De Fora da Área

Rafael Diverio: quanto vale uma calça jeans?

A loucura que fiz para ver ao vivo o Real Madrid, o clube mais vencedor do mundo

As 109 mil pessoas que foram assistir a Real Madrid e Manchester United nos Estados Unidos ajudam a confirmar que uma das maiores loucuras que fiz na vida não foi em vão, na única vez que vi o clube espanhol, maior vencedor da história do futebol, ao vivo em um estádio. E acho que nunca mais terei um dia tão louco.

Era semifinal da Liga dos Campeões de 2003, jogo de volta entre Real Madrid e Juventus. O início dos galácticos, com Ronaldo, Figo, Zidane, Raúl. A partida de ida havia sido 2 a 1 para os espanhóis. Em Turim, bastava o empate. Morava na Itália na época, fazendo intercâmbio com o AFS. Como era perto do meu aniversário, meus pais me deram um presente. Eu podia gastar até 60 euros para comprar o ingresso de cambistas, já que as entradas originais haviam se esgotado em minutos.

No dia do jogo, fui para a frente do velho Delle Alpi atrás do bilhete. Enquanto caminhava, ouvi alguém gritar "sessanta", que é 60, em italiano. Encontrei o senhor que falou e disse que queria comprar. Ele respondeu, "ok centosessanta" (160). Quase o triplo do meu orçamento.

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Quando estava lá, circulando, frustrado, vi um grupo de torcedores montar nas grades e pular para dentro do estádio. Mas nem passava pela minha cabeça essa ideia. Segui caminhando e outro grupo pulou. Comecei a pensar na ideia. Um pouco mais adiante, mais gente invadiu. Nisso, eu já estava cheio de coragem. Foi então que uma menina, digamos, gordinha, de salto fino e alto correu e saltou. Ali foi a senha. Montei na grade e me preparei para voar, quando um policial me olhou. Perguntei se ele não me prenderia. 

— Eu? Non me ne frega un cazzo! Mas toma cuidado com os caras de colete amarelo, do staff.

Pulei.

O problema foi o barulho que veio junto com a queda. O vento no meu traseiro só denunciou o que eu já suspeitava. A calça tinha ficado presa na grade e rasgou inteira. Fiquei de bunda de fora.

Corri para dentro do estádio e só solucionei já nas arquibancadas, quando amarrei um casaco na cintura. Até hoje não sei por que tinha o casaco, já que estava um calorão porto-alegrense nos alpes italianos.

Pouco depois, outra confusão. Uma bandeira caía na nossa frente, tirando a visão. Subi nos ombros de outro torcedor que me deu um cigarro. Furei a bandeira, enrolamos e amarramos com um cadarço de alguém. Minutos depois, um cara enorme veio em nossa direção perguntando quem tinha enrolado a bandeira da torcida organizada. Um grupo meio que se acusou e começou uma pancadaria louca. Que acabou em seguida, quando o cara fortão saiu correndo.

A bola rolou, e a Juventus venceu o Real por 3 a 1, para meu duplo desgosto, enquanto torcedor do Torino e dos merengues.

Mas certamente paguei menos de centossessanta euros. Afinal, quanto custa uma calça jeans?

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