Do tiro ao pódio

A história de superação do gaúcho Jovane Guissone, medalha de ouro na Paralimpíada

Esgrimista desembarcou na Capital nesta terça e foi recepcionado por familiares e amigos

11/09/2012 | 21h57
A história de superação do gaúcho Jovane Guissone, medalha de ouro na Paralimpíada Diego Vara/
Atleta paralímpico foi surpreendido com festa na casa em Esteio Foto: Diego Vara

Às 11h, Jovane Guissone apareceu no portão de desembarque do Salgado Filho, de cadeira com a roda embandeirada com as cores do Brasil, o filho, Júnior, bebê de um ano, já em seu colo beijando a medalha de ouro que pendia do pescoço do pai.

Só sete horas depois Jovane chegou em casa completamente exausto, na Vila Primavera, periferia de Esteio. Abriu a porta e foi surpreendido com parentes e vizinhos em torno de uma mesa de salgadinhos sobre a qual saltavam balões verdes e amarelos e uma bandeira nacional onde se lia: "Um país muito nosso".

Pela primeira vez no dia, sete horas depois de homenagens, o campeão em esgrima na Paralimpíada de Londres, o homem que conquistou a medalha inédita neste esporte que o país pouco conhece, só então esse cara se emocionou.

Deixou de lado a imagem de um forte.

Jovane já havia encarado um périplo por Porto Alegre em carro de bombeiros, do aeroporto até o Quartel General da Brigada Militar, no Centro, viajado logo depois até a entrada de Esteio e percorrido uma vagarosa carreata depois de uma parada de discursos na frente da prefeitura e retomado a romaria a 10 km/h até chegar em casa na maior paciência de quem cumpriu com o dever.

- Acho mesmo que eu sou um persistente - admite o atleta.

Ele tem razão. Aos 29 anos, ele venceu a barreira da locomoção partindo todos os dias às 7h do número 56 da Rua Dalva de Oliveira, um trecho de chão batido com um pequeno aclive que ele supera em busca da parada do linha Antena-Petrobras. Para treinar na Brigada Militar, no Partenon, na Capital, ele começa o dia esperando o ônibus das 7h30min, adaptado para cadeirantes. Senão, só o das 20h30min. A caminho da parada, passa pela vila, cumprimenta os garotos que já o conhecem: ali vai um atleta.

- É o Jovane, esse louco é tri massa - o reconheceu ontem o menino Ueslei Fontoura, 13 anos, durante a visita do ídolo ao centro comunitário Território da Paz, do Parque Primavera.

Há três quadras da casa do herói, um lixão aberto dá ideia das dificuldades do local, de moradias irregulares e alguns casebres. Jovane ainda reside em uma das melhores habitações da vila. Há rampas que lhe facilitam o acesso e tudo parece girar em torno de sua necessidade, apesar da falta de espaço.

Nada disso parece problema ao atleta.

- Passei quase 40 dias em preparação e competindo em Londres, teve noites que não dormi, de tanta dor pelo excesso de treinos, de dedicação e, ao mesmo, de saudade da família - contou ele.

Retomemos a história de superação: depois do ônibus da linha Antena, Jovane conta com a ajuda dos funcionários da Trensurb para se deslocar até o Centro. Toma o Partenon e, depois, no quartel da BM, vê-se obrigado a vencer um inerme pátio de paralelepípedo até alcançar o local onde os paratletas de esgrima treinam:

- Passar por esse chão de paralelepípedo, puxando a cadeira de roda, é uma provação. Muitos desistiram do esporte devido a esse detalhe brutal.

São três horas de Esteio até o Partenon. Com tanta força interna, Jovane coleciona 30 medalhas nacionais e seis internacionais. O incentivo para isso vem dele próprio e dos amigos cadeirantes. Conta com ajuda de integrantes da Associação de servidores da área de segurança de portadores de deficientes (Asasepode) e com cadeirantes que exercem a esgrima.

O tiro, a depressão e a recuperação pelo esporte

A vida de Jovane Guissone mudou ao sofrer um tiro que se alojou em sua coluna durante um assalto. Desde o dia 19 de novembro de 2004, ele perdeu o movimento das pernas e deixou para trás a jovialidade de um rapaz que se criou na lida bucólica em meio aos 30 hectares da pequena propriedade da família, na linha Pinheiro, interior de Barros Cassal, município a 360 quilômetros de Porto Alegre. Pela criação de Jovane no dia a dia, é possível entender por que ele se transformou em um atleta de ponta, com as mãos de raquete e pesadas, maiores do que a de um goleiro, própria para o enfrentamento de espada na pista de esgrima.


Foto: Diego Vara

Desde criança Jovane e outros quatro irmãos e uma irmã trabalharam na colheita de fumo. Arrancava as folhas, amarrava-as e as colocava em fardos no forno. Após a secagem, classificava-as e conduzia nos ombros cachopas de 70 a 80 quilos encaminhados para a indústria.

– Desde pequeno ele "paleteou" fardos – atesta a mãe, dona Maria Iraci.

Tem mais: Jovane galopava o cavalo crioulo de nome Tubiano, apesar da pelagem baia. Cuidava da cabrita Pintada, da vaca de leite  Maninha , dos cachorros, porcos, galinha. Aos 20 anos, trocou a colônia por Canoas e conseguiu em emprego de açougueiro. Havia uma tradição de casa. O pai, Sebastião, já morto, trabalhava como açougueiro da região e espalhou a prática entre os filhos. Até hoje, o irmão mais velho, Luciano, lida com os cortes de carne. Mas Jovane desistiu da profissão. Foi trabalhar de segurança. Oito dias depois de largar o emprego, sofreu o tiro que o deixou paralisado. Segundo o registro policial, o caso foi considerado uma tentativa de homicídio, na qual um conhecido de Jovane era o alvo.

Passou um ano em depressão e tentando resistir na fase de recuperação. Foi quando conheceu a atual mulher, Queli, que lhe resgatou a confiança e o ajudou a acreditar a persistir. Queli trouxe uma menina, Amanda, hoje de 11 anos, com a qual formam uma família que Jovane por pouco pensou que jamais teria. Há um ano, eles tiveram o Júnior.

– O tiro me trouxe uma outra vida. É incrível: uma vida mais movimentada.

 
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