De Fora da Área

Opinião: mudar para não mudar na Seleção

A escolha de Dunga para dirigir a Seleção Brasileira é mais do mesmo

Os anos passam e o futebol brasileiro não se cura da "saudosite". Se existisse, essa palavra significaria uma espécie de inflamação de nossa memória afetiva. Queremos repetir o que passou mesmo que as circunstâncias sejam outras e os personagens já não sejam mais do jeito que foram um dia. Foi assim em 1974, quando insistimos em replicar a Seleção de 70 sem qualquer tipo de atualização. O treinador Mário Zagallo nem se preocupou em ver o que havia mudado em volta. Eles é que precisavam se preocupar com a gente. E fomos surpreendidos por um futebol moderno, na época, foi a Holanda quem fez suco do Brasil.

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Em 1982, nos encantamos com a Seleção que ganhava e brilhava. Por essas coisas da bola, um belo dia ela não venceu e espirrou da Copa. Quatro anos depois, repetimos o treinador e insistimos com alguns jogadores quatro anos mais velhos também. O único fato que se repetiu foi a decepção. O ciclo da Copa de 2014 se configurou em uma das crises mais agudas de "saudosite". Na ânsia de ganhar em casa, convocamos aqueles comandantes que mais se assemelhavam com a palavra vitória. Felipão, o homem da última vitória em 2002, e Parreira, o sujeito da penúltima em 1994. Só não chamamos Vicente Feola e o Marechal da vitória de 1958 Paulo Machado de Carvalho porque eles não estavam mais entre nós. E deu no que deu, nem precisamos recorrer aos 7 x 1 para medir o tamanho da nossa decepção.

Talvez fosse o momento de parar, dar um control-alt-del na nossa forma de pensar e olhar para frente. Pensar no que queremos ser lá na frente e não tentar repetir o que já fomos. Poderíamos romper fronteiras e recorrer as boas experiências internacionais. Talvez isso fosse exigir demais dos atuais manda-chuvas do futebol brasileiros, tão afeitos ao passado e tão simpáticos ao conceito de que "com brasileiros, não há quem possa". Nada de nomes alienígenas, estrangeiros, ninguém que não tenha o português como língua nativa.

A escolha de Dunga para dirigir a Seleção Brasileira é mais do mesmo. Não que Dunga seja um mau treinador, pelo contrário. O time mais competitivo do Brasil nos últimos anos foi o seu. Entre 2009 e 2010, a Seleção Brasileira assustava os adversários mesmo sem contar com jogadores foras-de-série. Tinha, sim, um Kaká, um ótimo meia, mas não dispunha de Ronaldos, Romários e Neymares, o que é diferente. Apesar da inexperiência, Dunga conseguiu dar liga em um grupo mediano e só não foi mais longe na Copa de 2010 justamente porque faltou rodagem para administrar crises.

Pois no momento da maior crise das últimas décadas -- os vergonhosos 7 x 1 vão ficar marcados no lombo por muito tempo -- Dunga foi chamado de novo. Na incapacidade de encontrar novas alternativas, buscamos uma antiga que, ainda por cima, deu um resultado apenas mediano. Na dúvida, folhamos nosso livro de trás para frente. O novo nos assusta. Dunga pode até fazer um bom trabalho, mas a lógica de sua escolha desanima. Não conseguimos olhar para frente, é sempre um mudar para não mudar.

* De segunda-feira a sábado, a seção De Fora da Área debate futebol e outros esportes, com novos nomes e ideias em Zero Hora.

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