Entrevista

"Voltou o orgulho de ser torcedor do Juventude", avalia o presidente Roberto Tonietto

Sem garantir permanência em 2017, mandatário falou sobre a temporada e o acesso à Série B

Por: Maurício Reolon
14/10/2016 - 06h04min | Atualizada em 14/10/2016 - 06h05min
"Voltou o orgulho de ser torcedor do Juventude", avalia o presidente Roberto Tonietto Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Tonietto relatou a emoção ao ver a festa de jovens torcedores após a conquista do acesso Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Quando foi confirmado como presidente do Juventude, ao final de 2015, Roberto Tonietto deixou claro que seu principal objetivo ao assumir o cargo era sanar o déficit financeiro do clube. O acesso para a Série B era a outra prioridade, apesar das dificuldades previstas para a temporada.

Passados dez meses, Tonietto não esconde a felicidade. O empresário de 50 anos diz que vivenciou sensações indescritíveis com a conquista do último final de semana, em Fortaleza. Foi a coroação de um trabalho bem feito, dentro e fora de campo. Com uma folha salarial de cerca de R$ 350 mil mensais, o time alcançou sua meta principal, chegou a final do Estadual e ainda está vivo nas Copa do Brasil, contra o Atlético-MG. Porém, nada supera o momento do retorno ao Jaconi após o acesso à Série B garantido. A grande festa mexeu com o mandatário.

– Não imaginava que o futebol despertava tanta paixão e emoção. Não tinha essa ideia. Sou uma pessoa mais fria, da razão, mas aí não tem jeito, a emoção toma conta. Em Fortaleza, eram 64 mil pessoas no estádio torcendo e quando fizeram o gol parecia que viria abaixo. Naquela situação vem as lembranças do ano, as dificuldades financeiras e o esforço. No final, cumprimos nosso grande objetivo.

Na sede da sua empresa, Tonietto falou sobre como é ser um empresário no meio do futebol Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Tonietto não garante que fica no cargo para 2017. Mas vê o clube estruturado para a Série B e acredita que a boa administração deixará frutos importantes. Confira os principais trechos da entrevista:

A realidade da Série B
– Foi importantíssimo esse acesso. Até porque quando assumi como presidente as condições financeiras eram bem difíceis e continuaram assim durante o ano todo. Fizemos um planejamento, uma repactuação das dívidas, mas Série C e Série D são deficitárias, por mais que se corte despesas. Especialmente pela estrutura do Juventude, que tem CT, tem base. É diferente da estrutura da maioria dos clubes da Série C, que têm estádios da prefeitura e não tem base. O acesso para a Série B significa que o clube pode voltar a ter um equilíbrio financeiro e até, daqui a pouco, ser superavitário.

Novos horizontes
– Teremos muitas novas oportunidades, de patrocínios, de venda de atletas. Colocaremos nossos guris em 38 jogos televisionados para o Brasil e o mundo. Até mesmo a captação de atletas para jogar a Série B é muito mais fácil. Clube grande da Série A que não vai utilizar um jogador passa para nós a custo zero ou menor. Facilita muito. Além da questão de trazer torcida, o que é notório. Na festa que tivemos na segunda-feira, do aeroporto ao estádio, deu para ver muitas crianças, muitos jovens que talvez nunca tivessem participado de uma celebração como essa com o Juventude. Motiva mais. Voltou o orgulho de ser torcedor do Juventude.

Empresário no futebol
– Em uma empresa você faz o orçamento e ele pode sair 10, 15 ou 20 por cento da curva. No futebol é tudo diferente. A impressão que tive neste ano é que existe a linha de céu e inferno muito próxima. Contra o Tombense, perdemos e todos achavam que estávamos fora. Era o inferno. Três semanas depois, volta para o céu. Se perdesse em Fortaleza, estaria de novo no inferno. Depende do resultado do jogo.

Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS


Fora do vestiário
– Eu tive muitos aprendizados. Dentro do vestiário, no qual eu não militava antes, tem algumas particularidades. Eu nunca me envolvi em contratação de atletas, escalação ou nada do tipo. Foi feito um orçamento no início do ano e passado ao departamento de futebol. Dentro disso, contrata, dispensa, façam o que quiserem. Raramente participei de alguma definição. O que fiz no vestiário foi, em quatro ou cinco vezes, ter conversas com a comissão técnica ou atletas. Mas não sobre tática, para passar tranquilidade, como quando perdemos as três seguidas. Na palestra antes do Fortaleza, da mesma forma. É o que faço na empresa. Não me envolvo nas áreas, mas em alguns momentos, o presidente precisa entrar para mostrar que está junto.

Sem vender os garotos
– Recebemos sondagens e propostas. Especialmente na Série C, antes de fechar a janela do exterior e para atletas considerados importantes no nosso time. Ponderamos se era melhor colocar o dinheiro no caixa ou mantê-los, buscar o objetivo e depois tentar uma negociação melhor. Se nós tivéssemos apertados, com salário atrasado, provavelmente a decisão seria colocar as coisas em dia. Como houve o planejamento, decidimos que eles ficariam para buscar o acesso.

Acréscimo financeiro
– Eu estimo, entre cota maior do Gauchão, televisionamento, receita com rendas e patrocínios, um aumento de 60% na receita do clube. Inclusive, já começamos, por ter esse novo cenário, a iniciar o orçamento do ano que vem, independentemente de quem estiver no comando. Todas portas se abrem. Temos todas as negativas, e o Banrisul foi nosso parceiro nos últimos anos e vamos levar isso em conta. Com certeza, vamos buscar patrocínios. E não só a Caixa. Tem uma outra situação de visibilidade. Muda completamente.

Tamanho da dívida
– Hoje nós temos o Profut, que a princípio está resolvido. Nossa dívida, entre questões trabalhistas, cíveis e fornecedores, está em torno de R$ 8 milhões. Na Série B, a nossa dívida, olhando de forma empresarial, é metade da receita do ano que vem. É algo que dá para administrar, mas tem cuidados. Claro que não tem como usar toda receita, o clube cai e volta na estaca zero. Teremos que trabalhar com essas questões.

Presidente Tonietto recebeu a capa do Pioneiro de segunda-feira, após o acesso, emoldurada Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Passivos que atrapalham
– É difícil porque o clube, desde que caiu para a Série C, acumula prejuízos mensais. E isso não é culpa dos antigos presidentes. As receitas das Série C e D não cobrem os custos do Juventude. Aconteceu o endividamento e temos que trabalhar com ele. São questões trabalhistas, judiciais, do dia a dia. Procuramos renegociar, alongar isso. Com o acesso, teremos uma receita maior, até avalio que a despesa não aumentaria muito quanto ao clube. Então, acredito que a partir do ano que vem possamos ter um superávit, uma folga financeira para, aos poucos, acertar o passado. É coisa para três ou quatro anos.

Dia a dia
— Confesso que não estive muito tempo do clube. Várias vezes despachava da empresa. Teve um lado muito bom de conviver com as pessoas. O mais recompensador foi ver a alegria na volta de Fortaleza. Isso não tem preço. Olhar as crianças, a satisfação de subir. Ontem (quarta-feira), fomos ao Santuário de Caravaggio, eu, o Zago, o Jones Biglia e outros dirigentes. Quando chegamos, veio um pai com uma criança, que tinha dificuldade para falar. Ela demorou 30 segundos, mas pausadamente disse: obrigado pelo acesso. Foi de cortar o coração.

Segue no cargo?
– A pressão é grande, mas não é hora de falar sobre isso. Ainda estamos em duas competições. Mas o meu mandato encerra no dia 31 de dezembro e é muito complicado para mim tocar a empresa e o clube. Tem uma estrutura, um quadro muito bom para continuar.

Estruturado para a B
– O Juventude está estruturado para a Série B. Acredito que o time deveria se manter na B por dois ou três anos para se estruturar mais, mas é preciso buscar objetivos novos. Quem sabe, ano que vem apareça uma chance e não vamos perder. O extra vai depender da torcida e dos sócios. Esse salto de quatro para sete mil associados e ter públicos maiores no estádio podem ser o fiel da balança para o próximo ano. O resto vai andar. Esse é o plus que não depende da diretoria. Teremos 38 jogos na Série B, sendo 19 em casa.

 
 
 
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