Só no migué

Fenômeno no Facebook, O Boleiro conquista fãs do futebol e atletas profissionais

Caxiense Fagner Lima da Silva criou personagem para retratar a marra dos boleiros de final de semana

Por: Adão Júnior
17/03/2017 - 16h05min | Atualizada em 19/03/2017 - 14h29min
Fenômeno no Facebook, O Boleiro conquista fãs do futebol e atletas profissionais Marcelo Casagrande/Agencia RBS
Bufada é a comemoração criada por Fagner para os vídeos do Boleiro Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS  

Ele é um fenômeno de audiência no Facebook e está começando a bombar no YouTube. Não se apresenta como humorista, mas é engraçado. Também não usa o termo youtuber, mas tem milhares de seguidores. Caxiense de 26 anos, nascido no bairro Jardim América, Fagner Lima da Silva criou um personagem que vem fazendo muito sucesso entre os amantes do futebol, incluindo atletas profissionais, torcedores e crianças. De seis meses para cá, virou celebridade instantânea como O Boleiro.

— Sempre joguei bola. Nunca fui profissional, mas jogava na várzea, em torneios e tal. E aí eu via os boleiros metendo a passada, como eu falo nos vídeos, fazendo aquela marra toda e aquela resenha. E confesso que ficava brabo com isso. Teve uma época até que parei de jogar porque era demais. Os caras não tinham jogado em lugar nenhum, não pagavam a quadra, jogavam nas custas dos outros e ainda metiam a passada. Aí, um dia eu estava em casa e falei para a minha namorada que ia fazer um vídeo zoando os boleiros, mas no bom sentido, sem ofender ninguém. Coloquei uma foto no Face e avisei do personagem novo. Na hora já me veio o nome O Boleiro — conta.


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As ideias foram surgindo com a ajuda de amigos e o projeto tomou corpo:

— O primeiro vídeo que eu larguei no Face era O Boleiro chegando da Europa, uma apresentação do personagem. Teve umas mil visualizações, só os amigos do Face mesmo. Isso no meu Face pessoal. Gravei pelo celular no meu quarto, e não podia errar, porque não sabia editar nem nada. Usei um sotaque carioca, paulista e assim fiz o segundo vídeo, depois o terceiro, até que fiz um que teve 10 mil visualizações. Pô, aí fiquei feliz, me adicionaram como amigo e resolvi fazer a página do Boleiro no Face.

Os vídeos publicados no Facebook já tiveram 4 milhões de visualizações e retratam em sua maioria histórias sobre os peladeiros de final de semana. Tem o cara que diz que joga muito e chega na hora e não joga nada, tem o boleiro que se arruma todo, coloca camisa do PSG, passa perfume, arruma o cabelo e no primeiro toque na bola já faz um fiasco, ou tem o jogador que garganteia que não sente a pressão, que resolve o jogo quando quer e acaba desmaiando.

— O primeiro público do O Boleiro é o pessoal da minha idade, faixa etária de 23 a 35 anos, que são as pessoas que entram mais no Face e tal, mas agora estou atingindo também muito o público infantil no Youtube. Estou no começo ainda, tem muita coisa para acontecer — acredita Fagner.

Mas dá para dizer que aconteceu muita coisa para quem está no ar apenas há seis meses. Parcerias comerciais, um cachê ali, outro lá, convite para eventos, camisas personalizadas com frases usadas nos vídeos, fotos e gravações com boleiros de verdade, citações de celebridades no Instagram, convite para fazer teatro e até pedido de autógrafos e fotos.

— Fui convidado para um jogo de final de ano em Farroupilha, com o Sandro Sotilli, Iarley, Dinho, Rivarola e outros ex-jogadores. Daí começaram a gritar Boleiro, Boleiro, Boleiro, e veio um garoto de uns 15 anos me pedir autógrafo. Nem acreditei.

Paixão por música e futebol


Meia Wallacer virou ator coajduvante durante as gravações do Boleiro no Juventude Foto: Felipe Nyland / Agencia RBS

Antes de estourar como O Boleiro nas redes sociais, Fagner trabalhou com música. Fez tatuagens, participou de algumas bandas, dançou nos palcos e agitou a galera em shows na noite de Caxias do Sul.

— Eu joguei bola um tempo e vi que o futebol não ia dar para mim, então fui para a música. Era percussionista, e às vezes dançava uns axés. O grupo que caminhou mesmo e que fizemos shows e gravamos música em São Paulo, foi o grupo de samba e pagode Sem Razão, que continua até hoje. Mas uma prima minha, a Suelen, sempre me disse que eu tinha uma veia artística, que tinha que fazer alguma coisa sozinho. Foi ela que me mostrou alguns vídeos, alguns youtubers. Ela e a minha irmã.

Agora, Fagner se dedica exclusivamente ao Boleiro e está finalizando um roteiro de uma peça de teatro:

— O Boleiro indo para o teatro vai fazer com que isso tudo cresça ainda mais. Um dia eu falei no Face que estava pensando em fazer o Show do Boleiro e choveu convites. Uma produtora de São Paulo entrou em contato, teatros de algumas cidades, como Rio Grande, por exemplo, querem fazer o primeiro show e por aí vai. Mas não temos pressa, não estamos correndo atrás de nada. Isso é o mais legal: as coisas e os convites é que estão vindo até nós.

Um deles veio dos Estados Unidos, de um brasileiro que tem uma escolinha, e outro tem relação com a música que ele usa:

— O MC Shevchenko me convidou para gravar o clipe de uma música que ele vai fazer para O Boleiro. Vai ser lá em Recife. É que eu uso nos meus vídeos a música "Só no migué", que é dele, e ele curtiu, me agradeceu pela moral.

Os parças

Cinegrafista Éverton dos Santos, o Lima, é o braço direito Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Como diz o Neymar, "tem que ter os parças por perto." E um dos principais parças de Fagner é Everton dos Santos, o Lima, cinegrafista que dá vida ao Boleiro.

— O Everton Santos é o meu braço direito, meu irmãozão mesmo. Às vezes vem uma ideia e chamo ele. Uma vez passei na casa dele umas 7h30min. No início, era só no celular e no meu quarto, depois arrumei uma câmera com o meu pai. Aí um amigo me mostrou um programa de edição, entrei nos tutorias do YouTube e comecei a elaborar mais os vídeos.

Everton é o primeiro a rir:

— A do desmaio foi a mais engraçada, ficou muito legal. Não me aguentei. A história é que ele chegava com um amigo para jogar e dizia que não dava bola para pressão, que sentir pressão era coisa de juvena. Aí no jogo ele fica no banco, o treinador chama e ele finge que não ouviu. Quando ele entra, começa a pipocar, perde gol na cara e depois, quando está mais cansado, desmaia.

Honrando a passada da boleiragem de verdade

Gravação no Estádio Centenário teve a participação de Nicolas Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

A fama do Boleiro chegou de forma rápida aos clubes e atletas. Quase todos os jogadores de Caxias e Juventude, Grêmio e Inter, por exemplo, já curtiram os vídeos do personagem. Frases como "Honrando o dom da passada", "É noix, papai", "Só tapa fácil", "Quem corre é a bola" são faladas nos vestiários profissionais e nas peladas de final de semana dos amadores.

Agora, o patamar está começando a subir de nível. Para quem lembra de jogadores como Neymar e Cristiano Ronaldo fazendo dancinhas do Ai, se eu te pego, de Michel Teló, logo vai poder ver o mesmo com O Boleiro. Mas não é dança e sim uma comemoração característica nos vídeos:

— É a Bufada. Quando faço gol sempre meto a bufada (na foto maior). O Alerrandro, da seleção sub-17, meteu gol e fez a bufada no Sul-Americano da categoria. E como tem o prêmio Bucha, da RBS TV, dos gols mais bonitos, criei o prêmio Bufa (risos).

Tirando jogadores da dupla Ca-Ju, como Wallacer e Nicolas, ou de Grêmio e Inter, já tem craques jogando na China metendo a passada dele.

— Um amigo disse que o Marinho, aquele que era do Vitória e hoje está na China, tinha postado a frase "honrando a passada". E aí mandei uma mensagem, ele respondeu e disse que era para todo mundo curtir o Boleiro. E a página explodiu.

Ficha técnica
O Boleiro: Fagner Lima da Silva
Cinegrafista: Éverton dos Santos, o Lima
Mulher do Boleiro: Larissa Aguiar
Parceiros do Boleiro: Javan Bernardo, Gabriel dos Santos, Carlos César Oliveira, Andersson Du, Édem Marques, Taylor da Silva e Jean Carlos Varela

Boleirômetro
Visualizações dos vídeos: 4 milhões
Seguidores no Facebook: em seis meses, mais de 68 mil
Curtidas da página: mais de 67 mil
Canal no Youtube: em três meses de canal, mais de 5 mil inscritos


 
 
 
 
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