Versão mobile

"Poesia para mim é um mistério. Não tenho a menor idéia como se faz", diz Verissimo

Leitores de zerohora.com entrevistaram o escritor gaúcho

29/11/2007 | 17h45
"Poesia para mim é um mistério. Não tenho a menor idéia como se faz", diz Verissimo José Doval, Banco de Dados - 13/05/2003/
Escritor afirmou que tem "lido muito pouco por prazer" Foto: José Doval, Banco de Dados - 13/05/2003
Durante cerca de 10 dias, os leitores de zerohora.com puderam mandar perguntas ao escritor e colunista de Zero Hora  Luis Fernando Verissimo. Das mais de cem questões enviadas, algumas foram selecionadas e respondidas pelo cronista, que falou sobre música, política e literatura, entre outros assuntos.

A respeito da vasta circulação de textos (que não são seus) sob seu nome em emails, Verissimo, conformado, declarou que "a internet é uma terra de ninguém, ou de gente demais, e não há controle possível" e revelou que há um deles pelo qual já até recebeu muitos elogios.

Débora Muccillo, Porto Alegre — O jazz está sendo ouvido por um público jovem, mas de maneira um pouco diferente, mescla de jazz tradicional com as batidas eletrônica. O que tu achas a respeito?

Luis Fernando Verissimo — O jazz que eu gosto de ouvir é o pré-eletrônico, o que não significa repudiar o que estão fazendo hoje, o fusion e os outros estilos. Sempre digo que acompanhei a progressão do jazz até o Miles Davis — que foi um pioneiro na mistura do jazz com o rock — começar a usar sandálias. Mas nada contra as sandálias, também.

João Pedro Schmidt, Santa Cruz do Sul — Olá, Luis Fernando. Na hipótese de poder reinventar o Brasil, por onde você começaria? Ou deixaria o país assim mesmo, para não correr risco de ficar mais complicado?

Verissimo — Pois é, há pessoas que dizem que o Brasil já começou errado, sendo descoberto por engano — e por portugueses! Não concordo. Nossa herança portuguesa não é culpada pelos nossos descaminhos. Mas algumas coisas, lá no começo, poderiam ter sido realizadas de outra forma. A história do Brasil sempre foi feita de cima para baixo, com escassa participação popular, e isso tem muito a ver com nosso passado imperial e escravocrata. Acho que a república é que ainda não pegou bem no Brasil. Poderíamos recomeçar proclamando-a de novo.

Paulo Flach Flach, Paverama — Prezado Luis Fernando Verissimo, primeiramente é uma honra saber que vais ler um texto meu. Os teus, leio todos. Na minha modesta opinião, tu, o David Coimbra e o Sant'Ana são os maiores escritores do Brasil. Cada um no seu estilo. Mas homem, cadê aquelas críticas sutis ao governo? Aproveita tua influência, vivente!

Verissimo — Tenho criticado, principalmente, a política econômica deste governo, que é igual à do governo anterior. Mas não teria sentido criticar o que este tem de diferente do que eu não gostava no outro. Me cobram coerência, pois critiquei bastante o FH e tenho poupado o Lula, mas aí é uma questão de definir o que é coerência. Eu acho que temos que ser coerentes com nossas convicções, não com a crítica pela crítica.

Carlos Goulart, Tubarão (SC) — Há uns 20 anos, li na Veja uma crônica sua chamada "Wilminha e o Intelectual" (se não me falha a memória)que terminava com a frase "ela é uma gamine". Procurei o significado desta palavra em todos os dicionários que me passaram pelas mãos e nunca encontrei. Você poderia matar esta minha curiosidade ?

Verissimo —
Procure num dicionário francês. "Gamine" que dizer menina ou uma moça cujo encanto se deve ao seu jeito adolescente ou pré-adolescente. Era usado no Brasil antigamente. Hoje, aparentemente, só é usada por antigos como eu.

Fernando Guimarães, Porto Alegre — Prezado Sr. Luis: Minha pergunta é sobre seu lado cartunista, o qual também admiro. Seus traços são simples, mas também muito singulares. O senhor fez algum curso de desenho ? PS: O Boca ainda não se aposentou por tempo de serviço ?

Verissimo — Fiz cursos esporádicos de desenho. Pensei em estudar arquitetura e sempre achei que faria alguma coisa ligada a desenho. Quando fui morar no Rio, procurei emprego em agências de publicidade como desenhista. Não tinha a menor idéia de que acabaria redator. Quanto ao Boca, não dá nenhum sinal de que irá desaparecer num futuro próximo. Para desespero do seu sogro.


Pastel perfeito


Felicia Jamieson, Jersey City (EUA) — Caríssimo LFV! Que prazer ter esta oportunidade de te fazer uma pergunta. Gostaria de saber se, depois de muitos anos de procura, você encontrou o pastel perfeito.

Juglans Souto Alvarez, Porto Alegre — Algumas vezes, o senhor falou sobre sua caminhada em busca do pastel perfeito.Também sou louco por um bom pastel, tranqüilo, tradicional, sem frescura nem farinha. Só que tá difícil. Gostaria de ouvir algo sobre tal possível derrocada gastronômica da nossa era. Socorro! Abraço.

Verissimo — Ainda não encontrei o pastel perfeito, que para mim ter que ser o clássico: carne moída (e mais carne do que vento), azeitona e ovo. O que chegou mais perto, na minha experiência ainda limitada, foi o daquela pastelaria que fica em Maquiné, no caminho das praias, à direita de quem vai.

Alex Totti Soares Totti, Gravataí — Sou professor de português e gostaria de saber a sua opinião sobre o uso da linguagem da internet pelos jovens e a sua influência na aprendizagem escolar, uma vez que está cada vez são cada vez mais constantes os erros ortográficos nas redações escolares. O que o senhor acha do assunto?

Verissimo — Acho essa influência da nova ortografia internética ao mesmo tempo lamentável, na medida em que faz os jovens desaprenderem a escrever, e boa, na medida em que facilita a comunicação, que as vezes é mais importante do que a correção. E é, acima de tudo, inescapável. A internet se instalou em nossas vidas como uma força de ocupação contra a qual não temos recurso. A não ser, claro, desligar o computador.

José Luiz Bicca Heineck, São Gabriel (RS) — Por que não criarmos um projeto Erico Veríssimo, barateando os custos dos livros do Erico e fazendo com que a juventude tenha contato com seus livros? Os jovens lêem muito pouco e coisas de baixa qualidade. Como sabemos, quem não lê não sabe, não ouve e não vê. Coleção Érico Veríssimo precisa ser lida.

Verissimo — A questão do preço do livro é antiga. Os editores têm muitos argumentos para explicar a falta de edições alternativas mais baratas — uma, paradoxal, é que brasileiro repudia livros muito baratos, com sua conotação de coisa impermanente e perecível. Os livros do meu pai estão sendo reeditados pela Companhia das Letras e alguns, ou trechos de alguns, têm saído em coleções mais acessíveis.

Micheli Marques, Porto Alegre — Você, como bom escritor que é, além de seus livros, o que mais me recomenda ler? Sempre fico em dúvida ao escolher livros! Quais que não podem faltar na cabeceira da minha cama? Um grande abraço.

Verissimo — Tenho lido muito pouco por prazer, Micheli. Leio mais jornais e revistas para me informar e livros sobre política e história que não recomendaria para a cabeceira de ninguém. Mas você não vai errar se se concentrar nos gaúchos, no Moacyr Scliar, no Sérgio Faraco, no Assis Brasil, na Lia, na Marta, no Tabajara Ruas.

Haydée Schlichting Hostin Lima, Santa Maria — Sendo sua leitora, gosto de ler "poesia numa hora dessas? Pergunto: Quais são os seus poetas preferidos? Algum deles o inspirou? Abraços e carinhos poéticos.

Verissimo — Poesia para mim é um mistério, Haydée. Não tenho a menor idéia de como se faz. As que faço são brincadeiras. Li bastante o T.S.Eliot e o Yeats, o Carlos Drummond de Andrade, o Manoel Bandeira, o João Cabral. E, é óbvio, Mário Quintana.

Cristiane Koehler, São Leopoldo — Prezado Verissimo, inicialmente, quero dizer que sou sua fã de carteirinha e que leio todas, mas todas as tuas colunas em ZH. A minha pergunta é: de onde vem tanta inspiração? Será que é genético? Um grande abraço

Verissimo — Muito obrigado, Cristiane. Quando me falam em inspiração, sempre uso uma frase do Fraga, segundo a qual criação é 90 por cento transpiração e 10 por cento desodorante.

Mauro Falci, Porto Alegre — Um de seus personagens (Daniel, de O Clube dos Anjos) é hilário, ele não consegue ficar quieto, sempre tem que falar alguma coisa. Qual é a característica e personagem que mais prazer lhe trouxe ao botar no papel?

Verissimo — No último romance que escrevi, "A décima segunda noite", baseado numa comédia do Shakespeare, tinha um personagem que Shakespeare chamou de Fest e eu chamei de Festinha. Na peça ele era um bobo da corte e na minha versão era quem comentava a ação e gozava todo o mundo, com a liberdade que têm os bobos da corte. No seu caso um bobo moderno. Gostei do personagem.

Ricardo Fetter Lopez, Essen, Alemanha — Sou teu fã incondicional. Seria possível continuar a saga do Analista de Bagé? Agora umas décadas mais maduro, mais ponderado, dentro de um mundo globalizado e altamente tecnológico. Um abraço, que continues assim pra sempre!

Verissimo — Muito obrigado, Ricardo. Infelizmente, o Analista se aposentou e hoje vive com a recepcionista Lindaura na sua fazenda perto de Bagé, onde só analisa vaca louca.

Luise Poitevin, Porto Alegre — O senhor é um gênio da raça e dá mais orgulho ainda em saber que é gaúcho. Amo o seu humor fino e inteligente. Agora eu queria saber uma curiosidade de quem também é colorada: o que sentiste quando o Internacional foi campeão mundial?

Verissimo — Ainda não acreditei, Luise. Confesso que não fui ver o filme da conquista com medo de que, no filme, o Ronaldinho faça aquele gol de falta. E eu acorde.


"Falsos Verissimos"


Regis Candeia, Caxias do Sul — É comum receber pela internet muitas crônicas cuja autoria lhe é atribuída, mas que são falsas. A um leitor um pouco mais atento, fica fácil descobrir que não foram escritas pelo Veríssimo original, seja pela falta de técnica, seja pelo estilo. Isso lhe incomoda ou atrapalha o seu trabalho?

Kevin Ronaldo Bastos, São Paulo (SP) — Dentre os vários textos apócrifos que circulam pela internet, há algum que você leu e pensou: "esse não é meu, mas poderia ser?"

Verissimo — Tem um texto, chamado "Quase", que é bom e pelo qual já recebi muitos elogios. Uma senhora me disse que nunca gostara muito do que eu escrevia, mas que no "Quase" eu me superara. Não há o que fazer. A internet é uma terra de ninguém, ou de gente demais, e não há controle possível. Só uma dica: geralmente quando a assinatura é falsa, o "Luis" é com "z".


Dicas para aspirantes


Adriana Schonhofen Garcia, Miami (EUA) — É uma honra ter um momento de sua atenção. Admiro sua obra e a de seu pai. Escrevo muito. Faço das minhoquinhas azuis no papel esculturas de pensamentos. O que dirias a alguém que quer ser exclusivamente escritor, mas que ainda está preso a profissões mais mundanas? Obrigada e um grande abraço.

Roger Ceccon, Cruz Alta — Parabéns, Luis Fernando! O que você considera importante para que um escritor tenha relevância? E quais conselhos você dá a quem inicia na carreira da escrita para ter uma qualidade ascendente? Um abraço!

Verissimo — A gente aprende a escrever, lendo. E quem quer escrever deve escrever. Isto é, mesmo sabendo das dificuldades que terá para ser publicado, das dificuldades de encontrar um público e ainda mais de fazer carreira como escritor, deve continuar. Ninguém é bom juiz do próprio talento, e deve-se ouvir opiniões e procurar orientação, mas o mais importante é não desistir.

VEJA TAMBÉM

     
Zero Hora No jornal Zero Hora você encontra as últimas notícias sobre esportes, economia, política, moda, cultura, colunistas e mais.