
Richard Ferreira do Nascimento, no alto da inocência dos seus sete anos, atendeu rapidamente ao convite da mãe para que a acompanhasse no início da tarde à Arena Condá. Vestiu a camiseta da Chapecoense, a bermuda jeans novinha e chinelos. Antes de sair, ainda colocou a bola sob o braço. Estava pronto para repetir numa terça-feira o ritual do seu programa preferido de domingo, quando vai torcer pelo time do coração com o tio.
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Mal imaginava Richard que a tarde no estádio estava longe de ser festiva. Tampouco haveria clima para bater bola até o jogo começar, como sempre fazia. Ao chegarem ao estádio, no outro lado da cidade, ouviu da mãe, Maristela, a razão pela qual estavam no cimento da Arena Condá.
– Richard, a gente não veio para ver o jogo. Os jogadores da Chapecoense faleceram em um acidente de avião.
– Eles vão jogar, sim – rebateu o guri, com a voz firme, em um ato de defesa.
Richard reagiu, ao seu jeito, da mesma forma que os cerca de 200 mil habitantes de Chapecó. Como todos eles, recusava-se a acreditar no desastre aéreo e na morte de um time cuja existência se confundiu com a da comunidade. Frequentar a Arena Condá com o tio havia virado sinônimo de festa e de uma alegria que contagiavam o Oeste catarinense. As vitórias e a ascensão vertiginosa da Chapecoense eram uma forma de a cidade mostrar ao mundo a prosperidade de quem cresceu na lonjura e na terra vermelha de uma região distante dos grandes centros.
Sem os ídolos em campo, sem o bate-bola de antes dos jogos, Richard fechou o cenho. Pediu para ficar sozinho. Maristela, com a sensibilidade que só as mães têm, atendeu ao pedido e se afastou alguns metros. Foi neste momento que, à distância, percebeu a aproximação do fotógrafo Nélson Almeida, da Agência France-Presse (AFP). Nélson enquadrou Richard, fez alguns registros e seguiu à frente.
– Fiquei surpreso com a repercussão que a foto teve, pois foi um flagrante simples. Estava na Arena Condá andando pelas arquibancadas e fotografando a reação das pessoas, quando vi esse menino num lugar da arquibancada mais vazio. Fiquei observando o menino por um tempo e fiz uma foto. Ele notou a minha presença e ficou me olhando. Disfarcei, virei de costas como se fosse embora, e voltei a olhar pra ele e nesse momento ele estava de cabeça baixa, pensativo. Fiz dois disparos e saí para outro lugar – conta o fotógrafo.
Maristela não imaginava que naquele momento a dor de Richard viraria um dos símbolos de uma das maiores tragédias do futebol mundial. Horas depois, a foto de Nélson entrou no sistema de distribuição da agência e espalhou-se pelas redações mundo afora. Na redação de Zero Hora, o editor de fotografia, Jefferson Botega, topou com ela no seu monitor por volta das 15h Ficou impactado com a força da imagem. Tanto que vidrou-se na tela por mais um minuto até que decretasse: é a foto da capa. Outros jornais seguiram esse caminho também. No Brasil, O Globo abriu-a no alto da primeira página. Os diários esportivos AS, de Madrid, e A Bola, de Portugal, ocuparam a capa inteira com a dor de Richard. A imagem também ilustrou a capa do requintado português Público em suas edições para as cidades de Lisboa e do Porto.
Maristela, a mãe, colocou a foto no topo de seu perfil no Facebook. Não gostaria de ver seu pequeno Richard tão triste. Mas a sinceridade do seu sentimento a reconfortou. E comoveu o mundo.
*ZH ESPORTES