Entrevero

A história do campeão gaúcho que agora vende churrasquinho

Desempregado e impedido de jogar por punição da Justiça, Júlio Abu completa a renda negociando espetinhos em Cachoeirinha

Por: Rafael Diverio
11/08/2017 - 07h01min | Atualizada em 11/08/2017 - 15h57min

Em maio, Júlio Abu foi campeão gaúcho com o Novo Hamburgo. Em agosto, desempregado e impedido judicialmente de jogar, abriu um churrasquinho em Cachoeirinha.

Para garantir seu sustento neste período sem atuar, o meia-atacante de 29 anos, que deixou saudades em diversos clubes do Interior, como Cruzeiro-RS e São Paulo-RG — além, claro, do Novo Hamburgo —, usou o dinheiro da premiação pela conquista do Estadual para reformar e ampliar o bar/restaurante de seu pai, no bairro Granja Esperança. De quebra, comprou uma churrasqueira para fazer espetinhos. Abriu o local há uma semana. Na sexta-feira passada, chamou uns amigos para fazer um pagode e movimentar o ambiente. A estratégia deu certo: faturou mais de R$ 600. Hoje terá sua segunda edição.

— Conheço muita gente daqui e de Porto Alegre, os boleiros vêm bastante prestigiar e dar uma força. Além disso, vem a turma querer tirar foto da medalha — orgulha-se.

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A nova atividade garante seu sustento e o de seu filho, de dois anos e meio, fruto de um relacionamento anterior. Enquanto isso, faz treinos físicos para manter a forma. No final de semana, deve estrear no campeonato amador de Bom Princípio, onde atuará ao lado de Preto, o homem que ergueu o troféu do Gauchão pelo Novo Hamburgo. Assim, poderá recuperar o ritmo de jogo. E só assim, na várzea mesmo, já que está suspenso das atividades profissionais.

A punição se deu após o Gauchão. Convidado pelo São Paulo-RG para jogar a Série D, com a promessa de R$ 4,5 mil de salário e a iminente titularidade na competição, voltou para Rio Grande, onde foi um dos expoentes técnicos na campanha de 2016, que teve vitória sobre o Grêmio (com gol seu, olímpico) no Aldo Dapuzzo, e empate com o Inter no Beira-Rio. No quarto jogo do campeonato, contra o Brusque, meteu-se uma confusão. Abu foi um dos três jogadores do time gaúcho a receber cartão vermelho do árbitro Johnn Herbert Alves Bispo, da Bahia.

Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

— Ele estava arrogante, nos minando. Perdi a cabeça e realmente o empurrei — admite.

Na súmula, Johnn Herbert Alves Bispo relatou que expulsou "Júlio Cezar Monteiro Machado, por peitar o árbitro contestando suas marcações e dando pontapé por duas vezes na altura da canela do árbitro. O mesmo foi afastado da equipe de arbitragem pela Brigada Militar, não se contentando tentou passar pelo bloqueio (...) tendo que ser contido pelos seus companheiros, ofendendo toda a equipe de arbitragem com xingamentos desferindo as seguintes palavras 'seus filhos da p..., ladrão, vocês são todos covardes, ladrões vocês não iram sair daqui vivos' sendo retirado a força pelos seus companheiros de equipe" (sic).

Baseado neste texto, os auditores do STJD condenaram Abu a 180 dias de suspensão do futebol. Não houve nem defesa: o São Paulo alegou não ter dinheiro para pagar um advogado e proteger os interesses do jogador. Ao final da participação na Série D, o meia-atacante, assim como todos os outros atletas, foi dispensado — sem receber. Acionou o escritório da advogada Mariju Maciel para cobrar na Justiça o que lhe deve. O presidente do São Paulo-RG, Hugo Melo, confirma que o clube não teve condições de pagar os atrasados. A penúria bateu também na primeira divisão.

— Talvez não impedisse a punição, mas certamente uma boa defesa poderia ter diminuído o período — argumenta Mariju.

Agora, Júlio Abu estuda ingressar com um pedido no STJD reduzir sua pena mediante pagamento de cestas básicas. A decisão só não foi tomada ainda porque pagar cesta básica pode estar acima do orçamento do jogador. Além disso, os 180 dias vencem em dezembro, período em que os clubes do Gauchão terminam de montar seus elencos para o campeonato. Caso diminua pela metade, por exemplo, só poderia jogar a parte final da Copa Paulo Sant'Ana, que começa amanhã. E nessas copinhas, os salários raramente vão acima de R$ 1 mil. Isso quando são pagos em dia. No fim das contas, ao menos financeiramente, o churrasquinho rende mais.

Apesar da dificuldade, o meia-atacante nem sequer pensa na possibilidade de abandonar a carreira nos gramados.

— Foi o que fiz a vida inteira. E quando lembro daquele título gaúcho, para mim é como ganhar a Copa do Mundo. Até porque vencemos um campeão do mundo. Não posso parar de jogar. Não quero parar de jogar. Não vou parar de jogar.

 
 
 
 
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