Capitais da Copa - Recife

Obras da Copa avançam em Recife, mas população sofre com desapropriações

Vários moradores removidos dizem ainda não ter recebido indenizações após deixarem imóveis

Obras da Copa avançam em Recife, mas população sofre com desapropriações João Velozo/Divulgação
A cerca de dois quilômetros da Arena Pernambuco, em Camaragibe, cidade localizada entre Recife e São Lourenço da Mata, dezenas de moradores foram removidos por conta das obras do Mundial Foto: João Velozo / Divulgação

A cerca de dois quilômetros da Arena Pernambuco, em Camaragibe, cidade localizada entre Recife e São Lourenço da Mata, dezenas de moradores foram removidos de suas casas por conta de obras do Mundial.

Para várias famílias que saíram do Loteamento São Francisco, que dará lugar a um terminal de ônibus e ao novo acesso ao estádio, isso significa muito perrengue: vários moradores dizem não ter recebido as indenizações, cujo valor não é alto, devido a entraves burocráticos.

Orçado em R$ 46 milhões, o trecho externo do Ramal da Copa será a nova rota ao estádio e está entre as principais obras de mobilidade para o Mundial em Pernambuco. Hoje, o estádio só tem acesso pela BR-408. Entre as dificuldades legais dos moradores, estão a necessidade de inventários, de comprovantes da titularidade do terreno e de dívidas em impostos.

— Há pessoas que saíram sem receber um centavo e ainda não têm para aonde ir — conta Edjane Ribeiro, que até agora recebeu 40% do valor das benfeitorias de sua propriedade.

Com pouco dinheiro, Edjane está morando de aluguel com a mãe numa casa bem inferior à antiga, pagando R$ 300 ao mês. Um agravante dos casos de Camaragibe é que vários imóveis foram construídos em área pública e assim o governo é obrigado a pagar apenas pelas benfeitorias.

A Procuradoria Geral do Estado de Pernambuco (PGE) diz que, em relação aos processos administrativos de desapropriação dos imóveis, foi feito o pagamento integral de todas as indenizações. Já quanto aos processos judicializados há 11 casos em que não houve o pagamento de nenhum valor indenizatório devido aos entraves legais. Esses processos geralmente envolvem mais de uma família.

O Comitê Popular da Copa PE, organização civil que luta por políticas públicas de qualidade, discorda da PGE e diz que o número de desamparados é bem maior: ao menos 200 famílias foram desapropriadas no Loteamento São Francisco e, no último levantamento feito, menos da metade tinham recebido mais de 80% do valor da indenização.

— Famílias estão ganhando menos de R$ 30 mil pelas casas, o que não dá para comprar residência em lugar nenhum. Saíram da condição de proprietárias para a condição de aluguel — explica Rudrigo Rafael, um dos coordenadores do Comitê Popular da Copa PE.

Após protestos, órgãos do governo do Estado estudam um plano de atuação para contemplar as pessoas em situação de vulnerabilidade com o recebimento do auxílio-moradia e maior parte da indenização devida. Porém, até agora nada está acertado e muitos ex-moradores vêm sofrendo com problemas emocionais.

Adjailma Pereira da Silva recebeu o dinheiro pela casa, mas acredita que a notícia de que iria ter de sair agravou um câncer do marido, que faleceu na última sexta-feira (28). O Comitê Popular da Copa PE calcula que ao menos oito pessoas do Loteamento São Francisco morreram devido aos desdobramentos do anúncio de que seriam desapropriadas.

Todos os valores das indenizações já foram depositados nos processos judiciais e dependem apenas da liberação dos mesmos.

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