico "pã-pãm", sobre um ruído baixo de sintetizador.

A música nos faz pensar em um duelo. Não toque no controle remoto.

Também há elementos do programa "No Limite", incluindo um apresentador que está sempre a postos para aparecer em diversos telões e para aquecer a multidão antes do início das atividades e durante os 10 minutos de intervalo.

- Senhoras e senhores, uma salva de palmas para essa prova impressionante - afirmou com uma sinceridade inocente, durante o intervalo do dia 29 de julho.

Os atletas dessa versão de "No Limite" são suas próprias tribos e cada um deles encara o mesmo adversário: os halteres. Cada competidor enfrenta o inimigo à sua maneira. Sergio Alvarez Boulet, de Cuba, coloca suas mãos ao redor da barra e grita algumas vezes. Yuderqui Contreras, da República Dominicana, agarra a barra e aproxima a cabeça suavemente, como se estivesse relendo os termos de um contrato assinado entre ela e os pesos alguns dias antes.

O drama começa antes mesmo que o atleta suba ao palco. Cada um tem um minuto para tentar levantar o peso e, após 30 segundos, um alarme soa. Ele é alto e longo, como se fosse a buzina de um carro que pede passagem.

Algumas tentativas acabam em poucos segundos, como se o atleta levantasse o peso a alguns centímetros do chão e pensasse: "Isso aqui só pode ser brincadeira". Caso os competidores não consigam levantar o peso nas três tentativas, em ambas as modalidades, a Olimpíada acaba para eles.

Com um belo sotaque britânico, o narrador dá detalhes precisos dos resultados parciais, fornecendo às vezes alguns detalhes biográficos: "Antes de se tornar levantadora de pesos, ela trabalhou em um circo". De vez em quando ele pede ao público que faça barulho: "Senhoras e senhores, vamos ajudá-la a erguer esse peso".

Os aplausos e gritos de apoio aos atletas prestes a serem eliminados chegam a um volume impressionante. Em seguida, um silêncio absoluto antecede a preparação para o levantamento propriamente dito, sendo interrompido apenas por alguns conselhos desnecessários.

- Levanta isso! - gritou um homem no outro dia.

Mas isso é tudo o que os expectadores podem fazer. Muitos atletas acabam de costas no chão, dobrados sobre os joelhos ou fugindo de sua derrota.

Desculpem, Ruslan Makarov do Uzbequistão, Khalil El Maoui da Tunísia e Bezkat Osmonaliev do Cazaquistão: o haltere teve a última palavra. Juntem suas coisas e voltem para casa.

Após a apresentação, os atletas são levados a uma área onde os jornalistas podem entrevistá-los. As competições de levantamento de peso, que duram vários dias, começam com os atletas mais leves. De perto, os homens da categoria de até 56 quilos se parecem com jóqueis biônicos.

Segundo dizem, eles olham para os halteres como inimigos mortais.

- Eu o vejo como uma cobra - afirmou Jose Lino Montes Gongora, do México. - Eu penso que devo mantê-lo acima da minha cabeça, ou então ele vai me morder. É por isso que sempre respiro fundo antes de me aproximar dele. Fico assoprando para manter a cobra afastada.

Yuliya Kalina, da Ucrânia, medalhista de bronze na categoria de mulheres até 58 quilos, não esconde o que pensa enquanto espera pela luz e pela buzina que a avisam de que o tempo está sendo contado. Ela grita duas palavras.

"Segura!" e "Fica!", explicou com a ajuda de um intérprete. Quando ela segura e o peso fica, a atleta o deixa para trás com um olhar que pode ser compreendido em qualquer idioma: "Isso é tudo o que você tem para dar?".

Jackelina Heredia Cuesta, da Colômbia, é a única competidora que sorri quando o peso chega aonde ela espera que fique. E não é um sorriso sutil: ela fica radiante.

- Eu não posso chorar - afirmou com os ombros encolhidos - então, sorrio.

Será que também existe uma parte dela que deseja desequilibrar seus oponentes, fazendo com que vejam que ela não só está no controle, mas que também está se divertindo?

-Sí! - afirmou com uma risada.

O medalhista de ouro Om Yun-chol, da Coreia do Norte, foi à sala de imprensa logo depois de estabelecer um novo recorde mundial na categoria de homens com até 56 quilos, levantando 168 quilos no arremesso. Isso o deixou no restrito clube dos atletas que foram capazes de levantar mais de três vezes o peso de seu próprio corpo.

Ele foi cercado por membros da imprensa asiática e, em seguida, conduzido pelos organizadores britânicos a uma sala mais formal. Entretanto, pouco antes de ser levado até lá, ele foi questionado sobre o que se passa em sua cabeça quando estica os braços de forma triunfal, com o peso sobre sua cabeça.

Om refletiu por um momento e pôs o buquê da vitória de lado para poder demonstrar. Ele ergueu os braços acima da cabeça e sorriu.

- Eu penso comigo mesmo - afirmou Om, que pesa 55 quilos e tem cerca de 1,50 metro de altura - Eu acabo de levantar o mundo todo!

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