Luto no jornalismo

Grêmio e Paulo Sant'Ana, uma paixão arrebatadora 

Entenda, em 11 tópicos, como na formatação de um time, como se deu essa paixão correspondida

20/07/2017 - 21h03min | Atualizada em 21/07/2017 - 08h49min

Paulo Sant'Ana foi um jornalista de vanguarda. Experimentou a atuação multimídia muito antes de ela ser essencial nas redações do século 21 e assumiu sua paixão clubística sem abrir mão de fazer jornalismo pautado pela honestidade intelectual, por vezes criticando seu próprio Tricolor. No dia da sua morte, recebeu diversas homenagens do Grêmio, clube que adotou o slogan Clube de Todos, do pioneiro Adão Lima (primeiro jogador negro entre os grandes gaúchos, em 1925), de Lupicínio Rodrigues, da Coligay e tantos outros símbolos de pluralidade, assim como era Pablo, o cronista mais popular que este Estado já teve e que ensinou o público a ler jornal de trás para a frente. 

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Entenda, em 11 tópicos, como na formatação de um time, como se deu essa paixão correspondida.

1) Papai Noel Azul (1961)

Foto: Agencia RBS / Agencia RBS

Foi um começo e talvez o marco inicial da empatia com a massa tricolor. Era uma tarde quente. Decisão do Gauchão em dezembro de 1961. O Gre-Nal era no estádio colorado, os Eucaliptos, e o Inter era favorito. No fim, a vitória gremista por 3 a 2 levou Sant'Ana a invadir o gramado vestido de Papai Noel azul. Hoje, essa brincadeira inofensiva poderia levar a interdição de estádio.

2) "Dario, Dario, Dario..." (1975)

Foto: Ver Descrição / Agencia RBS

Era o próprio Sant'Ana quem lembrava:

— Escrevi 238 vezes a palavra "Dario" na minha coluna, pedindo ao Grêmio que o trouxesse.

A coluna foi escrita com esse nome, somente ele, do início ao fim. O Grêmio não acatou a sugestão, mas o Inter sim. Dario foi bicampeão brasileiro pelo Colorado em 1976, para desgosto do cronista.

3) André Catimba (1977)

Assim como fizera com Dario, Sant'Ana pediu Luisinho. E, de novo, o Grêmio não acatou, mas o Inter sim. Só que veio para o Grêmio outro centroavante marrento (como Luisinho) e de grande qualidade técnica: André Catimba. Sant'Ana se encantou pelo futebol do baiano cheio de ginga, que marcou época no Grêmio e o fez esquecer de Luisinho. Naquele ano, o Tricolor rompeu a hegemonia regional colorada dos anos 1970, e o cronista se consolidou como representante do clube.

4) Primeiro Brasileiro (1981)

A decisão foi entre Grêmio e São Paulo, no Morumbi. Sant'Ana anunciou ali uma mudança na carreira:

— O palhaço agora se aposenta e dá lugar a um comentarista como todos os outros.Fã dos centroavantes, Sant'Ana tinha como ídolo o autor do gol no 1 a 0 gremista, Baltazar, o Artilheiro de Deus.

Deu recado até para a torcida colorada, agradecendo a quem não secou.

5) Renato (anos 1980)

Foto: Anderson Fetter / Agencia RBS

Frase de Renato nesta quinta-feira de cinzas:

— Meu sucesso no Grêmio, devo muito ao Paulo Sant'Ana. Lembro quando ele brigava com o mundo para que eu jogasse, estou bastante emocionado e triste, é uma perda irreparável para todos nós, para a torcida gremista.

Houve André, Valdo, até Alcino, a Estrela de Belém. Mas Renato, o maior ídolo tricolor de todos os tempos, sempre teve o lugar mais nobre no coração do cronista.

6) Campeão Mundial (1983)

Grêmio campeão do mundo. Aqui, o primeiro parágrafo do texto de Sant'Ana, escrevendo de Tóquio: "Ainda tenho na boca o sabor do cal do gramado do estádio Nacional de Tóquio, que beijei desesperadamente agradecido depois que o Grêmio se tornou campeão mundial. Não foi um gesto louco, embora naquele momento até duvidasse da minha sanidade diante da alegria de ver o meu Grêmio com o maior título que o Rio Grande do Sul já conquistou em toda a sua história esportiva. O beijo na grama marcada de cal foi um agradecimento a esta terra que permitiu ao Grêmio uma conquista dessa importância. Pois saibam que esse sabor é doce, maravilhoso. Ainda tenho essa marca na boca, ainda estou sujo de cal, mas sujo e alegre como nunca estive na vida."

7) Flauta no rival (1989)

Foto: Reprodução / RBS TV

Depois do famoso "Gre-Nal do século", na semifinal com vitória colorada, o Inter enfrentou o Bahia na final do Brasileiro de 1988, em 19 de fevereiro de 1989. E perdeu. Sant'Ana viu no tricolor baiano o vingador do tricolor gaúcho e apresentou seu quadro no Jornal do Almoço, no dia seguinte, fantasiado de baiana.

8) Bicampeão da América (1995)

Sant'Ana mal conseguia falar sobre o bicampeonato da Libertadores conquistado pelo Grêmio em 1995. Chorava.

— Não acredito que o Grêmio seja duas vezes campeão da América. Vou me beliscar, porque uma vez campeão da América já era inacreditável. Parece que estamos no paraíso, e não na Terra — disse, quase afônico, dois dias depois.

9) A Batalha dos Aflitos (2005)

Terminado aquele que talvez tenha sido o jogo mais épico da história do futebol — o Grêmio venceu com apenas sete jogadores em campo, o goleiro Galatto defendendo pênalti no final do jogo e Anderson fazendo o improvável gol em seguida, com o clube voltando à Série A e conquistando o título da Série B —, Sant'Ana disse:

— Tenho duas palavras para pronunciar: Anderson e Grêmio. É a maior alegria esta que o Rio Grande do Sul está vivendo hoje. Saiam para as ruas, gremistas. Isso é o êxtase, nunca tinha visto milagre igual.

10) Arena (2012)

Arrebatado pela Arena, o novo estádio gremista, Sant'Ana disparou:

— Hoje, não tem china pobre nem garçom de cara feia (referência à música Recuerdos da 28, de Chico e Knelmo Alves). Hoje é dia de comemorar. Minha casa é tão bonita, professor (Ruy Carlos Ostermann). Olha pra ela!

11) Marcelo Grohe (2013)

Sant'Ana tinha eleitos e renegados. O goleiro Marcelo Grohe, que viria a ser fundamental na conquista do pentacampeonato da Copa do Brasil em 2016, esteve no segundo grupo. Nem os gênios acertam sempre.

*Zero Hora

 
 
 
 
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