Os Donos da Bola

Jorge Machado e Gilmar Veloz: empresários dos milhões

Responsáveis pelas carreiras de grandes jogadores, os dois movimentam quantias astronômicas em negociações

Jorge Machado e Gilmar Veloz: empresários dos milhões Adriana Franciosi/Agencia RBS
Jorge Machado (E) e Gilmar Veloz (D) estão entre os maiores empresários do futebol brasileiro Foto: Adriana Franciosi / Agencia RBS

Pato, Luxemburgo, Tite, Carlos Eduardo, Fernando, Sobis, Guiñazu e Mário Fernandes – entre outros astros – confiam suas carreiras a Gilmar Veloz e Jorge Machado. São empresários que movimentam quantias astronômicas. Prevendo futuros negócios, eles sustentam cerca de 80 garotos só nas categorias de base da dupla Gre-Nal.

No casarão de dois andares onde mantém seu escritório, na zona mais nobre de Porto Alegre, o empresário Jorge Machado interrompe a entrevista para atender ao telefone. É o pai de um garoto de 17 anos.

– Parabéns pelo filho, seu Nilson. Vamos jantar na semana que vem, sim – e, quando desliga, é questionado pela reportagem sobre quanto gastará para obter a procuração do rapaz, um lateral promissor.

– Acho que uns R$ 30 mil ou R$ 40 mil. Talvez um carrinho para o pai – calcula ele, para refletir em seguida: – Somos uma empresa que precisa de mercadoria para vender.

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Ex-empacotador de supermercado, filho de um pedreiro e de uma dona de casa, Jorge Machado foi servente de obras e chegou a dormir em rodoviária quando saiu de Erechim, aos 15 anos, para fazer teste no Grêmio como jogador. Hoje, dorme em uma mansão com meia dúzia de suítes, dirige um Mercedes-Benz e um Cadillac Escalade, embora ainda sinta falta da Ferrari que tinha e achava “dura de andar”.

No futebol, é o maior empresário do Estado (e um dos maiores do país) ao lado de Gilmar Veloz – este, um uruguaianense que se aproximou dos jogadores frequentando o pátio do Beira-Rio para vender carros, nos anos 1980.

O zagueiro Célio Silva, por exemplo, percebendo a habilidade do vendedor para negociar, pediu a ele que o representasse na renovação de contrato com o Inter.

– Se o atleta queria um salário de R$ 5 mil, eu pedia R$ 15 mil para o dirigente do clube. No fim, fechávamos por R$ 12 mil, e o jogador, pulando de alegria, me elogiava para o resto do time. Um ia falando para o outro – relembra Veloz, citando valores irrisórios perto das cifras milionárias de hoje.


Jorge Machado em seu escritório
Foto: Adriana Franciosi

Mas o esquema sempre foi o mesmo: o empresário negocia o melhor contrato possível para o atleta e cobra, no mínimo, 10% do valor acertado. Alexandre Pato, atacante do Milan agenciado por Veloz, recebe R$ 10,5 milhões por ano. Calcula-se que o empresário embolse – apenas com Pato, sem falar em Guiñazu, Moledo, Leandro, Tite, Vanderlei Luxemburgo, entre dezenas de outros clientes – o equivalente a R$ 87,5 mil por mês. Ou R$ 1 milhão por ano.

Não significa que a vida seja fácil. Até encontrar um Pato, a principal ocupação dos empresários é administrar uma espécie de banco de apostas que, com frequência, dão errado.

– Já perdi várias casas. Por exemplo: dou uma residência para a família de um guri de 12 anos, que nem banheiro tinha, e aos 16 ele resolve tomar outro rumo, não vinga no futebol. E aí? Não tenho como pegar a casa de volta – analisa Veloz.

O risco é justamente esse. Para garantir o vínculo com um adolescente de família pobre, com aparente potencial para se tornar um grande jogador – e um grande chafariz de dinheiro –, o investimento inicial é um tiro no escuro. Jorge Machado gasta pelo menos R$ 300 mil mensais com cerca de 200 meninos que ele ajuda a sustentar pagando aluguel, médico, dentista, roupa, chuteira. Como a legislação só permite que o garoto assine contrato após os 16 anos, tornou-se inevitável conviver com os “ladrões de jogador”, como Machado chama alguns figurões da concorrência.

Não faz muito tempo, o empresário italiano Mino Raiola, procurador do sueco Ibrahimovic, tentou arrancar de Machado o vínculo com o atacante gremista Yuri Mamute, hoje com 17 anos. Raiola ofereceu R$ 200 mil à família do garoto – e Machado cobriu esse valor para manter a procuração do atleta, que desde os 11 anos é sustentado com sua ajuda.

– Tem também o Marlon (volante de 18 anos das categorias de base do Inter). Dei uma casa de três cômodos para o pai dele quando tentaram levá-lo para o Santos – conta o empresário.

Ao negociar com as famílias, esperto que é, Machado pediu 40% dos direitos econômicos de Marlon e Mamute. Ou seja, quando um desses jogadores for vendido pelo Inter ou pelo Grêmio, 40% serão do empresário – e, dependendo do valor das transações, a casa de três cômodos e os R$ 200 mil vão virar ninharia.

– No caso do Mário Fernandes (ex-lateral do Grêmio, vendido este ano para o CSKA Moscou, da Rússia), eu havia comprado 50% dos direitos econômicos por R$ 1 milhão. A venda só da minha parte, que dividi com alguns investidores, rendeu R$ 18 milhões – orgulha-se Machado.

A vida e os negócios movimentados

Especialista na multiplicação de dinheiro, Machado já fez negócios com Rivaldo, Raí, Gamarra, Paulo Nunes, Rafael Sobis, Rentería, Índio, Marcos Assunção e, embora jamais confirme este número, comandou mais de 10 mil transações ao longo da carreira. Hoje, aos 50 anos, não viaja tanto quanto antes – dorme só quatro horas por dia porque precisa atender a telefonemas do mundo inteiro, nos mais diversos fusos horários, mas consegue dispensar mais tempo para a mulher, Marise, e para os filhos Cauê, 26, e Pâmela, 20, todos funcionários do seu escritório.

Não é o caso de Gilmar Veloz, 55 anos. Um dos principais interlocutores do Brasil com o futebol europeu, Veloz passa a metade do mês longe de casa, compra roupas em aeroporto, evita despachar bagagem para ganhar tempo, tem uma pilha de 15 passaportes preenchidos – nenhum dura mais de dois anos com ele.

– Sempre tenho um negócio para fechar. Agora a Europa está em crise? Então é agora que vou lá: vou oferecer jogador mais barato, vou mostrar que o verdadeiro amigo é o que está junto na hora do apuro, não só na boa – empolga-se Veloz, para depois reconhecer que só trabalha, que nunca tirou férias, que não vai ao cinema, que não viu crescer a filha Bárbara, de 26 anos, nem o filho Gilmar, de 15.


Gilmar Veloz em seu escritório.
Foto: Diego Vara

Há mais de 20 anos, são sempre os mesmos hotéis. Veloz chama todos de “segunda casa”, conhece pelo nome as camareiras em Milão, Madri, Paris e Lisboa. E admite que a solidão o assalta com frequência nos aposentos cinco estrelas.

Durante a entrevista de três horas que concedeu a ZH, só interrompeu a conversa para atender um telefonema. Não era trabalho: era a mulher, Zulma, que ele chama de Zulminha, pedindo socorro porque seu carro havia superaquecido na rua. Veloz se pôs a mobilizar funcionários, fez duas ligações e resolveu o problema. Parece claro que o convívio minguado com a família o angustia.

Enquanto narrava a sua vida, Jorge Machado também revelava uma culpa. Começou dizendo que desistiu de colecionar relógios porque “é coisa de novo rico”:

– Eu era meio idiota quando fazia esses troços.

Depois, ao lembrar da infância pobre em Erechim, ressaltou um suposto “cunho social” do seu trabalho – disse que ajuda os garotos a encontrar seus caminhos. Todo mês manda entregar, em vilas paupérrimas de Porto Alegre, 300 cestas básicas a famílias que o futebol nunca resgatará da miséria. Ex-pobre, o rico Machado parece sentir um fardo pelo passado.

Expoentes de um mercado tão glamourizado como obscuro, Machado e Veloz – que mantêm olheiros pelo Brasil todo em busca de novos talentos – reclamam de como os empresários são malvistos no Brasil.

– É o único lugar do mundo onde nos tratam como um problema. Somos vistos como exploradores, muito por causa de vocês, da imprensa. O jogador vai embora, dizem que “foi coisa do empresário”. Mas quando o empresário viabiliza a vinda de um jogador, ninguém diz nada. Quando ajuda um clube, descobre um craque, ninguém diz nada – protesta Veloz.

Machado tem outra visão:

– Nossa profissão é malvista porque poucos são sérios. Tem muito picareta mesmo.

 
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